Desafio Maratona: 2:00:25

Desafio Maratona: 2:00:25

SILVIA HERRERA

06 Maio 2017 | 07h38

O fundista queniano Eliud Kipchoge não venceu o Desafio Breaking 2 da Nike, mas bateu bravamente o recorde mundial em dois minutos,  que por não ter sido feito em uma prova oficial não será validado. Mas ele mostrou que o ser humano sempre pode ir um pouco mais longe.

A excelência dos projetos está nos detalhes. O Breaking 2 da Nike é um bom exemplo disso. Até a data escolhida para a tentativa de completar uma maratona abaixo das duas horas não podia ter sido melhor: 6 de maio. Há 63 anos Roger Bannister (veja vídeo abaixo) entrava para a história do esporte por ter sido o primeiro homem a completar 1 milha (1,6km) abaixo de 4 minutos. Ele correu em 3 minutos e 59 segundos! Em 6 de maio de 2017 Kipchoge foi o primeiro homem a correr uma maratona em duas horas. E o desafio era para lá de difícil. De 1908 até agora o tempo da maratona só tinha caído  de 2:55:18 para 2:02:57 – ou seja 53 minutos em 109 anos!!!

O local escolhido foi o Autódromo de Monza (Itália) para que os corredores pudesse ser analisados full time em um ambiente totalmente controlado. Também pudessem contar com 30 coelhos, que se revesavam a cada 200 metros. E com uma hidratação e suplementação perfeita. O manager dos atletas os acompanhou de bike os 42,195m de bike e servia as bisnagas para cada um dos desafiantes. O clima também foi perfeito, entre 10 e 12 graus.


Os três atletas escolhidos pela Nike tinham perfis bem diferentes: Lelisa Desisa, Eliud Kipchoge e Zersenay Tadese (veja nas fichas abaixo). Treinaram por seis meses. O mais jovem, Lelisa, descarrou do pelotão aos 52 minutos, e Tadese a 1:52. Continuaram correndo. Kipchoge chegou a dar uma volta em cima de Lelisa. Terminado o desafio resta saber se a Nike fará mais um. Kipchoge, ao chegar, já disse que na próxima consegue. Vendo o correr fica a impressão que realmente ele seria capaz mesmo dessa façanha. Mas um esporte como a maratona conta sempre com imponderável e com o fator sorte, por isso é tão legal de acompanhar. Tudo pode mudar a partir do km 30, e o foi o que aconteceu com Kipchoge, mesmo com a coelhada começou a se distanciar do carro “pacer”.

 

Todo mundo que já completou uma maratona na vida sabe a importância do treinamento. Ouvir o treinador e o seu corpo. E o interessante desse projeto é que cada um dos três treinou de um jeito diferente, sempre conversando muito com Brad Wilkins, fisiologista e diretor da Nike Explore Team Generation Research no Laboratório de Pesquisa Esportiva da Nike, e o Dr. Brett Kirby, pesquisador e fisiologista líder do Laboratório de Pesquisa Esportiva da Nike. “Como atletas de elite, eles têm programas de treinamento incríveis e bem estabelecidos que estão funcionando”, diz Wilkins. “Nosso objetivo tem sido trabalhar com os corredores e seus treinadores para fornecer análise e feedback.” Ou seja, o pulo do gato sempre esteve na mente brilhante dos treinadores. É assim desde os anos 30, quando o sueco Gustaf Gosse Holmer criou o “fartlek” e 20 anos depois o austríaco Franz Stampl inventou o treino intervalado. Aliás Stampf era o técnico de Roger, o corredor que quebrou a barreira dos 4 minutos.

Lendo os treinos do trio de ouro da Nike reparei que todos usam esses dois treinamentos, que continuam atuais e rendendo resultados. Como todos atletas profissionais, eles treinam em dois períodos –  de manhã e à tarde. Kipchoge, ouro na Rio 2016, é adepto do fartlek (corridas muito rápidas sem duração ou distância pré-estabelecidas e em seguida de moderadas). Desisa incluiu na rotina muita rodagem e treinos de pista, que poupam as articulações. E Tadese pelo treino contínuo (criado nos EUA nos anos 80 para a Olimpíada de Los Angeles) com ritmo forte e intensidade elevada próximo ao pretendido na competição. Como os três são estrelas em suas cidades costumam treinar com até 60 pessoas ao redor. E também reservam um dia para descansar e sempre dormem e acordam cedo. Nenhum deles faz musculação.

Desde que iniciaram essa missão, Wilkins e Kirby visitaram os corredores diversas vezes, fazendo avaliações detalhadas para obter informações sobre marcadores importantes, incluindo V02 máximo, perda de líquidos durante a corrida, energia armazenada em seus músculos e assim por diante. Quando eles não estão com os atletas, procuram manter contato em sessões por telefone ou Skype. Durante as suas corridas em treinamento, os atletas usam relógios GPS com um monitor de frequência cardíaca (com um transmissor no cinto peitoral anexo). Tudo é analisado em para entender e interpretar o desempenho e o progresso dos atletas. E com base nos dados os treinos são ajustados.

A hidratação também é individualizada, como nas maratonas oficiais. Cada um tem sua garrafinha mais a água que é para todo mundo. Mas a hidratação começa 48 horas antes até 24 horas depois da maratona. “Criamos uma mistura de carboidratos personalizados para cada atleta, com base nos dados que reunimos ao longo do programa de treinamento, indicando quanto líquido eles perdem durante a corrida e o quanto seus estômagos podem absorver”, explica Kirby. Além disso, cada um deles consome diferentes tipos de carboidratos, quantidades, fluídos e sabores. Agora devem estar pensando onde foi que erraram a mão para fazer os ajustes e calibrar os treinos desse trio, que com certeza no segundo semestre vai disputar outra maratona, do desafio ou oficial.

E como já tem gente me perguntando, o tênis usado por eles não estará à venda. Mas modelos semelhantes compõem o Fast Pack que chega às lojas em todo mundo a partir de 8 de junho. #corridaparatodos #desafiomaratonasub2

 

Maratona em 32 recordes

1896 – Kharilaos Vasilakos – 3h18; Ioannis Lavrentis – 3h11; e Spiridon Louis 2:58:50
Entre 1896 e 1908 – distância oscilava em torno de 40 km e IAAF não reconhece nenhum tempo nesse período

1908 – Johnny Hayes (EUA) – 2:55:18

1909 – Thure Johansson (Suécia) –  2:40:34

1913 –  Harry Green (UK) –  2:38:16 e Alexis Ahlgren (Suécia) – 2:36:06

1920 – Hannes Kolehmainen (Finlândia) – 2:32:35

1925 – Albert Michelsen (EUA) – 2:29:01

1935 – Fusashige Suzuki (Japão) – 2:27:49; Yasuo Ikenaka (Japão)  – 2:26:44; e Korean Kitei Son (Japão) – 2:26:42

1947 – Yun Bok Suh (KOR) – 2:25:39.

1954 – Jim Peters (UK) – 2:17:39

1960 – Abebe Bikila (Etiópia) – 2:15:16

1964 – Abebe Bikila (Etiópia) – 2:12:12

1967 – Derek Clayton (AUS) – 2:09:36

1969 – Derek Clayton (AUS) – 2:08:33

1981 – Robert de Castella (AUS) – 2:08:18

1984 – Steve Jones (UK) – 2:08:05

1985 – Carlos Lopes (Portugal) – 2:07:12

1988 – Belayneh Dinsamo (Etiópia) – 2:06:50

1998 – Ronaldo da Costa (BRA) – 2:06:05

1999 – Khalid Khannouchi (Marrocos) – 2:05:42

2002 – Khalid Khannouchi (Marrocos) – 2:05:38

2003 – Paul Tergat (KEN) – 2:04:55

2007 – Haile Gebrselassie (Etiópia) – 2:04:26

2008 – Haile Gebrselassie (Etiópia)  – 2:03:59

2011 – Geoffrey Mutai (KEN) –  2:03:02 (não reconhecido pela IAAF- Maratona de Boston).

2011 –  Patrick Makau (KEN) – 2:03:38

2013 –  Wilson Kipsang (KEN) – 2:03:23.

2014 – Dennis Kimetto (KEN) –  2:02:57

 

Para saber mais

Desafio Maratona Sub 2 – capítulo 3

Desafio Maratona Sub 2 – capítulo 2

Desafio Maratona Sub 2 – capítulo – 1

 

Roger Bannister, primeiro homem a correr 1 milha abaixo de 4 minutos

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