Tragédia italiana (anunciada)

Antero Greco

13 Novembro 2017 | 21h24

Há quatro escolas no futebol com lastro de se tirar o chapéu: as de Brasil, Alemanha, Argentina e Itália. Não necessariamente nessa ordem. O tempo mostrou que, com altos e baixos, as seleções desses países se impõem – não por acaso o quarteto domina a história das Copas.

Mas tragédias às vezes atingem os gigantes. Para os brasileiros, há a frustração de 50, a tristeza de 82, a surra homérica de 2014. Os alemães se viram impedidos de jogar o Mundial de 50, após a Segunda Guerra Mundial, e perderam algumas finais.

A Argentina não esteve em 34, 38, 50 e o último vexame foi o de 70, quando ficou atrás de Peru e Bolívia nas Eliminatórias. A Itália não participou da primeira edição, em 1930, e não se classificou para o Mundial da Suécia, em 1958.

Suécia?! Xiii… Pelo visto não combina com Itália.


Eis que os vizinhos escandinavos apareceram agora para proporcionar um dos maiores baques da Squadra Azzurra em todos os tempos. O golpe veio na repescagem europeia para a Copa de 18, nos confrontos entre essas equipes.

No primeiro, 1 a 0 para a Suécia, na sexta-feira. Nesta segunda-feira, 0 a 0, em Milão. E o que parecia impossível aconteceu: os italianos não se garantem, após 60 anos da última desilusão.

Tristeza, choro de atletas e torcedores, revolta e pedidos de reformulação se misturaram no lendário San Siro. O mundo do futebol está estupefato com a ausência italiana.

Dói, para quem curte futebol, independentemente de rivalidades. Mas era bola cantada, e de algum tempo. Não foram os “deuses da bola” que deixaram a Azzurra fora do festival da Rússia. Foram seus próprios erros e limitações.

Depois do tetra, em 2006, na Alemanha, os italianos dormiram nos louros e se imaginaram eternamente imbatíveis. Algo como o Brasil nunca sonhar com uma surra em casa para a Alemanha…

A geração forte envelheceu, mesmo que alguns resistam até hoje, casos de Buffon e De Rossi. Já dava sinais de desgaste em 2010, na África do Sul, quando foi eliminada na primeira fase. Novo alerta veio em 2014, ao não passar de novo da etapa de grupos.

No meio tempo, um vice na Euro de 2012 enganou todo mundo. Mesmo com goleada de 4 a 0 para a Espanha, se imaginava que a Itália continuaria competitiva e respeitada. Não importava se o declínio era evidente.

Daí, para colocar a pá de cal na falta de visão, em 2016 a cartolagem encarregou Giampiero Ventura de reformular a Azzurra para a Copa da Rússia. Ventura, tiozão boa praça, técnico rodado, com currículo pobre e acostumado a dirigir times medianos, foi chamado para substituir Antonio Conti, depois da Euro na França.

Em um ano e quatro meses de trabalho, provou que o peso da seleção italiana era muito grande para as costas dele. Não conseguiu formar um time equilibrado, não foi ousado na maneira de jogar, errou nas apostas de renovação, apoiou-se em atletas em declínio de carreira.

Para complicar-lhe a vida, o país não tem hoje nenhum craque, daqueles que chamam a responsabilidade para si, que decidem, desequilibram, assustam rivais. É uma geração comum, insossa. Tão sem graça quanto a da Suécia, a quem poderia eliminar ou para quem poderia perder.

Deu a segunda hipótese. A Itália de hoje é seleção de segunda linha e assim se comportou diante de um adversário do mesmo nível.

Uma pena, mas é a realidade.