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Um minuto para Mário Filho

Luiz Zanin Oricchio

19 Setembro 2006 | 14h05

No intervalo entre uma rodada e outra do nosso emocionante campeonato, bem que podemos dedicar um minutinho a quem no passado tanto fez pelo futebol brasileiro. Refiro-me a Mário Filho, cujos 40 anos de morte se completam este ano. Mário, de uma família tradicional de jornalistas e irmão mais velho de Nelson Rodrigues, foi o pioneiro do moderno colunismo de futebol. Somos todos filhos dele. Foi um batalhador e deve-se à sua insistência a construção do Maracanã para a Copa do Mundo de 1950. Hoje, o velho Maraca leva o nome oficial de Estádio Mário Filho.

Em 1947, Mário lançou um livro que todo aficionado deve ler, manter na estante e reler de vez em quando: O Negro no Futebol Brasileiro. Vem sendo reeditado desde então. Confesso que tive de vencer uma certa resistência inicial para lê-lo. Sociologia do esporte?, eu dizia, deve ser chato. Que nada. É uma delícia, conta a evolução desse esporte no Brasil como se fosse um romance. E o enredo é fascinante: nada menos do que a invenção da escola brasileira de futebol, esporte que começou pela elite e foi apropriado pelas classes populares, em especial os negros, mas não apenas eles. O futebol talvez seja a única história vitoriosa das classes populares neste país.

Trazido por Charles Miller no final do século 19, o futebol brasileiro começou a ser praticado pelas elites e devia ser um jogo chato à beça até que os negros e branquelos pobres começaram a se interessar pela bola e inventaram um jeito diferente de jogar o “nobre esporte bretão”. Pelas páginas de Mário, escritas em estilo único, desfilam nomes como Friedenreich, Fausto, Domingos da Guia, Feitiço, Leônidas. Mais tarde, após a Copa de 1958, em uma reedição, Mário acrescentou um capítulo para Pelé e Garrincha, com os quais a invenção brasileira do futebol atinge a perfeição.

O prefácio à primeira edição do livro ficou famoso. É escrito por Gilberto Freyre, o autor de um clássico da sociologia brasileira, Casa Grande & Senzala. Partilho com vocês um trecho desse prefácio: “Vá alguém estudar a fundo o jogo de Domingos (da Guia) ou a literatura de Machado (de Assis) que encontrará decerto nas raízes de cada um, dando-lhes autenticidade brasileira, um pouco de samba, um pouco de molecagem baiana e até um pouco de capoeiragem pernambucana ou malandragem carioca. Com esses resíduos é que o futebol brasileiro afastou-se do bem ordenado original britânico para tornar-se a dança cheia de surpresas irracionais e de variações dionisíacas que é.”

Bonito, não é mesmo?