A queda do Zé, bola cantada

Antero Greco

06 Agosto 2017 | 23h50

Até demorou para Zé Ricardo cair. A demissão era bola cantada havia já um bom tempo. Custou a concretizar-se por resistência do presidente Bandeira de Mello, sobretudo, e também pelo apoio do diretor Rodrigo Caetano. Com o público, o desgaste era enorme.

Zé Ricardo ficou mais de um ano no cargo, que herdou com o afastamento de Muricy Ramalho. Pegou o time no começo do Brasileiro de 2016, em turbulência, e teve uma trajetória interessante: terminou em terceiro lugar, atrás de Palmeiras e Santos.

A boa campanha fez com que fosse confirmado para a temporada atual. A perspectiva era de sucesso, com a chegada de jogadores renomados e com a permanência dos principais nomes do ano passado. O aperitivo foi a conquista do título estadual, embora continue a ser parâmetro pouco confiável para avaliar capacidade de técnicos e elencos.

Ficou só no tira-gosto. A eliminação na primeira fase da Libertadores, com futebol fraco, marcou o início do fim da aventura de Zé Ricardo. Dali em diante, não conseguiu transmitir segurança para equipe e principalmente para torcedores. A cada tropeço que distanciava a equipe do topo, crescia a oposição a sua permanência. A derrota para o Vitória foi demais.


Zé Ricardo é o exemplo do bom sujeito e profissional digno: educado no trato com as pessoas, estudioso, funcionou bem como auxiliar. Tem talento. Mas lhe falta, ainda, lastro como treinador de clubes de ponta, com o peso do próprio Fla. Não criou a couraça que protege “professores” em períodos ruins, até que tudo se acalme.

O susto com a pressão ficou evidente nas últimas entrevistas. Zé Ricardo manteve-se sempre na defensiva, com respostas evasivas e olhar apreensivo. Mudou a escalação, após enxurrada de críticas. Tanto que neste domingo abriu mão de Márcio Araújo, um de seus titulares irremovíveis e que agora, por ironia, se torna o símbolo de uma experiência interrompida.

Zé Ricardo leva lições desse ano e tanto que ficou à frente do Fla: a principal delas é a de que o prestígio de técnico despenca rapidinho. Basta acumular tropeços que vai do céu para o limbo. Lembro que, em determinado momento do Brasileiro de 2016, escrevi que talvez estivesse “verde” para a missão. Na época, não foram poucos os xingamentos que recebi de torcedores do Fla, que enxergavam nele o maestro ideal para orquestra rubro-negro.

Agora, coitado, sai com desaprovação geral. Mas é assim mesmo: o torcedor é volúvel. E, convenhamos, as escorregadas seguidas do Fla não estavam ajudando muito a vida do Zé.

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