A saída para o Brasil evitar novos desgastes

liviooricchio

28 Setembro 2006 | 16h20

Será que é tão difícil, assim, evitar os problemas com as reformas dos autódromos para a realização do GP do Brasil? Para quem pensa que o desgaste deste ano, por conta dos atrasos nas obras de Interlagos, é novo, um dado apenas comprova que a coisa vem de longe: em 1977, a Prefeitura de São Paulo recapeou tarde demais o trecho da curva 3, no fim do Retão antigo, e durante a corrida o asfalto começou a soltar-se. Nada menos de nove carros bateram na grade de proteção naquele ponto. Só por muita sorte ninguém se feriu com gravidade.
Por qual razão todos os anos a história de ter de fazer tudo correndo, e em geral mal feito, se repete? Basicamente porque a Prefeitura de São Paulo, por conta da burocracia desmedida brasileira, sempre demorou muito para aprovar a verba destinada ao evento e iniciar as licitações a fim de definir as empresas que realizam os trabalhos.
A Prefeitura solicitou a Bernie Ecclestone, em 2003, para não mais ser a terceira etapa do calendário, normalmente programada para março ou abril. Motivo: como o orçamento do município para aquele ano só podia ser utilizado a partir de janeiro, sobrava pouco tempo para alocar recursos para a Fórmula 1. Ecclestone atendeu, transferiu o GP do Brasil para o fim da temporada, mas as dificuldades, pelo visto, se elevaram ainda mais.
Fora do Brasil é assim também? Não, ao menos no nível de inconsequência que, por vezes, ocorre no País. O comprometimento dos governos no evento é maior do que a Prefeitura de São Paulo. E nesses países a liberação de verbas atende a trâmites menos morosos, mesmo tratando-se de valores, na maioria dos casos, bem superiores aos cerca de US$ 8 milhões por ano investidos no País. Em geral, quem contrata é o próprio governo federal dessas nações, não a administração de uma cidade. Bahrein, Malásia, Mônaco, Hungria, Turquia e China retiram de seus tesouros ou de estatais com afinidades ao tema, como as companhias de petróleo, as verbas de construção dos autódromos, promoção e organização do GP.
Há ainda os casos em que os circuitos são particulares, como Silverstone, na Inglaterra, Indianápolis, nos Estados Unidos, Nurburgring, Alemanha, Suzuka, no Japão, ou gerenciados por empresas, a exemplo da pista de Ímola. Seus dirigentes não dependem da aprovação do legislativo e do recolhimento de 200 assinaturas do executiva para destinar parte do orçamento na preparação de suas praças de esporte.
O caminho para São Paulo é único: a cidade deseja, mesmo, manter seu maior evento esportivo no calendário? Se a resposta for sim, e não há motivos para renunciá-lo, já que um estudo da Fipe, há três anos, provou o imenso retorno, tangível e não tangível, para o município do investimento de US$ 8 milhões, então é encarar a Fórmula 1 com mais respeito. Todos, legislativo e executivo. E, diante da imensa experiência adquirida com os desgastes desses anos todos, providenciar soluções com bem mais antecedência para os desafios de receber o Campeonato Mundial.