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Rogério Ceni tem de deixar de ser ídolo e começar a ser técnico

Estratégia de tapar o sol com a peneira a cada derrota não vai levar o São Paulo a lugar nenhum

Almir Leite

17 Abril 2017 | 16h45

Já escrevi neste espaço que Rogério Ceni tem tudo para ser um grande treinador. Aposto nisso. Acho que vou ganhar. Tem ótima visão sobre futebol, nos tempos de jogador analisava um jogo como poucos, é antenado. E assumiu a tarefa de treinador com proposta que agrada muito a quem gosta de futebol, o jogo ofensivo.

Mas, desde os tempos de jogador, Rogério Ceni tem, a meu ver, uma  característica que o atrapalha e pode retardar sua afirmação como treinador: a prepotência.

Essa prepotência o tem levado e negar, pelo menos publicamente,  as deficiências de seu time  e de sua proposta de jogo.

O São Paulo perde do Cruzeiro e o Cruzeiro não fez nada para ganhar. Apenas se defendeu e achou dois gols; o São Paulo perde do Corinthians e o Corinthians não fez nada para ganhar. Apenas se defendeu e achou dois gols.


Ceni ignora que os dois adversários estavam muito bem armados, que executaram quase à perfeição a proposta de jogo (defensiva, na essência) de seus treinadores, e que ele não foi capaz de dar à sua equipe uma alternativa para suplantá-los.

A rigor, não conseguiu mandar a campo uma equipe organizada.

Vejamos o jogo com o Corinthians. Como sempre faz, Fabio Carille armou seu time de maneira defensiva, fechado, e procurou, com a bola, tocá-la pacientemente até encontrar espaço, ou contar com falha adversária, para tentar o gol. Foi feliz duas vezes no primeiro tempo.

Aí, o que Carille fez? Simples. Colocou seu time atrás (até mais atrás do que deveria, na minha opinião), para bloquear as investidas do São Paulo, deixar o tempo passar e, se desse, tentar alguma coisa lá na frente.

Tinha dois gols de vantagem. E, se já não se arrisca quando o jogo está empatado, por que iria se expor com dois gols a seu favor?

Então, o que ocorreu? O São Paulo passou o segundo tempo praticamente inteiro no campo defendido pelo Corinthians. Mas o que fez de prático? Quase nada. Passou o tempo todo alçando bolas na área ou batendo no muro.

Rogério Ceni se apega a números para tentar defender o indefensível. O São Paulo teve 62% de posse de bola. Mas ter a bola não significa saber o que fazer com ela. Se não se sabe, não adianta. E, mostram as estatísticas, o São Paulo teve o mesmo número de chances reais de gol (quatro) que o Corinthians.

Faltou ao São Paulo alternativas. Jogadores que procurassem abrir o campo, buscassem espaços a partir das beiradas. Jogadores que se infiltrassem com a bola dominada, que fizessem tabelas, tentassem o drible, buscassem sofrer faltas (recurso de jogo).

Faltou ao técnico buscar alternativas para que isso acontecesse. É fato que Luiz Araújo. após aquela bela partida contra o Santos (único jogo contra time grande que Ceni ganhou), nada mais fez. É fato que Wellington Nem ainda não disse a que veio. Nem Neílton.

Mas é fato também que o São Paulo não tem essa qualidade toda no elenco que pensa que tem. Os laterais são limitados. O volante protetor da defesa, Jucilei, é muito pesado para um time que se propõe a jogar da maneira que o Tricolor ainda jogando.

O problema é, então, Jucilei? Não. O problema é que estamos na segunda quinzena de abril e Rogério Ceni ainda não conseguiu dar ao time um equilíbrio, não conseguir fortalecer o sistema defensivo, protegendo-o – e isso não significa abrir mão do ‘ofensivismo’; ao contrário, pode deixar os encarregados de atacar até mais à vontade.

Mesmo porque, ter um zagueiro como Maicon por longo tempo ora cruzando bola, como se fosse um ala; ora tentando conclusão dentro da área, como se fosse centroavante; ora tentando armar a jogada, como se fosse um meio-campista, não é demonstração de time ofensivo. É pura desorganização.

Ceni é endeusado pela torcida são-paulina pelo que fez em mais de duas décadas dentro de campo. Merecidíssimo. Por isso, também vem sendo idolatrado como treinador, apesar das topadas que anda dando.

No entanto, é preciso rever, até no sentido de aperfeiçoar, alguns conceitos. E de entender com toda a sua inteligência e conhecimento de bola os limites do elenco que tem.

Do contrário, o mito pode se transformar em mico.