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Esportes » Torcidas e liberdade de expressão

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Antero Greco

15 Fevereiro 2016 | 18h21

As manifestações da Gaviões da Fiel tomaram espaço importante nos meios de comunicação. Não em todos, claro… As faixas de protesto levadas aos estádios (no meio da semana e no domingo) provocaram reações extremadas, de interferência da polícia, pedido de moderação de árbitro e capitão do Corinthians, até silêncio de emissoras de tevê alvos de críticas.

Discute-se se a organizada tem ou não direito de manifestar-se daquela forma. Tem direito. Os componentes da agremiação são cidadãos brasileiros, protegidos pela liberdade de expressão que lhes confere a Constituição, salvo engano a Lei Maior do País. Assim como se responsabilizam por eventuais transgressões às leis. Como qualquer um, em qualquer situação.

Protestar contra preços de ingressos, horários dos jogos, influência de mídia, bem como emitir opinião a respeito de CBF e FPF é questão de livre arbítrio. Assim como revelar descontentamento com um dos tantos escândalos que marcam a vida nacional (no caso, o das merendas escolares em São Paulo).

Como consumidores, os torcedores podem reclamar do preço dos ingressos e dos horários dos espetáculos, por exemplo. Pessoas, empresas, entidades que se sentirem aviltadas também têm o direito de acionar na Justiça aqueles que lhes parecem detratores.

Assim que funciona em países em situação democrática e com ordenamento jurídico normais.

Estranho é a PM ir pra arquibancada, como aconteceu no meio da semana, e arrancar faixas e pessoas na marra. Em primeiro lugar porque não havia crime. Além disso, não deveria ser atribuição da polícia cuidar desse tipo de assunto – nem da segurança dentro dos estádios. Como força pública, deveria ficar fora. Dentro, os clubes que tenham suas equipes.

Idem para o árbitro. O que tem a ver Sua Senhoria com protestos dos torcedores, desde que não incitem à violência nem alimentem sentimentos xenófobos, racistas ou que revelem intolerância religiosa? E pra que o capitão pedir pra interromper protesto pacífico? Cada um tem suas convicções e pode expô-las, e é bom que se estimulem discussões do gênero. Exercícios de cidadania.

Repito: eventuais ofendidos podem partir para o contra-ataque, dentro da lei.

Há dúvidas, no entanto, que me cutucam a cabeça: por que questionamentos políticos, éticos, esportivos são tão esporádicos dentre as organizadas? Por que aparecem muito raramente, se há tantas oportunidades para marcar posição e os moços passam batidos? De onde vem o repentino surto de civismo? Até quando vai durar? E, ainda: quem se beneficia com as cobranças e quem eventualmente se prejudica com elas?

Sugiro que incluam nas faixas palavras de incentivo pelo fim da violência e das rixas que provocam acidentes, vendettas, mortes entre organizadas rivais. Seria um gesto de extraordinária consciência e ganharia adeptos no Brasil todo.

Para pensarmos.

 

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