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Nas águas da desigualdade

Estadão Esportes

08 Agosto 2012 | 13h00

Recordes custam caro. A natação segue um rumo, já há alguns anos, que a torna cada vez mais desigual. Os blocos de partida evoluíram de maneira assustadora. Guardam poucas semelhanças em relação àqueles que Ricardo Prado, para ficar num exemplo, utilizavam na década de 80. Saltar bem é fundamental, que o diga Cesar Cielo. Mas poucos são os nadadores de países periféricos que treinam em piscinas equipadas com os caríssimos blocos da Omega. Hanser Garcia, o bravo cubano que chegou em sétimo lugar na final dos 100m livre, teve que fabricar, com a ajuda de técnicos de seu país, uma versão genérica do equipamento para poder treinar seu início de prova. Os blocos antigos, instalados na piscina onde treina, em Havana, estavam muito defasados.

Arilson Soares, o técnico de Bruno Fratus e Felipe França, entre outros, também teve que encomendar a fabricação de uma peça “pirata”. Já Cielo e sua turma do PRO 16 dispõem de blocos Omega na piscina do Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa, em Moema. Indagado num evento da marca a respeito dessa disparidade, o chairman da Omega, constrangido, prometeu estudar a ideia de doar blocos para países pobres. Mas sua reação inicial foi de estranheza. “Nós não damos blocos”, resmungou, embora dê as cartas numa empresa poderosa o suficiente para patrocinar os Jogos Olímpicos.

Como então os nadadores do terceiro mundo podem pensar em se aproximar das estrelas norte-americanas, chinesas ou australianas?

Os blocos são vendidos, assim como eram vendidos os supermaiôs. Michael Phelps não reclamou quando recebeu sua peça da Speedo. Claro, ela representava um ganho de tempo precioso. Mas quando a Arena fabricou um modelo mais eficiente, o colecionador de medalhas chiou. Além de grande campeão, determinado e merecedor de uma ampla gama de elogios, Mr. Phelps pareceu um pouco mimado naquele episódio. Ou não?


(Alessandro Lucchetti)