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A PARTIDA QUE VIROU UM SHOW

Jotabê Medeiros

13 Julho 2010 | 16h13

O jogo Alemanha 3 X 2 Uruguai não havia ainda acabado, faltavam quatro minutos. O músico uruguaio Jorge Drexler assistia à partida no camarim, em seu laptop, mas precisava entrar em campo. Era hora do seu show em Vigo, na Galícia. Ganhador de um Oscar, Drexler não teve dúvidas: entrou no palco com o laptop a tiracolo, e sob a percussão de sua banda, narrou os últimos momentos do jogo. Foi aplaudido entusiasticamente pela plateia, que compreendeu.
Drexler vive em Madri, na Espanha. Ganhador do Oscar de melhor canção em 2005 (Al otro Lado del Río), do filme Diários da Motocicleta, de Walter Salles, ele foi o autor da versão em espanhol de Waka Waka, o hit de Shakira, a convite da colombiana (com quem Drexler frequentemente colabora) Ele já foi um “fominha” do futebol amador, jogando com a camisa 9 de centroavante. “Mas andava afastado do futebol. Essa campanha do Uruguai significou uma religação súbita e tremenda com o esporte, para mim, como uma disciplina intelectual”. No início da tarde de hoje, Drexler (que toca no Via Funchal no dia 23) falou com exclusividade ao Estado.

Como foi a festa em Madri?
Foi incrível, uma loucura absoluta. Ainda não acabou, a cidade ainda está sob o efeito da euforia futebolística.

Você aprecia o futebol? Como viu a campanha do Uruguai?
Estou muito orgulhoso. O Uruguai fez um mundial maravilhoso, Forlán é um dos melhores do mundo, foi quem verdadeiramente fez evoluir o seu time, com sua presença definidora. Suárez foi uma grande revelação. Eu não o conhecia, tomei conhecimento dele por vídeos que vi de seu jogo no Ajax. O Uruguai mostrou um verdadeiro jogo de equipe, sem estrelas midiáticas, sem populismo, sem demagogia. Assim como a Espanha, a grande campeã. Com eles, ganharam a humildade e o jogo em equipe. Todos os gigantescos com seus megasponsors falharam. O futebol rock star morreu nesse mundial. Deve voltar, mas agora ficou para trás, e o futebol ganhou com isso. Sempre disse isso da Espanha, que era um time solidário. Assimilou a tática que o Barça aprende de Cruyff, do melhor da Holanda – não essa Holanda que veio ao Mundial, essa Holanda violenta de agora.


A Holanda foi desleal, em sua opinião?
Foi muito feia a tentativa de intimidação pela brutalidade. Para mim, aquele jogador holandês, De Jong, não tinha de ter terminado o primeiro tempo. A entrada dele com o pé (em Xabi Alonso, meio-campo espanhol), eu jamais vira algo assim num mundial. Vejo tudo isso como um sinal dos tempos: os que jogam pela beleza, pelo jogo de equipe, que estão de fora do populismo personalista, esses times ganharam. Ganharam os que fizeram o seu trabalho em silêncio, centrado na estratégia, baseado na humildade e na razão. Talvez a Espanha pudesse ter apresentado um jogo mais cerebral, mas foi vibrante em sua solidariedade. Nessa era de consumo desenfreado, misturado com populismo e fanatismo, é um exemplo. Em espanhol, nós dizemos que o que vingou foi o conceito de cantera, o que vocês chamam de categorias de base, esse conceito de fazer uso dos garotos que vão se criando no próprio clube. Nós, do Terceiro Mundo, ficamos o tempo todo expostos à exploração dos nossos talentos, os jovens jogadores vão todos para o exterior. É difícil manter um time funcionando. E quando voltam dos torneios europeus, os jogadores voltam sempre muito cansados.

E a Argentina, não gostou do jogo dela?
A Argentina tem os melhores jogadores do mundo. Não entendi o planteamiento técnico deles. O time estava muito motivado, mas uma equipe tem de ter algo mais do que uma forte ascendência de um treinador. O Mundial foi tático e de trabalho, muito além do ego. É ego descontrolado é muito ruim para todas as atividades humanas. Maradona foi pernicioso para o seu time. Achei um erro, embora concorde que é um gênio do futebol. Mas uma coisa é o que faz como jogador, outra o que faz como treinador. Em minha opinião, um treinador tem que trabalhar na sombra.

O escritor Eduardo Galeano disse que o melhor jogo do mundial foi Uruguai X Gana, e que sentiu uma sensação ambígua – felicidade, pela vitória do Uruguai, e também tristeza, porque coube ao Uruguai eliminar toda a África…
Galeano é meu amigo, e eu concordo com ele. Gana É uma equipe muito boa, forte, eficiente, resistente. Mas o Uruguai mereceu ganhar, jogou melhor.

Como surgiu a ideia de ver o final do jogo contra a Alemanha no palco?
Eu estava vendo no camarim, a Alemanha vencia o Uruguai, que pressionava, e eu não podia ir fazer o show sem ver o final. Me chamaram e disseram que não dava mais para segurar, tinha de entrar no palco. Então, levei laptop comigo e fiz os primeiros quatro minutos de show improvisando uma narração do jogo.

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