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As lições dadas por Vasco e São Paulo

Nos clássicos contra Fluminense e Palmeiras, ambos mostraram, mais uma vez, que favoritismo teórico não ganha jogo. Também é preciso estratégia, determinação e raça

Almir Leite

28 Maio 2017 | 11h24

O Campeonato Brasileiro está apenas na terceira rodada. Rodada que foi aberta com dois clássicos estaduais que serviram, entre outras coisas, para relembrar que soberba e favoritismo, no futebol, invariavelmente levam ao chão.

No Rio, Vasco e Fluminense fizeram um ótimo clássico, pelo segundo tempo. Em São Paulo, São Paulo e Palmeiras proporcionaram um jogo morno.

No Rio, o Fluminense era favorito, apesar de partida ser em São Januário; em São Paulo, o favoritismo era do Palmeiras, apesar de o jogo ser  no Morumbi.

Mas, em campo, as histórias foram outras. Bem outras.

O Fluminense é considerado a melhor surpresa do ano, por ter montado um bom time mesmo sem dinheiro, baseado em pratas da casa – sempre foi competente em formá-las – e liderado por um treinador competente e que conhece as Laranjeiras, o clube e os anseios de sua torcida como a palma da mão.

Bastaram os bons resultados iniciais e a maneira ofensiva, competitiva e sobretudo solidária de jogar que as limitações e do time e do elenco – como a gritante ineficiência defensiva, sobretudo pela deficiência da maioria dos jogadore do setor, em todas as posições – fossem simplesmente esquecidas.

Já o Vasco, pelo mau começo, foi, e é, apontado como candidato a novo rebaixamento. Veredicto dado, deixou-se de observar aspectos como o rejuvenescimento que Milton Mendes fez no time. Preferiu-se criar alarde pela barração de Nenê, o craque do na vascaína, mas que não aguenta mais correr o jogo todo três vezes por semana.

E assim foram os dois times para o clássico em São Janu, cuja vitória vascaína, com o dolorido gol (definição de Abel Braga), foi mais do que justa. Premiou o melhor time, na bola e no espírito.

Resumidamente: o Vasco jogou com humildade, marcou bastante, de maneira impressionante, no campo todo e todo o tempo – algo que com os velhinhos seria impossível – procurou jogar quando tinha a bola e, sobretudo, disputou cada lance com muita vontade e determinação. Foi um time ciente de suas limitações.

Ganhou quase todas as divididas.

Por quê?

Porque os jogadores do time com alma (definição e promessa de Abel Braga) não a tiveram desta vez. É certo que faltou malandragem para segurar a vitória, e depois o empate. É certo que tomar dois gols da mesma maneira é algo improvável.

Mas quem observou com atenção, percebeu também que, independentemente de algumas atuações individuais bem ruins, e ninguém é obrigado a estar inspirado sempre, faltou também correr mais, ir com mais sede e fome nas divididas. Faltou alma.

Que sirva de alerta, pois o Fluminense deste ano só irá a algum lugar se todos, o tempo todo, tiverem consciência de suas limitações. Dessa maneira, aproveitarão melhor suas várias virtudes.

No Morumbi, muita gente dava como certo que o jejum de 15 anos sem vitórias do Palmeiras sobre o São Paulo no estádio iria acabar. Afinal, o time teve seu técnico de volta, tem o elenco considerado o melhor do Brasil (ah, o papel!), contrata quem e quando quer, e o adversário tem um treinador cabeça dura, prepotente (e como!) e um time com limitações técnicas e desencontros táticos.

Aí, o que se viu? Rogério Ceni, a quem inteligência nunca faltou, parece dar sinais de que está começando a perceber que a realidade não é exatamente ao que ele imaginava.

No clássico, mudou de maneira mais radical, uma vez que já vinha fazendo isso, a forma de jogar do time. Em vez de tomar a iniciativa, deixou essa incumbência com o adversário. Posicionou a equipe mais atrás do que normalmente, tratou de se proteger defensivamente e explorou o contra-ataque.

O Palmeiras, que este ano tem demonstrado muita dificuldade em furar defesas que se fecham bem – isso vem acontecendo desde Eduardo Baptista e até agora não mudou com Cuca -, ficou sem saber o que fazer. Sem espaço, seus jogadores não conseguiram levar vantagem tanto no confronto individual como no coletivo. Tabelas e jogadas em aproximação foram infrutíferas.

No final, venceu o time mais determinado e mais bem resolvido em campo – a fórmula de jogar do Palmeiras, com Felipe Melo como um terceiro zagueiro não funcionou e serviu para mostrar que Mina, quando se posiciona mais pelo lado da área, é bastante vulnerável.

O clássico mostrou que, se Rogério Ceni agir com inteligência e humildade com mais frequência, o São Paulo no mínimo não passará sufoco no Brasileiro. Para o Palmeiras, deixou claro que quantidade de elenco não é qualidade.