5 razões para a decadência do Brasil no UFC

5 razões para a decadência do Brasil no UFC

Pioneirismo e expertise no jiu-jitsu já não são garantias para que os lutadores brasileiros alcancem o topo do MMA

Fernando Arbex

06 Julho 2017 | 11h38

Era uma vez um país precursor na prática de um esporte, que viria a se tornar febre mundial, e que dominava uma modalidade fundamental para o sucesso nessa atividade. O pioneirismo e a expertise no jiu-jitsu não salvam, porém, o Brasil de enfrentar uma decadência notória no cenário atual do MMA. Essa má fase reflete na lista de campeões do UFC, que registra apenas a brasileira Amanda Nunes – neste sábado, “A Leoa” vai colocar o título peso-galo dela em jogo contra Valentina Shevchenko, no UFC 213.

Se Amanda perder, Brasil ficará sem cinturão. Crédito: Wilton Júnior/Estadão

Eu defendo que MMA é um esporte individual e não uma disputa de nações, portanto o sujeito ser do meu país não me obriga a torcer por ele. É claro que é mais fácil eu sentir empatia por um atleta brasileiro do que de outra nacionalidade, por questões culturais e de aproximação da realidade dele com a minha, embora isso não seja uma regra. Mas as razões do declínio dos resultados de representantes do País no esporte são sistêmicas, por isso listei cinco delas, que seguem abaixo.

1. Exportação do jiu-jitsu


Lutar no chão era o maior diferencial que os brasileiros tinham sobre os estrangeiros. Jiu-jitsu tem sua origem no judô, modalidade japonesa conhecida por impor quedas aos adversários, mas que, em sua versão tradicional, dava prosseguimento à luta no solo (não faz sentido nenhum você ser declarado vencedor de um combate porque colocou seu rival de costas para o chão). Eis que o faixa preta Conde Koma se mudou para o Brasil e ensinou as técnicas aos irmãos Hélio e Carlos Gracie, que as adaptaram de tal forma a der origem ao brazilian jiu-jitsu, ou gracie jiu-jitsu, como queiram. Isso aconteceu no começo do século 20, portanto o Brasil estava quase 100 anos à frente da concorrência.

No início do Vale-Tudo, jiu-jiteiros levavam caratecas, pugilistas, kickboxers e afins para o chão, e os finalizavam sem problemas. Os representantes do wrestling não tinham melhor sorte, porque derrubavam os brasileiros, mas acabavam presos em estrangulamentos e chaves de articulações do corpo. Havia raros espécimes como Fedor Emelianenko e Kazushi Sakuraba, que tinham treinamento de alto nível no solo para se defender e até atacar os brasileiros, mas eles eram minoria.

O que aconteceu, então? Ofertas das mais vantajosas para especialistas de jiu-jitsu irem principalmente para os Estados Unidos ensinar a modalidade. Esse movimento teve início há mais de uma década, por isso não é surpresa que existam estrangeiros hoje capazes de, pelo menos, evitar tentativas de finalização. “Por que ganhar em real se eu posso ganhar em dólar?”, essa matemática era simples.

2. Defasagem no wrestling

No momento que não havia mais a certeza de que o jiu-jiteiro conseguiria finalizar o rival, passou a ser essencial poder controlar onde a luta iria acontecer. Só que o ponto forte do jiu-jitsu não é quedar o adversário, embora alguns praticantes tenham boa base de judô para alcançar esse objetivo. A modalidade dá pouca ênfase nessa área porque, a grosso modo, existem dois tipos de lutadores: o que joga por baixo (guardeiro) e o fica por cima (passador). O guardeiro quer mesmo é ser derrubado, enquanto o passador nunca encontrou muita resistência para levar oponentes para baixo. Assim, a dinâmica de luta no MMA passou a ser favorável aos wrestlers, estes agora bem preparados para se defender de finalizações. Convenhamos também que muito faixa preta vira faixa branca enquanto está tomando soco na cara.

Além dos jiu-jiteiros, o Brasil tinha representantes de um estilo muito peculiar de muay thai, oriundos em especial de Curitiba. Wanderlei Silva e Maurício “Shogun” foram os maiores expoentes da academia Chute Boxe no Pride, evento japonês que tinha regras que dificultavam a vida dos especialistas em quedas, porque lá era permitido chutar e pisar na cabeça de um adversário deitado, além das joelhadas em rivais que estivessem em três ou quatro apoios. Os adeptos do estilo sprawl and brawl faziam pagar aqueles que cometiam o mínimo erro em tentar levá-los para o chão. O Pride, porém, não existe mais e no UFC as regras são mais “civilizadas”. Não só isso, é normal que o wrestling seja mais valorizado em uma organização dos Estados Unidos, potência mundial nessa modalidade.

3. Cenário nacional viciado

Nesse tópico eu não preciso me alongar muito. Organizações de MMA no Brasil servem ao propósito de revelar lutadores para promoções com projeção internacional. Nenhuma crítica até aí, o problema que essas revelações acabam enfrentando adversários de qualidade questionável para inflar o cartel delas. Aí vai o empresário X oferecer seu cliente para o UFC e mostra que ele ganhou 20 de 20 lutas. Um primeiro contrato até é assinado, mas fato é que esse lutador não foi testado de verdade. Para quem observa com atenção, a bolha de prospectos brasileiros já estourou faz tempo e não há renovação. O tópico anterior é um exemplo, se não há domínio do wrestling no Brasil, em geral, não dá para atestar a qualidade de ninguém, ainda mais quando o caminho é pavimentado por desafios fracos.

4. Envelhecimento das estrelas

Existe um adversário implacável e invicto em todos os esportes: o tempo. Ele passa e Anderson Silva já não é o mesmo. Rodrigo “Minotauro” se aposentou, Vitor Belfort, “Shogun” e Wand não errariam se seguissem pelo mesmo caminho. Lyoto Machida já tem 39 anos e está inativo há mais de dois anos. Júnior “Cigano” enfrenta clara decadência e, embora seja cedo para dizer o mesmo de Renan Barão e José Aldo, a dupla da Nova União rende menos do que em um passado até próximo. Rafael dos Anjos respeitou os limites do corpo dele e migrou da categoria dos leves para a dos meio-médios, onde vai encontrar clara desvantagem física e mais dificuldade para ser campeão de novo. Demian Maia finalmente vai disputar o título, mas vai completar 40 anos ainda em 2017, por isso é difícil esperar que sua carreira ainda tenha um longo prosseguimento.

5. Tecnologia

Não é mistério para ninguém, o Brasil é um país em desenvolvimento e que atravessa grave crise na economia. É lógico que a maioria dos brasileiros vai ter menos recursos técnicos para fazer uma preparação adequada. Até acho que no País há bons treinadores, mas falta investimento em estrutura. É nítido que os lutadores norte-americanos têm vantagem de preparação física, por exemplo. Brasileiro respirando pela boca no último round de luta no UFC é rotina faz tempo, enquanto atletas dos EUA, inclusive, sabem dosar o gás deles em vez de dar tudo de si no primeiro assalto.

Curiosidade. Desde 14 de dezembro de 2006, quando Anderson Silva conquistou o título peso médio, o Brasil só dormiu duas noites sem ter nenhum cinturão do UFC. Rafael dos Anjos foi derrotado em 7 de julho de 2016, mas Amanda Nunes e José Aldo se sagraram campeões dois dias depois. “A Leoa” não tem mais a companhia do compatriota, que perdeu para o havaiano Max Holloway há um mês.

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