A vida do Neymar é… dele

Antero Greco

03 Agosto 2017 | 16h17

A transferência do Neymar para o Paris Saint-Germain é assunto mundial. Não por acaso. Trata-se de um dos grandes jogadores da atualidade, envolvido na negociação mais cara do futebol. Mais de 900 milhões de reais assustam, soam absurdos, quase obscenos.

Já se falou de tudo nestes dias, desde a suposta traição do moço ao Barcelona até a ganância de seus agentes (entenda-se sobretudo o pai). E, de passagem, se abordaram a loucura dos donos do PSG e eventuais problemas com justiça ou com Uefa, por causa de falta de fairplay financeiro. Ou seja lá o que isso queira significar.

Vi gente aos montes a lamentar a escolha de Neymar, sobretudo porque deixará um clube fantástico, interromperá parceria de sucesso com Suárez e Messi para entregar-se à aventura francesa. Não falta quem detecte retrocesso na carreira, seja por convicção ou simplesmente por simpatia pelas cores do gigante catalão.

Há análises em que não se esconde decepção pela atitude mercenária do jovem. Dedos acusadores lamentam que mude de ares por causa de dinheiro. Enfim, todo mundo está a cuidar da vida do craque. Ah, claro: teme-se até que isso influencie sua participação no Mundial do ano que vem, na Rússia. “Como estará a cabeça dele?”, questiona-se.


Gente, a vida do Neymar pertence ao… próprio Neymar. Ele é um jogador de futebol profissional. Isso significa que, ao avaliar ofertas e condições de trabalho, optará por aquelas que julgar mais convenientes, seja do ponto de vista pessoal como daquele da carreira.

Se achar que vale a pena saltar de Barcelona para Paris, ok. Eu, você, a torcida do Barça não temos nada a ver com isso. Entendo o lado do fã – esse sempre quer os ídolos a seu lado. Mas não é assim: os anseios, os sonhos, as ambições, as dúvidas, as angústias do Neymar são dele e apenas dele. No máximo, compartilha com seus parentes ou pessoas mais chegadas.

Assim é com a minha vida, com a sua, com a da torcida do PSG. Ninguém, exceto um restrito círculo (e olhe lá), se incomodará com os meus, com os seus, com os problemas dos torcedores franceses. Podemos ter um tapinha nas costas, umas palavras de conforto, um estímulo e fica por isso mesmo. No dia a dia, cada um desata seus nós como pode.

O ponto é o seguinte: Neymar enganou o Barcelona enquanto jogou lá? Pelo visto, não. Desonrou a camisa, fez corpo mole, foi mau profissional? As notícias dão conta que não há nada desabonador. Ou seja, foi funcionário correto com o clube. Agora, vai para outro lugar, como fazemos rotineiramente em nossas existências, anônimas ou não.

Todos temos sonhos de crescer na carreira, de ganhar mais, de ter sucesso e vida mansa. Normal. Neymar está tendo essa chance, de novo, e a agarra. A diferença está na grana: como se trata de dinheiro que a maioria dos mortais nunca verá, mesmo se voltasse pra Terra algumas vezes, aparecem tantos palpites, opiniões e críticas.

Se ele nasceu com estrela, com o bumbum virado pra lua, que bom, que Deus o ajude e que ele não se esqueça, também, de ser generoso. E assim mesmo, se achar que deva ser generoso. Se quiser ficar com o dinheiro todo só pra ele, que fique também. A vida é dele.

A nós cabe julgar como será o desempenho no Paris Saint-Germain. Que tenha sucesso e seja feliz.

E, se Deus puder se lembrar de mim algum dia com algum bilhete premiado, não vou recusar. Você recusaria?

(Na verdade, estou sendo injusto: Ele me ofereceu, até hoje, tudo de que preciso.)

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