Afinal, a Stock Car não vale nada ou vale muito?

liviooricchio

07 Maio 2007 | 21h52

Alguns leitores do blog sinalizaram não saber em quem acreditar: no exposto pelo jornalista Flavio Gomes na sua última coluna, “Lições dos hermanos”, no ar no site grandepremio.com.br ou no que escrevi de Curitiba, ontem, depois de acompanhar a 2ª etapa da Stock Car: “Entenda por que a Stock Car é um evento milionário.”

Lá no autódromo, também, várias pessoas, jornalistas ou profissionais da competição, como pilotos e integrantes das equipes, quiseram saber a minha opinião a respeito dos pontos de vista do Flavio Gomes. Queriam conhecer se aquela é a visão de parte da mídia. Havia até uma certa revolta contra ele.

Apesar de reconhecer no Flavio Gomes um ótimo jornalista, com sacadas sensacionais, muitas vezes sua leitura dos fatos é distinta da minha. Talvez por isso nossa relação tenha tomado rumos diversos, na maioria das ocasiões respeitosa.

O caso da Stock Car é um bom exemplo disso. Sem desejar ser ofensivo, por favor, mas não sei como alguém pode arrasar um evento sem conhecê-lo melhor como ele fez com a Stock Car. Também não compreendo alguém colocar o automobilismo argentino nas nuvens sem dispor de maiores informações, como me parece ser o caso. Não é essencial estar toda hora lá para conferir, mas concluir só pelo que se lê, seja onde for, não sei se é a melhor opção, ao menos para opiniões tão conclusivas como as colocadas no texto.


Pelo que sei, de ler (pouco) ou conversar com os argentinos da FOX que cobrem a Fórmula 1, algumas categorias locais, como as citadas pelo Flavio,Top Race V6, Turismo Carretera e o TC2000, vivem de fato um momento até melhor do que já tiveram, já de elevado nível de interesse geral, público e investidores.

Tenho certeza, porém, que quando for lá, para entrevistar o Carlos Reutemann, por exemplo, para o meu livro A História da F-1 no Brasil –ganhou a primeira corrida aqui, em 1972 -, ouvirei dos homens que fazem a coisa vários lamentos de dificuldades também. De qualquer forma, é gostoso saber o quanto eles curtem esse negócio chamado corrida de carro, mais de a média dos brasileiros com certeza.

O que me parece equivocado nisso tudo nem é essa questão, mas culpar a Stock Car pelo abandono das demais categorias no Brasil e as profundas críticas à própria Stock Car. Que nós temos urgentemente de fazer algo para criar uma campeonato de monopostos, talvez com o equipamento da extinta Fórmula Renault, não há dúvida. Até já liguei para o presidente da CBA, Paulo Scaglione, e o Claudio Thompson, responsável por patrocínios na Petrobras.

Perguntei se não existe nenhum movimento no sentido de a CBA e a Petrobras se unirem nesse projeto. O Scaglione me disse estudar a criação da Fórmula Brasil. O Thompson me garantiu que se surgir um projeto bem estruturado, com profissionais capazes para tocá-lo, a Petrobras poderá analisá-lo com interesse. Não sei em que pé está a coisa. Viajei para a Malásia e o Bahrein e não tive mais notícias. Quando regressar de Barcelona irei atrás.

Mas voltando. A Stock Car tem vários problemas, deu para ver em Curitiba, como a polêmica reserva de vaga para 27 pilotos. Saiba: vai mudar. Conversei com o Carlos Col, diretor da Vicar, e Nestor Valduga, presidente do Conselho Técnico Desportivo Nacional (CTDN), em já em Campo Grande ou na etapa seguinte será diferente. Vou escrever um post explicando.

Outra dificuldade da Stock: a inconstância dos pneus, a irregularidade de performance de um jogo para outro. Torna tudo imprevisível. Mais: seu carro está ultrapassado e no campo esportivo as regras precisam ser mais claras e os critérios de análise exatamente os mesmos, seja quem for o piloto ou a equipe.

Mas não tem como não se impressionar com o investimento empresarial realizado na categoria e os desdobramentos a seu favor. Nas equipes, promoção do campeonato e no que mais chama a atenção: ações de marketing de relacionamento. Bem poucos eventos no País são capazes de receber tantas empresas grandes como a Stock Car.

É a mais absoluta verdade o que diz o Flavio: as quatro montadoras não produzem um só parafuso dos carros. Mas será que isso é algo assim tão pejorativo? A proposta da Stock Car é distinta da TC2000 argentina, por exemplo, uma autêntica competição de marcas. O modelo da Stock Car é o norte-americano. Visa outra coisa: uma disputa esportiva e não de marcas.

As montadoras explorarem a Stock Car como fazem, ao ver seus modelos representados nas carroçarias dos carros, também não é pecado. Trata-se de uma forma legítima de atrai-las, investirem, e não é pouco, no evento. Se eu gostaria de assistir a um Campeonato Brasileiro de Marcas, como existe na Argentina? Adoraria. Mas não é porque não temos, por desinteresse das montadoras, em especial, que a Stock Car não serve.

No que se propõe a fazer, garanto: nunca na história do automobilismo brasileiro houve nada mais próximo do profissionalismo. A tendência é esse dinheiro todo auxiliar cada vez mais no desenvolvimento de todas as áreas, da técnica à esportiva, passando pela organizacional.

Assim como a Stock Car não pode prescindir desses elevados investimentos, ela própria tem se mostrado um mecanismo dos mais eficientes de retorno às companhias envolvidas. Se não na forma direta de exposição da marca, embora seja, com suas imagens na Rede Globo, então na possibilidade de negócios que se abre a partir desses encontros nos hospitality centers dos seus autódromos.

A Stock Car transformou-se num grande business para as empresas. A partir do esporte. Em favor do esporte também. Vá a uma das etapas, não precisa ser necessariamente em São Paulo, para comprovar. Quero este ano fazer uma bela matéria sobre o tema: o retorno proporcionado pela Stock Car. A sensação inicial é de satisfação da grande maioria.

Como reduzir isso tudo a nada? Que outra competição leva 40 mil pessoas para uma praça de esportes, como fez ontem a Stock Car, em Curitiba? A final do Paulista de Futebol, no Morumbi, reuniu 59 mil pessoas, o maior do campeonato. Na primeira partida entre Santos e São Caetano, 32 mil. Futebol, senhores, que chove na mídia. Por que os prêmios na Stock Car são tão elevados? Por existir credibilidade e atrair superempresas, que competem entre si da mesma forma.

Que a Stock tem muito a evoluir, não existe dúvida. Mas não faz sentido desprezar o que já foi contruído. E não é pouco. Apegar-se apenas ao que poderia ser revisto, e não necessariamente, é perder a oportunidade de reconhecer nesse produto chamado Stock Car aquilo que todos nós, inclusive o Flavio Gomes, desejamos tanto: uma bela expressão do automobilismo!

Abraços, amigos!