UFC 185: o brilhante Pettis contra o esforçado Dos Anjos

UFC 185: o brilhante Pettis contra o esforçado Dos Anjos

Finalizador nato, o campeão peso leve defende seu título em confronto contra um dos lutadores que mais evoluíram no octógono

Fernando Arbex

13 Março 2015 | 11h32

Se você caro leitor tivesse que escolher só um lutador para assistir até o fim de sua vida, eu recomendaria que optasse por Anthony Pettis. Não sem razão o campeão da divisão dos leves do Ultimate é apelidado de “Showtime”, não há em atividade um atleta tão plástico no mundo dos esportes de combate – e isso envolve outras categorias de peso e gênero do MMA, competidores olímpicos, do kickboxing e mesmo os protagonistas da aguardada superluta de boxe Mayweather vs. Pacquiao. Porém, há ocasiões em que o trabalho duro bate o talento, e é sob esse prisma que o carioca Rafael dos Anjos tem chance de conquistar o cinturão do rival, no UFC 185.

Pettis tentará defender seu título pela segunda vez. Crédito: AP Photo/Nam Y. Huh

Pettis tentará defender seu título pela segunda vez. Crédito: AP Photo/Nam Y. Huh

Não me leve a mal, provavelmente Pettis treina em demasia, isso é evidente por ele nunca até aqui ter se mostrado mal preparado fisicamente (dentro do octógono, mas poderia se machucar com menos frequência), além de ostentar notável evolução em sua defesa de quedas. A questão é que Dos Anjos não era há alguns anos metade do lutador que é hoje, méritos que ele pode dividir com o excelente Rafael Cordeiro, ex-treinador da curitibana Chute Boxe e hoje líder da Kings MMA, academia com base em Huntington Beach, Califórnia (EUA).

Atacar. Como todo faixa-preta de jiu-jitsu que se aventura no MMA, Dos Anjos iniciou sua trajetória no octógono esbarrando em suas limitações no wrestling e na trocação de golpes em pé, falhas que quase sumiram desde 2012. Além da evolução técnica, o carioca – assim como Fabrício Werdum – passou a apresentar uma versão melhorada dos históricos representantes da Chute Boxe, escola que pode ser definida com uma palavra: agressividade.

Dos Anjos encurrala Bendo, acerta a joelhada voadora e liquida a fatura

Os antigos alunos de Cordeiro, entre eles Wanderlei Silva e Maurício “Shogun”, careciam de capacidade para se defender de quedas, problema que o peso leve raramente encontra por ser oriundo do jiu-jitsu, portanto é pouco recomendável levá-lo para o chão, e porque ele hoje é dotado de boa técnica de wrestling. Dos Anjos pode se gabar de ser um atleta completo, mas essa característica não necessariamente faz de um competidor o melhor. O brilhantismo de Anderson Silva o safou de uma série de apuros em sua carreira, para dar só um exemplo.

Hora do show. Se Dos Anjos, evoluiu, Pettis não fica atrás. O norte-americano de sangue latino tinha dificuldade em trocar socos na curta distância e foi completamente anulado pelas quedas de Clay Guida em sua estreia no UFC, em 2011. Essas melhorias não fazem do campeão imbatível, mas é assustador pensar que um lutador com tanto recurso tem poucas janelas em seu jogo, e sua atuação no UFC 181 foi nada menos do que brilhante.

Pettis aplica o lendário “Showtime kick” em Ben Henderson

Por ter ótimo boxe e bom wrestling, Gilbert Melendez era em tese uma ameaça real ao campeão. Gil fez ótimo primeiro round contra “Showtime”, mas já não conseguia impor sua estratégia de abafa no segundo assalto até ser pego com uma guilhotina pouco depois de sofrer duro golpe. Um ano e três meses antes, Ben Henderson buscou vingar derrota sofrida para Pettis em 2010, mas acabou cedendo a uma submissão após repetidas falhas em derrubar o rival, sofrer duros chutes na costela e ser pego com uma chave de braço.

Grogue após sofrer um golpe, Melendez tentou uma queda para sair do sufoco e foi finalizado

Pettis favorito. Dos Anjos tem menos qualidade em executar a estratégia proposta por Melendez, mas isso não anula sua chance. A abordagem do carioca tem de ser a mesma da última vítima de Pettis, a de pressionar o campeão mesclando golpes variados com entradas de quedas. Até aqui, “Showtime” foi derrotado ou passou por apuros quando se viu sob pressão, mas mesmo nessas ocasiões já houve casos em que ele tirou coelhos da cartola.

Demais lutas. O bom UFC 185 apresenta outra disputa de título, a segunda seguida em eventos numerados que envolve mulheres. Mais experiente e completa, Carla Esparza deve manter seu cinturão peso palha em confronto contra Joanna Jędrzejczyk. O card principal também terá o ex-wrestler olímpico Henry Cejudo, que vai enfrentar o refugo Chris Cariaso, atleta mediano sempre pronto para perder e elevar o moral de um lutador escolhido a dedo pelo Ultimate na categoria dos moscas.

Quem ainda tenta elevar seu moral e chegar a uma disputa de título dos pesos pesados é Alistair Overeem. O holandês é muito melhor tecnicamente do que Roy Nelson, mas o gordo vez ou outra a arranja um jeito de vencer (o único que ele sabe, usando o overhand de direita), enquanto o Reem costuma dar sopa para o azar, por isso é difícil fazer uma previsão – mas, já fazendo, Overeem deve abusar das joelhadas vindas do clinch e ganhar o combate. Por fim, Hendricks, se estiver bem fisicamente, deve impor seu wrestling superior contra Matt Brown, mas “O Imortal” costuma aproveitar bem suas oportunidades, principalmente na curta distância.