Corra do diabetes

Corra do diabetes

SILVIA HERRERA

20 Maio 2017 | 08h00

Doença atinge um a cada 11 adultos na América do Sul e pode ser controlada e evitada com atividade física.

Dia desse uma grande amiga me disse que foi diagnosticada com pré-diabetes. Ela está na faixa dos 40 anos e parou de fumar há três anos. Apesar de morar na praia, ela fugia da atividade física e acabou ficando acima do peso. Mas depois desse susto entrou na academia e promete voltar a correr. Fui pesquisar e acabei me inscrevendo em um curso, “Diabetes – a Global Challenge” da Universidade de Copenhague.

Aprendi com o Dr. Thorkild Sorensen que o diabetes atinge entre 350 a 400 milhões de pessoas em todo o mundo, prejudica a circulação, coração, olhos, cérebro, rins, pés, câncer e demências. É uma doença crônica que ocorre quando o pâncreas não está produzindo insulina (hormônio) ou quando o organismo não consegue fazer o uso adequado da insulina. É a insulina que ajuda a glucose (carboidrato) no sangue a ser transformada em energia para o corpo.

São três os tipos mais frequentes de diabetes: 1, 2 e gestacional. A tipo 1 é uma herança genética, você nasce com ela. Os casos são mais frequentes na etnia asiática. O pâncreas não produz a insulina e o açúcar acumulado no sangue como glucose não é absorvido – é a insulina que faz isso. Por isso a pessoa tem que tomar as injeções de insulina. A tipo 2 geralmente surge a partir dos 60 anos – mas tem aparecido até em crianças – o pâncreas começa a produzir menos insulina ou surge uma insensibilidade à insulina e a glucose vai se acumulando no sangue. A gestacional dura durante a gravidez e atinge a mãe. O filho tem mais chances de vir a desenvolver a doença por conta desse fator.

A doença não apresenta sintomas e metade das pessoas nem imaginam que estão diabéticos. Se você está com circunferência abdominal acima de 95cm, sente muita sede, muita fome, vai muito ao banheiro, tem feridas que demoram a cicatrizar, alterações visuais e formigamento e adormecimento nos pés pode ser uma dessas pessoas (veja quadro abaixo os fatores de risco).

Segundo pesquisas, quando a pessoa pratica exercícios de moderado e alto impacto os músculos conseguem absorver o açúcar do sangue sem a necessidade da insulina, mas em pouca quantidade e só durante o exercício. Até quem pratica exercícios não está livre do diabetes e é bom ficar de olho. Geralmente quem corre segue um estilo de vida saudável, mas ninguém é de ferro, no fim de semana, principalmente depois da 10k dominical todo mundo enfia o pé na jaca. Eu mesmo adoro gelato, massas, picanha e um bom vinho.

Recentes estudos da Universidade de Copenhagen concluíram que tanto atividades físicas moderadas quanto intensas promovem resultados. O ideal em adultos seria 150 minutos de exercícios moderados e 75 minutos de intensos por semana, com no mínimo sessões de 10 minuto, podem ser aeróbios ou anaeróbios, mais alongamento duas vezes por semana. Até 18 anos o ideal é 60 minutos de atividade física por dia. Entende-se por atividade física: dançar, fazer trilhas, caminhadas, corridas, nadar, pedalar (mesmo como transporte) e fazer aquela faxina power. Para quem usa pedômetro uma hora de caminhada é igual a 10 mil passos por dia. Quem já passou dos 75 anos é recomendável fazer três vezes por semana exercícios para prevenção de quedas

“Tem gente que ‘seca’ fazendo exercícios outras não, o benefício maior da atividade física não é emagrecer, mas sim ganhar saúde. Mesmo não perdendo peso a composição do corpo muda, aumentando a massa muscular, por exemplo. A atividade física é boa para todos e os músculos são feitos para usarmos; a atividade prolonga a vida”, observa a professora Bente Stallknecht, da Universidade de Copenhagen. Também há estudos que mostram que quando a pessoa pratica exercícios de moderado e alto impacto os músculos conseguem absorver o açúcar do sangue sem a necessidade da insulina, mas em pouca quantidade e só durante o exercício. Em novembro acontece o Dia Mundial do Combate a Diabetes no mundo todo, a da foto abaixo é no Canadá. #prevençãoéomelhorremédio #corridaparatodos

 

Mas se você já está diabético, com o pé inchado ou com lesões, como escolher o calçado para correr? Para isso conversei com o professor doutor Fábio Batista, médico ortopedista, especializado no tratamento do pé diabético. Ele é chefe do ambulatório de tratamento de Pé Diabético e Salvamento Funcional de Membros em Feridas Diabéticas Complexas e assistente doutor efetivo do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Unifesp (Escola Paulista de Medicina); Doutor efetivo da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo; e pertence ao corpo clínico dos Hospitais Albert Einstein, Osvaldo Cruz, São Luiz e Santa Rita, em São Paulo.

dr Fabio Batista

Quem está com diabetes pode praticar corrida?

Dr. Fábio Batista – A corrida costuma ser indicada pelos médicos para que os riscos da doença sejam amenizados, pois pode ajudar a prevenir acidente vascular cerebral, infarto do miocárdio, insuficiência renal e perda visual. Existem, porém, considerações médicas importantes a serem destacadas aos corredores, sobretudo, diante da diabetes de longa duração, que apresentam os desdobramentos clínicos da neuropatia periférica (perda da sensibilidade e deformidades), pés não funcionais ou mesmo, antecedentes de úlceras plantares, Artropatia de Charcot ou amputações parciais do pé. Nesses casos a corrida pode aumentar o risco de novas lesões, piorando muito a qualidade funcional dessas pessoas. Contudo, já para os corredores com o diabetes controlado e que não exibem achados clínicos de maior risco, esses, desde que bem orientados e devidamente protegidos, estariam mais aptos para a prática.

Como identificar o pé diabético?

FB – Feridas, deformidades, infecção e alterações circulatórias. O diabético tem os pés como um dos seus órgãos alvos. A doença de longa duração leva à perda da sensibilidade dos pés e à instalação de deformidades, considerados os principais fatores de risco para as feridas. A complicação podal na pessoa com diabetes é considerada a principal causa de amputação do membro inferior.

Como escolher o tênis de corrida para o pé diabético?

FB – O calçado ideal deve ter um sistema de amortecimento nos calcanhares para se evitar lesões. Durante a atividade, ao tocar o solo com o calcanhar no início da passada, o valor do peso corporal é em torno de 100-110% neste local e ao correr pode subir para duas ou mais vezes este valor. Uma pessoa normal, que joga em torno de 3500-4000 g/cm2 no calcanhar na caminhada pode aumentar este valor para até 7000-8000 g/cm2. Em pessoas diabéticas, valores de pressão plantar em torno de 8000-10000g/cm2 são fatores predisponentes para abertura de úlcera plantar, uma das complicações que acometem o pé do diabético. Nunca ande descalço nem mesmo dentro de casa. E use sempre meias sem costura, de algodão e preferencialmente, de cor branca.

Meias de algodão não ficariam encharcada durante a prática esportiva?

FB – As meias de algodão são indicadas exatamente por deixar os pés secos e assim prevenir o aparecimento de bolhas ou lesões mais graves. Mas em situações de sudorese excessiva, a higiene local e a troca do par de meias é recomendada.

Quem corre três vezes por semana está livre da diabetes?

FB – Não existe essa relação. Os exercícios podem ser favoráveis em manter um estilo de vida saudável e até em manter a doença sob melhor controle. Maus hábitos e estilo de vida frequentemente estão envolvidos na origem do diabetes tipo 2, além da predisposição individual.

A idade é fator de risco?

FB – Sim. Pacientes acima dos 40 anos, com antecedentes familiares, obesidade e estilo de vida não saudável, estão sob maior risco de desenvolver a doença.

O pé diabético é mais comum em homens ou mulheres?

FB – Em ambos os casos. Todas as pessoas com diabetes têm pé diabético, o que as diferenciam são as características clínicas individuais.

 

10 Fatores de Risco

  • Histórico Familiar
  • Estar acima do peso ideal (circunferência abdominal igual ou maior a 95cm)
  • Dieta não saudável
  • Sedentarismo
  • Aumento da idade (a partir dos 50 anos)
  • Pressão Alta
  • Etnia asiática
  • Alto nível de glucose no sangue
  • Histórico de diabetes gestacional
  • Fumar

Confira abaixo o vídeo da Federação Internacional de Diabetes