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Proibido para Mulheres
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SILVIA HERRERA

08 Março 2016 | 08h29

Há 50 anos, as inscrições de mulheres eram negadas nas maratonas. Confira como a corredora amadora Bobbi Gibb derrubou esse preconceito e mudou o rumo da história, em exclusiva para o blog.

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Em 1966, a corredora amadora Roberta Louise “Bobbi” Gibb  enviou, pelo correio, seu pedido de inscrição para a Maratona de Boston. Dias depois o carteiro trouxe a resposta: “Mulheres não são aptas fisiologicamente a correr essa distância e tão pouco autorizadas a fazer isso”. Bobbi ficou atordoada. Ela sempre ouvira dizer que as maratonas estavam abertas para qualquer pessoa do mundo e nunca tinha passado pela cabeça dela ser diferente de outros corredores amadores. E decidiu que faria a Maratona de Boston, sem inscrição, para provar que correr 42k não era uma questão de gênero, e sim de treino.  Até então a União dos Atletas Amadores (Amateur Athletic Union – AAU) dos EUA só permitia às mulheres correr no máximo  1,5 milha (2,41km).

Bobbi nasceu em 1942 em Cambridge (EUA) e passou toda sua infância em Boston, mudando-se para Califórnia quando se casou com o fundista William Bingay. Decidida a mudar o rumo da história, Bobbi pegou o ônibus e foi da Califórnia até Boston para correr a maratona. Foram quatro dias e três noites de viagem. No dia da prova, vestiu um agasalho masculino de ginástica azul, com capuz, e sua mãe a levou até Hopkinton  – local da largada.  O plano era se esconder no matagal, próximo a linha da largada, esperar o tiro e se misturar ao bolo de corredores na largando. Quando ouviu o “Bang” saiu dos arbustos e se misturou aos maratonistas. Minutos depois os corredores desconfiaram que ela era uma mulher.  Ficaram felizes e a ajudaram a completar a prova, sem ser expulsa pela organização da prova.

Lá pelo km 10, suando muito, resolveu se livrar do blusão, correndo de maiô de natação preto e bermuda. Quando o público viu uma loira correndo, houve uma comoção geral e muitos aplausos pela iniciativa, o que inibiu qualquer retaliação da organização da prova. Ao seu lado, o tempo inteiro, estava seu mais novo amigo Chamberlain, um rapaz bem alto de Connecticut, que fez as vezes de anjo guarda.

Bobbi  prova que mulheres podem correr 42km

Bobbi prova que mulheres podem correr 42km

Bobbi estava feliz e se sentindo ótima, até o km 32, com pace de 7 minutos por milha (1.600m), foi aí que a porca torceu o rabo. Ela calçava tênis novos e seus pés começaram a queimar. A dor era avassaladora e seu pace despencou, sendo ultrapassada por dezenas de corredores. Quando faltavam apenas 2 milhas (3,21km) quase desistiu. O emocional pegou, começou a se sentir uma fracassada. Foi salva ao ver a linha de chegada, logo após virar o quarteirão. Se encheu de coragem, lembrou que estava ali para demolir preconceitos e deu aquele sprint final. Na linha de chegada, uma dezena de repórteres a aguardava.  Em 19 de abril de 1966, pela primeira vez na história uma mulher completava a Maratona de Boston, a mais tradicional do mundo, chegando na 126ª posição,  de um total de 450 corredores, com o tempo de -3:21:40!!  Seu rosto estampou todos os jornais do dia seguinte!!  Repetiu a dose em 1967 e 1968. E em 1971 a União dos Atletas Amadores reviu suas regras criando a categoria feminina. No ano seguinte, a Maratona de Boston aceitou as inscrições femininas. No entanto, o tricampeonato de Bobbie só foi reconhecido em 1996.

Com vocês Bobbi Gibb, que conversou com esta humilde blogueira. Um presentaço de Dia Internacional da Mulher.

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CPT – Por que decidiu correr a Maratona de Boston? O que você sentiu a completar a prova?

Bobbi Gibb – Em fevereiro de 1966, depois de dois anos treinando forte, escrevi para a Boston Athletic Association solicitando uma inscrição para correr pela Califórnia, Estado para onde havia me mudado (ela morava em San Diego). Recebi uma carta de Will Cloney, diretor da corrida, contando me que as mulheres não eram fisiologicamente preparadas para correr a distância de uma maratona, que só havia a categoria masculina e que não era permitido às mulheres correrem uma maratona. Naquela época eu corria longões de 40 milhas (64,37)! E foi aí que identifiquei que teria a oportunidade de mudar esse preconceito ultrapassado contra as mulheres, sempre usado para mantê-las por baixo durante séculos. Se eu pudesse provar que esse argumento sobre as mulheres estava errado, eu poderia usar isso para tocar em outras questões de gênero e falar de outras várias crenças equivocadas a respeito do sexo femininos. Desde sempre desafio esses tabus. A verdade realmente nos liberta!!! É essa a sensação que senti a completar a prova, de derrubar preconceitos. Fui a única mulher a correr em Boston em 1966, em uma categoria feminina ainda a  ser sancionada. Retornei nos dois anos seguintes e fui a primeira colocada entre um número crescente de mulheres.

CPT – Qual foi a melhor experiência dessa corrida há 50 anos?

Bobbi  – Terminei na frente de dois terços dos homens. O governador de Massachusetts veio me cumprimentar e minha corrida foi parar em todas as manchetes. Eu realmente mudei o pensamento sobre a capacidade das mulheres e mostrei que todo mundo poderia correr!!!

CPT – Como você começou a correr?

Bobbi  – Quando comecei a correr na década de 60, quase ninguém corria nas ruas ou nos parques. Não havia nenhum tipo de movimento de corredores, nem de homens ou mulheres. Havia muitas restrições  às mulheres em tudo e ver uma corredora por aí treinando, como vemos hoje. era algo raro e até considerado impróprio para mulheres. Eu não estava nem aí para isso. Vi uma maratona pela primeira vez em Boston, em 1964, e fiquei completamente apaixonada. Comecei a treinar por conta, não tinha ideia de como teria que ser o treinamento. Comecei a correr, mais e mais, até ver qual era o meu limite.

CPT – Conhece o Brasil?

Bobbi – Nunca estive, mas amaria visitar o Brasil um dia!!!

 

“QUANDO AS MULHERES TRABALHAM JUNTAS

PARA CRIAR UM MUNDO MELHOR

NÂO HÁ NADA QUE ELAS NÃO POSSAM FAZER”

 

CPT – Você ainda corre?

Bobbi – Sim. Corro de uma a duas horas por dia. Como parte do meu treino faço viagens atravessando o continente. Eu amava e ainda amo esta Terra linda. Todo dia corro em locais diferentes e a noite me deito para admirar as estrelas. Há sempre mais estrelas para admirar nesse céu extremamente belo do universo, dessa criação milagrosa que me mudou para sempre.

 

CPT – Vai assistir a Maratona de Boston este ano?

Bobbi – Claro, vai ser a grande celebração dos 50 anos da minha primeira maratona. (Será a 120ª edição da prova, que será realizada em 18 de abril)

 

CPT –  Poderia, por favor, deixar sua mensagem para as corredoras brasileiras?

Bobbi – Uma mensagem para as mulheres que praticam corrida no Brasil. O Brasil é um país lindo e maravilhoso, cheio de possibilidades. É maravilhoso ver que os brasileiros estão trabalhando juntos para criar um país livre, protegendo a liberdade de expressão o que garante oportunidade às pessoas. E as mulheres são muito importantes nessa luta! Quando as mulheres trabalham juntas para criar um mundo melhor não há nada que elas não possam fazer!!!

 

CPT – O que é a corrida para você?

Bobbi –  Sempre amei correr. Para mim, sempre foi uma forma de expressar a alegria de estar vivo!! Eu acho que estar vivo aqui neste planeta Terra é o mais incrível e maravilhoso dos milagres!!! O fato da existência é incompreensível, mas apenas estar vivo é maravilhoso!!!

 

CORRIDAS FEMININAS – Graças  as visionárias como Bobbi, hoje em dia, as mulheres já são maioria nos Estados Unidos nas provas de longa distância. E há provas “cor-de-rosa” no mundo inteiro, das mais variadas distâncias, principalmente em março  – por conta do Dia Internacional da Mulher; e outubro, mês de prevenção do câncer de mama. Além disso, há a tradicional Maratona Feminina de Osaka (Japão), que rola sempre em janeiro, e uma centena de meias maratonas femininas nos quatro cantos do globo. A mais famosa delas era a Nike Women Marathon, sempre realizada em São Francisco no mês de outubro. Ela foi descontinuada pela marca, que resolveu este ano em vez de um evento, criar 20 ativações para as mulheres, em 20 cidades diferentes, inclusive no Rio de Janeiro. É o Women Victory Tour.

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Vão ser em sua maioria meia maratonas, mas há também maratonas, 10k e aulas de ginástica (NTC) ultra incríveis. Aliás, a etapa brasileira será uma 21k em 10 de abril, com percurso similar ao olímpico. As inscrições são por mérito, mil vagas para quem melhor treinar comprovando via aplicativos da marca. O resultado sai hoje, no Dia Internacional da Mulher. A Nike vai mandar um e-mail para as mil felizardas. Eu já recebi o meu!!! Se não for o seu caso, clique aqui para participar de outra etapa. Tem em Buenos Aires, México, Barcelona, Londres, Atlanta, Los Angeles e muito mais. A primeira delas é a Maratona de Nagoya (Japão), em 13 de março, próximo domingo. No Brasil também vai rolar a 21k Feminina da Asics. A marca japonesa acaba de confirmar para o blog que fará a terceira edição da corrida no Brasil em outubro.

 

Saiba mais sobre Bobbi Gibb

 

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