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1º d.C. e até mais…

PRIMEIRO DIA APÓS A COPA DAS COPAS, RUMO À RÚSSIA

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

14 Julho 2014 | 19h22

Carles: 500 conversas depois, você segue se sentindo faminto, está saciado ou um pouco saturado?

Edu: Saturado nunca, faminto também não. Satisfeito na maior parte.

Carles: Da minha parte, confesso, tive grande satisfação pela experiência inusitada – e não sei se é muita pretensão achar que o 500 aC conseguiu fomentar um pouquinho o debate sobre o futebol como esporte, expressão artística e cultural, vilão, jogo de interesses, etc. Nossas diferenças de perspectiva, de latitude e de humor mediadas pelo instantaneidade de uma ferramenta de comunicação online não poderia ter produzido resultados mais surpreendentes. Ao menos para mim, foi. Desde o já  longínquo 4 de Fevereiro de 2013, um ano e meio que  inclui ao  menos três gigantescos eventos esportivos. Qual é a grande transformação que você destacaria?

Edu: Na nossa perspectiva acho que transformamos em certeza a chance de ter colaborado nessa diversificação do debate com a ferramenta que temos – a palavra. Seria, sim, pretensioso considerar mais do que isso, mas também significaria uma cegueira completa ignorar a fidelidade e a participação de tanta gente que nos acompanhou nessa tertúlia de todos os dias. Algo conseguimos. Se a Copa do Mundo era a linha de chegada, também sabíamos que era preciso qualificar de alguma forma certas discussões e tentar ‘clarear’ equívocos no meio do caminho. Fomos testemunhas de falácias e injustiças, mas também retratamos aqui, como nossas modestas opiniões e análises binacionais, várias nuances sociais em torno desse evento esportivo que sacode o mundo a cada quatro anos. Não duvido de que algumas sementinhas ficaram.

Carles: É curioso que o grande inspirador do espaço tenha sido um inédito alinhamento entre planetas que arbitrariamente decidiu forjar uma rara circunstância: pela primeira vez na história a Seleção e La Roja se convertiam nos rivais a bater. O tempo provou que era só uma desculpa para transportar o prazer de uma conversa de boteco para um meio capaz de aumentar a roda à participação de novos e velhos amigos. Como parte da cultura e de muitas culturas, o futebol mudou nesse ano e meio, graças à intervenção de alguns e apesar de outros, mais desatentos ou preguiçosos. E por causa disso tudo, estão chegando outras mudanças como é o caso dos famosos rankings e do status quo que certamente não vão passar despercebidas. Será que as musas do 500 aC aprenderam a lição?

Edu: Se os olhares estão no prumo e as cabeças dispostas sempre se aprende, né Carlão, e mais ainda se conseguirmos perceber a dinâmica desse jogo que nos serviu de pretexto. E falo tanto da dinâmica social e cultural quanto da esportiva. As seleções de futebol daqui e daí tiraram lições, ou ao menos espero que sim, bastante duras no padrão esportivo. E este país, que também já foi seu, passou por uma provação que é para poucos diante de tanta adversidade e intolerância, principalmente a intolerância interna. O 500 aC certamente está de alma lavada por ter enxergado desde o início que era possível.

Carles: Também não tem muito mérito, né Zé? Basta um pouquinho de discernimento na hora de escolher as fontes de informação e, na falta dele ou delas, diversificar, ler, assistir ou ouvir a quantidade máxima e mais variada de opiniões só para começar porque, depois disso, ainda falta processar tudo. É o que se chama opinião pessoal. Em resumo, e como se diz na minha terra, tener dos dedos de frente para entender a importância do momento histórico do que se está participando. E não me refiro só à Copa. Desde aqui nós percebemos a relevância das mudanças no Brasil da última década e sabemos que é só o começo, apesar de que, suspeitosamente, nem sempre as informações que nos chegam tenham a pluralidade desejada. Apesar desse cadáver esquisito informativo, os meios interessados na desqualificação deste lado da poça não encontraram muitos motivos e foram condenados a se divertir com a Copa.

Edu: Pois é, por 30 e poucos dias seres rastejantes de todas as espécies e tamanhos ficaram se divertindo na surdina, recolhidos em suas tocas. Mas, tudo bem, também eles têm direito e quem somos nós para tirar de alguém a oportunidade de viver momentos de lucidez e desfrutar da vida? Só sei que, nestas linhas, retratamos histórias de diversidade e encantamento, grandes personagens que saíram de heróis a vilões e vice-versa, mazelas e algumas bizarrices que fazem parte do jogo. E, enfim, falando em musas, peço licença ao compositor e poeta paulistano Paulo Tatit, que você conheceu bem do Grupo Rumo, autor da canção ‘Bem Baixinho’, inicialmente dirigida a alguma namorada, mas que no processo de criação virou uma declaração singela de apego ao país, bem a calhar para este momento: “Esta nação é assim com todo mundo/Grandalhona meio velha mas uma musa e tanto/E quando você menos espera ela diz ‘estou livre outra vez!'”

Carles: É uma das minhas torcidas mais antigas. Nada é impossível e quando a gente menos espera… se até La Roja já tem uma estrela na camiseta…

Edu: É isso. Moscou que nos aguarde.