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A caça a Pelé

Luiz Zanin Oricchio

18 Outubro 2006 | 18h20

Corre por aí um linchamento moral de Pelé por conta da morte de sua filha, Sandra, de câncer, aos 42 anos. Sandra, para quem não lembra, teve de lutar pelo reconhecimento da paternidade. Fez exame de DNA e ganhou a causa. Pelé disse que ela teria direito à herança, não ao afeto. Acho que ele andou errado ao não reconhecer a filha e errou mais ainda ao não visitá-la quando estava doente. Mas, enfim, são decisões de foro íntimo, da vida privada, fruto de relacionamentos complicados e conflituosos. Não me julgo no direito de formular uma condenação taxativa sobre a conduta moral dos outros. Eu não faria assim, é tudo o que posso dizer.

Agora, a pretexto disso, tentar desconstruir a figura do ídolo é outra história. Primeiro, que a figura do ídolo é pública, a do pai (bom ou mau pai) é da ordem privada. Seria conveniente não confundir as duas esferas, mais uma vez.

Segundo, a caça a Pelé, neste episódio, não chega a ser novidade. Ao longo de sua vida Pelé tem sido alvo de ataques variados. Como ele teria dito (não existem registros) que o brasileiro não sabe votar, seria a favor da ditadura. Como na última Copa confessou que tinha um mau pressentimento antes do jogo com a França, foi chamado de impatriótico. Disse que o Ronaldo estava gordo (que absurdo!) e foi pichado. E assim por diante. Pedem opiniões e ele as dá. Às vezes pisa na bola; outras acerta. E quem não acerta e erra?

Mas acima de tudo, ele continua sendo a maior referência esportiva do país. Qualquer nação se orgulharia de um ídolo como Pelé, mas o Brasil parece que faz pouco caso dele. Em qualquer lugar do mundo as pessoas param para ver Pelé. Nos estádios estrangeiros (já vi isso acontecer), as pessoas se levantam e aplaudem quando é anunciada a sua presença. Já, aqui…Uma vez eu estava nas sociais da Vila Belmiro e, quando o auto-falante anunciou que Pelé estava em seu camarote, um cara ao meu lado disse: “Esse crioulo é o maior pé-frio; hoje o Santos perde”. Olhei para o cidadão e só pensei comigo mesmo quanto o Santos Futebol Clube devia “àquele crioulo”.


Enfim, o que quero dizer é que precisamos gostar mais dos nossos ídolos para que gostemos mais de nós mesmos. Vamos deixar para lá a vida conturbada da pessoa física Edson Arantes do Nascimento, pois ela não nos pertence. O que nos pertence, sim, é a magnífica aura do melhor jogador de todos os tempos que, por acaso, é brasileiro e vive entre nós. Isso não podemos perder.