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Botafogo assume a carapuça: é o time do chororô

Almir Leite

13 Fevereiro 2018 | 12h02

O futebol, como muita coisa neste mundo, está ficando muito chato. A “era” do politicamente correto, sob o argumento da pregação do respeito – como se brincadeiras, gozações, galhofas, significassem automaticamente falta de – está tornando mais sem graça, mas duras, mais intolerantes, entre outros mais, as relações. E mais amadoras também.

A decisão dos “novos” dirigentes do Botafogo, clube que não está nadando em dinheiro – ao contrário, está quase se afogando nas dívidas -, de não permitir que a final da esculhambada Taça Guanabara seja realizada no Engenhão em represália à comemoração de Vinícius Júnior no clássico de semifinal é ridícula, patética.

Impedem o clube que ganhar uma graninha e, pior, assumem a carapuça. Pior ainda, obrigam os torcedores a assumi-la.

Vinícius Júnior é um garoto de 17 anos, que fez um golaço no clássico que seu time venceu por 3 a 1, mas que deveria ter ganho por pelo menos 6, e que comemorou tirando um sarro do Botafogo, recordando uma história iniciada há quase dez anos. Fez o gesto do chororô. Comemorou à moda antiga, dos tempos em que o Brasil tinha o melhor futebol do mundo e em que gozação era “paga” com gozação.

Futebol sempre foi praça de alegria, e gozações fazem parte dessa alegria. Se alguém tira sarro do outro, este outro mata no peito, sai jogando e arranja uma maneira, legal (nos sentidos amplos e diversos da palavra) de dar o troco.

Na própria história entre Flamengo e Botafogo tem um episódio assim: o Botafogo aplicou em 6 a 0 em 1972 e seus torcedores passaram anos tirando sarro dos fãs do adversário. Até que em 1981 o Flamengo devolveu os 6 a 0 e acabou com a gozação. Ou seja, deu o troco.

Agora não, uma gozação de um garoto leva os dirigentes e fazerem beicinho, a se sentirem desrespeitados, a fechar o estádio ao rival. E a fechar o cofre do clube à entrada de cem milzinhos.

É certo também que vivemos tempos de ânimos acirrados, em que qualquer olhar torto pode acabar em violência. Justamente, e também, por isso cabe a quem comanda jogar água e não gasolina nas fogueiras.

Seria melhor, e mais respeitoso com sua imensa e fiel, apesar de sofrida, torcida que o Botafogo se preocupasse em, quando aparecer uma ocasião, dar o troco a partir da bola.

Mas os dirigentes, na impossibilidade (ou será incompetência?) de montar um elenco competitivo, preferem tomar atitudes infantis. Jogam para a torcida. Mas será que, baixada a poeira, o torcedor não vai perceber que o que falta ao Botafogo é um bom time.

Isso vale também para os jogadores que foram em cima de Vinícius Júnior. Teriam agradado muito mais à torcida se tivessem feito um bom jogo, mesmo perdendo, do que posando de machões.

O Botafogo, com passado que justifica plenamente o apelido de Glorioso, não merece ser tratado como um clube de segunda ordem. Principalmente por seus dirigentes. Tem de manter a altivez. Isso sim é respeitar os torcedores.

PS: de positivo, o fato de a diretoria do Botafogo ter assumido o motivo de não permitir que o Flamengo jogue no Engenhão. A transparência é sempre saudável.