A McLaren já fez sua opção: Alonso. A Ferrari, oficialmente ainda não.

liviooricchio

29 Maio 2007 | 22h40

29/V/07

Você talvez se lembre. Lá em Melbourne escrevi que Fernando Alonso ultrapassou Lewis Hamilton, na estréia dele na Fórmula 1, em razão de a McLaren inverter a ordem da segunda parada nos boxes.

No primeiro pit stop, o bicampeão do mundo parou e só depois foi a vez de Hamilton. O espanhol continuou atrás do inglês, posição perdida na largada, quando voltou à pista em seguida ao primeiro pit stop.

Já imaginou? O piloto contratado para ser o líder da nova McLaren, mais arejada, moderna, reestruturada tecnicamente, recebendo cerca de US$ 30 milhões por ano, atrás do companheiro, estreante, cujo salário por temporada é US$ 300 mil, ou 1% do pago a Alonso?


Saí da Austrália convencido de que Ron Dennis mandou inverter a ordem de parada nos boxes no segundo pit stop. Hamilton foi chamado para box e, em seguida, o asturiano. Permanecer na pista representa, em geral, uma vantagem. E no caso da disputa entre Alonso e Hamilton não foi diferente.

Quando o bicampeão do mundo deixou os boxes, saiu imediatamente à frente de Hamilton. Pronto: para a McLaren, em termos de pontuação, não alteraria nada. Mas para todo o planejamento executado, a concepção e o desenvolvimento do modelo MP4/22, Alonso em segundo e Hamilton em terceiro era muito, mas muito melhor. Kimi Raikkonen, com sua Ferrari muito mais veloz, liderava com folga.

Cheguei a ser contestado ao expor minha visão do fato: a McLaren agiu deliberadamente para Hamilton terminar a corrida atrás do novo líder da escuderia, cuja competência já podia ser sentida na maior eficiência do carro, projetado, basicamente, para atender suas necessidades.

Domingo estava em Mônaco. De novo a McLaren altera a estratégia de Hamilton e acaba por favorecer Alonso. O argumento de Dennis para explicar a mudança de um para dois pit stops para o inglês: ele abriria, sim, boa vantagem, em razão do seu ritmo forte, apesar de mais pesado, mas se o safety car entrasse na pista, perderia toda essa vantagem.

“Dois pit stops seria uma opção mais segura”, afirmou Dennis. A decisão, reconheceu o dirigente, interveio no resultado final. Pelos cálculos da McLaren, se Hamilton tivesse permanecido as três voltas a mais programadas na pista, quando Alonso fizesse sua segunda parada deixaria os boxes atrás dele. A “opção mais segura” de Dennis era, segundo explicou, para garantir a dobradinha da McLaren.

Nas voltas finais, Dennis ainda colocou o dedo na disputa entre seus dois pilotos. Hamilton andava muito próximo a Alonso, dando a entender que desejaria lutar pela vitória. Ouviu pelo rádio: “Fique onde está”, em segundo.

Não passaria Alonso de forma alguma. Hamilton era alguns milésimos mais veloz, mas essa diferença não lhe dava chance sequer de tentar ultrapassar o companheiro. A possibilidade maior, no caso de manobra ousada de Hamilton, era de os dois baterem e dar a vitória de graça para Felipe Massa, terceiro a prova toda.

A ordem de não atacar Alonso, naquelas circunstâncias, procede amplamente, na minha leitura. Agora, definir o vencedor, como aconteceu ao mudar a estratégia de Hamilton, apesar de a argumentação técnica da McLaren fazer sentido, apenas mostra o que ainda lá na etapa de abertura do Mundial começou a se desenhar: a McLaren já fez a sua opção para disputar o título, Alonso.

A Ferrari vai esperar as duas próximas etapas do calendário, Canadá e Estados Unidos, para decidir onde concentrará seus interesses. Por enquanto, não há dúvida de que Massa é o piloto que lhe dá maiores possibilidades de conquistar melhores resultados. A tendência, hoje, é de assistirmos, mais para a frente do campeonato, a uma luta entre Alonso e Massa pelo título.

Ah, a FIA disse que vai investigar as ações da McLaren em Mônaco. Senhores, Max Mosley, presidente da FIA, anunciou a iniciativa apenas em razão de ontem os principais jornais ingleses atacaram duramente Ron Dennis. E Mosley tinha de lhes dar uma satisfação. Não vai mudar nada no GP de Mônaco e ninguém será punido, mesmo porque, como citei, a argumentação de que foi uma “opção técnica” procede também.