Alô São Paulo, alô Brasil, aqui outro lado do mundo…

liviooricchio

30 Setembro 2006 | 08h29

Não posso dormir, não posso dormir. Dizia a mim mesmo, quarta-feira à tarde, quando desembarquei aqui em Xangai. Estabeleci um conflito aberto com meu corpo e minha mente: eles me cobravam uma cama e um bom sono, depois de cerca de desgastantes 32 horas de viagem, e eu tenazmente lhe respondia, espera um pouco, espera um pouco. Se dormisse àquela hora comprometeria bastante minha adaptação à diferença de 11 horas de fuso horário. E tudo seria bem pior depois.
A história da cobertura dos GPs da China e do Japão começou segunda-feira, dia 25, com outra demonstração explícita de desinteresse por seus passageiros da base da Lufthansa no aeroporto de Cumbica, em São Paulo, em total oposição ao que essa excelente empresa representa na Europa, por exemplo, onde regularmente recorro a seus serviços. De novo o problema de onde sentar na aeronave. Não penso ser demais solicitar para não ser “escalado” para ocupar um dos assentos centrais da classe econômica.
Não se trata de dispor de mais direitos dos outros. Mas defendo que passageiros frequentes de uma companhia aérea contem com sua preferência em algumas ocasições, sem ferir o direito de um cidadão que pela primeira vez se apresenta para voar. De novo a sensação que tive com o pessoal da Lufthansa em Cumbica foi a de algumas semanas antes, algo do tipo “pega o que tem e pronto. Se quiser.” Foi diferente, por exemplo, do que ocorreu com a mesma empresa depois de desembarcar em Frankfurt, terça-feira, onde o atendente fez questão, dentro do possível, de atender minha solicitação.
Compreendeu que eu voara 11 horas até a Alemanha e teria outras 11 horas pela frente até Xangai. Em São Paulo, apesar de corteses desta vez, ouvi que o disponível era aquilo e pronto. Nada de reações como “deixa eu ver como podemos resolver o problema.” Desinteresse. Compreendi melhor tudo quando soube que a Lufthansa havia vendido 29 lugares a mais que o seu Jumbo é capaz de transportar. Vôos overbooked são normais no mundo inteiro. As companhias fazem uma estatística de quantos passageiros confirmados não se apresentam para o vôo e esse porcentual a mais é repassado à venda.
Eu mesmo já fui beneficiado por isso, na própria Lufthansa. Por ser um assíduo frequentador de suas aeronaves, recebi o chamado up grade, ou transferência para a classe executiva, para dar lugar na econômica para os que estão fora do vôo. No meu caso específico dessa viagem à Asia, por indisponibilidade nas tarifas promocionais, meu bilhete tem tarifa cheia, ou seja, custou ao Estadão US$ 5.840. A classe executiva para o mesmo itinerário sai apenas US$ 1.000 a mais. Mais um motivo para a Lufthansa ver com melhor atenção seu passageiro. Pela metade do preço poderia estar fazendo a viagem, como tantos.
Foi a primeira coisa que o rapaz da empresa viu em Frankfurt e, acredite, facilitou me conseguir um lugar no corredor no vôo para cá, Xangai. O pessoal da Lufthansa de São Paulo também mostrou-se insensível a um passageiro não só frequente como com tarifa econômica normal. Tanta indiferença cansa, não? Deixam claro para você que não fazem a menor questão de tê-lo em seus vôos. Dá para entender. Hoje, com os problemas da Varig, sobram passageiros para eles. Quando as coisas se normalizarem vamos ver se ele poderão agir assim também. Duvido.
Disseram-me com todas as letras: “O senhor (não sou senhor) vai viajar ou não?” A resposta não poderia ser outra: “Não!” Caminhei alguns metros à direita dos balcões da Lufthansa até o da Varig que, felizmente, está operando Frankfurt com regularidade nos últimos dias. Em segundos resolvi tudo. Não só consegui o que para mim é importante, poder me locomover na aeronave, sem ter de passar por cima de ninguém, como voltei a fazer o que sempre fiz e, creia-me, reduz dramaticamente o desgaste de viajar na frequência que cobrir a Fórmula 1 exige: voar na classe executiva.
Ainda que o contato com o pessoal da Lufthansa em nenhum momento tenha sido áspero, dos dois lados, tenho certeza de que devem estar festejando a minha decisão de não voar com eles. Isso me impressiona: passageiros que, muito educadamente requerem algo, nada tão impossível assim, apenas um lugar no corredor, passam por ridículo. Surpreendi as atendentes me criticando no instante em que regressava da Varig para pedir o endosso do bilhete. Fiquei na minha.
Enquanto puder, a Lufthansa não me verá nos seus vôos saindo do Brasil. Essas pessoas não merecem mais sequer o meu respeito. Sei que se algum deles ler o que estou escrevendo irá chamar os colegas para celebrar minha ausência nos balcões da empresa, ainda que tenha sido fugaz e sempre carregada de educação.
A única coisa que lamento é a mesma empresa oferecer serviços tão profundamente distintos entre a maioria de suas bases e a de São Paulo, desastrosa no tato com as pessoas que deveriam ser do seu interesse. Repito: como passageiros estão sobrando, não faço diferença alguma. Gostaria apenas que muita gente soubesse que o padrão Lufthansa de ser é muito distinto do de sua base em São Paulo. E falo com conhecimento de causa.
Feito o desabafo, vamos ao que realmente interessa, conversar sobre como tem sido permanecer no outro lado do mundo, aqui na distante Ásia, mais especificamente na superdinâmica Xangai.
Antes, porém, vale a pena lhes descrever o deslocamento de Frankfurt a Xangai. Decolamos às 17h30, Jumbão, e apesar da cidade chinesa estar a leste da Alemanha e numa latitude mais baixa, tomamos a proa Norte, em direção ao Mar Báltico. Da Europa para a Ásia essa é sempre a aerovia. Cruzamos as repúblicas bálticas, Letônia, Estônia e Lituânia, sobrevoamos São Petersburgo, Rússia, rumamos na direção de Novosibirski, conhecida cidade da Sibéria – sempre desejei conhecer Novosibirski, um dia ainda paro por lá -, depois Ulan Bator, a capital da Mongólia que, de 33 mil pés, me pareceu menor do que imaginava.
Mais: atravessamos o deserto de Gobi – o meu sobrenome por parte de mãe, os vénetos, é Gobbi, será que eu tenho uma costela mongol e não sei? Não, não pode ser, não tenho os olhos puxados -, na sequência a cidade de Pequim, onde fizemos uma curva de 90 graus para o Sul, proa direta de Xangai. Quando se vai de Oeste para Leste nos deslocamentos na Terra, acompanhamos o sentido de rotação do planeta. A massa de ar que o cobre acompanha esse movimento. Contamos, dessa forma, com um importante vento de cauda, que nos fez atingir 1060 km/h. É tão séria a coisa que quando fazemos o vôo no sentido inverso, o tempo de viagem sobe em mais de uma hora. A velocidade exposta aos passageiros não ultrapassa os 890 km/h. Já peguei algo como 750 km/h, de tão contra que soprava o vento, numa viagem de Tókyo a Los Angeles.
Gostaria de lhes repassar uma passagem bastante distinta e curiosa: logo depois de decolarmos de Frankfurt, no fim da tarde, anoiteceu. Os dias já estão ficando mais curtos no hemisfério Norte, é o outono se manifestando. Ocorre que por conta do fuso horário, às 19 horas, quando anoiteceu, correspondia às 14 horas para mim. Ocorre que rumávamos para o Leste, lembra, na direção da Sibéria, Mongólia e Norte da China? Portanto, navegávamos no sentido do nascimento do sol. Muito bem. Quando deu meia noite, no horário de Frankfurt, o que aconteceu? Um baita sol começou a surgir quase à nossa frente no avião. Das janelas do lado esquerdo podíamos vê-lo meio que à frente da aeronave.
A noite durou, com isso, cerca de 5 horas apenas. No meu caso, ainda não adaptado ao horário de onde me encontrava, por ter acabado de chegar do Brasil, recebi a noite às 14 horas e às 19 horas já dei de cara com o dia novamente. Se você levar tiver em mente que nosso organismo, como o das aves migratórias, tem uma série de funções condicionadas ao tempo de exposição da luz solar, não é difícil compreender a bagunça que se estabelece dentro de nós.
Juro que ouvi o meu cérebro me perguntando, quando o sol começou a surgir, às 19 horas pelo meu relógio biológico, meia-noite no horário de Frankfurt: “Oh, Livio, dá para me explicar, por favor, se esse sol aí significa anoitecer ou amanhecer? Para meu organismo, meu cérebro, seria hora de anoitecer, mas meu consciente lhe informava que aquilo era, na realidade, amanhecer. Acrescente nesse imbroglio o fato de estar num tubo pressurizado a 7.000 pés, ou o equivalente à pressão de uma cidade que esteja a mais ou menos 2.300 metros de altitude, como Cochabamba, por exemplo, e a umidade do ar ser próxima a zero por causa dos circuitos elétricos da aeronave. Esse quadro todo explica as razões de você sair do avião depois de desembarcar em Xangai sem saber direito em que galáxia está.
Os portadores da credencial permanente da FIA dispõem de um controle de imigração à parte no imenso aeroporto de Xangai. Tudo se resolve rápido, assim como o consulado, em São Paulo, por receber dos organizadores da prova um comunicado para facilitar a liberação do visto, não perdemos tempo. Penso ser de interesse deles, faz parte do projeto de terem investido US$ 200 milhões para receber a Fórmula 1 tornar o trabalho da imprensa o menos complicado possível.
Já retirei minha mala e o ônibus do meu hotel só regressará ao aeroporto em uma hora. Não vou esperar. Tudo o que desejo é tomar um senhor banho, comer algo, lutar contra o sono e procurar dormir no horário de Xangai. Se deixar me levar pelo cansaço e deitar-me no fim da tarde, quando cheguei no hotel, minha adaptação ao horário de Xangai será bem mais longa. É essencial dormir a primeira noite no horário local e não no seu.
Por não querer esperar o ônibus fui para o centro da cidade de MagLev. Explico: trata-se da única linha regular de trem eletromagnético. A tecnologia é alemã. Usam o princípio, a grosso modo, dos imãs. O trem não toca o trilho, ou base de deslocamento. Mantem-se flutuando. Seria como se aproximássemos os dois polos iguais de um imã. Esse “trenzinho” de três longos vagões pode se deslocar a 550 km/h. Você não leu errado não, 550 km/h. Só que ele só opera, no caso chinês, a 431 km/h. É uma loucura estar a 431 km/h, lidos no velocímetro eletrônico de cada vagão, tão próximo do solo. As referências passam tão rápido que parece que você está em outra dimensão.
Apenas um minuto e meio depois de deixar a estação do aeroporto já se está a 360 km/h. Em menos de dois minutos, a sua velocidade de operação, 431 km/h, onde se mantém por outros quatro minutos porque, a seguir, começa a desacelerar. Causa enorme impressão uma curva contornada a 431 km/h. A inclinação do vagão é extraodinária. Muitos passageiros se equilibram, em pé, para serem fotografados embaixo do velocímetro, para mostar aos amigos, familiares, que estão nessa velocidade dentro de um trem. Eu já conhecia o sistema da outra vez em que cá estive, mas não deixei de me impressionar de novo. Do aeroporto de Pudong ao centro de Xangai são cerca de 40 km, segundo o folheto distribuído. O MagLev os percorre em cerca de 8 minutos. É quase uma São Paulo – Jundiaí em 8 minutos. Bárbaro. Quanto custa? Quase nada: 50 yuan ou RMB, como eles chamam a moeda local, que vale 9,6 por euro.
Meu amigo, procurei entrar logo num dos carros e cair fora daquele lugar, o ponto de taxi ao pé da estação do MagLev na cidade. Os motoristas de táxi se enfrentavam numa briga com enorme violência. Pelo que compreendi, a revolta era com um camarada que, provavelmente de outra região, concordou em receber um passageiro. E não poderia. O policial que interveio na discussão por pouco não foi espancado também. Já vi algo semelhante, uma ocasião, no aerporto de Congonhas, ao desembarcar de uma viagem pelo Brasil. Pedi para o meu motorista desviar daquela bagunça e sair rápido de lá. Os táxis custam pouquíssimo. Da estação a meu hotel, 6 euros. Do hotel, ao lado da Nanjing road, a principal do centro, um largo e extenso calçadão, até o autódromo, algo perto de 35 km, custa de 12 a 15 euros. O litro de gasolina sai por menos de meio euro.
Pouco, não? Mas eles não se cansam de reclamar do preço da gasolina. “Altíssimo”, segundo me falou o rapaz da recepção do hotel, capaz de manter uma conversação em inglês. Ontem à noite, sexta-feira, antes de começar a redigir a reportagem que deveria sair domingo, fui jantar na Nanjing Road. Lotada de gente, lojas de todas naturezas, abertas até tarde. Uma delas, de alimentação, você pode escolher o inseto que deseja comer. Identifiquei um: gafanhoto. Sei que em algumas regiões comem ratos. Apesar de ser portador-são da leptospira, agente etiológico da leptospirose, patologia gerada pela urina do rato e que compromete os rins, do virus da raiva, dentre outras doenças que pode repassar ao ser humano – ah os meus tempos de Medicina Veterinária na USP – o bichinho, se bem fervido, dá um belo caldo. Ao menos é que juram os chineses. Vi um documentário a respeito.
Isso é o que mais me choca na Ásia. A cultura local permite que comam seja lá o que na condição que for. O Japão é uma exceção no continente. Lembro-me de ter visto cenas de mexer comigo na Indonésia e na Tailândia, em especial uma delas, próxima do mercado flutuante de Bangcok. Uma senhora, em meio a maior sujeira que se pode pensar, comia com as mãos. O cheiro que emanava do local propunha cultura das mais distintas cepas de bactérias, provavelmente de elevada virulência. Para sobreviver lá, a senhora deveria ter trato gástrico de urubu. Caso para se estudar do ponto de vista médico. Mas cada um é feliz de uma forma e não me serve nada julgar. Cabe-nos ver sem dramas, ainda que uma certa náusea seja, por vezes, inevitável.
Onde eu estava mesmo? Fui comer na Nanjing Road, é isso não? Olha, come-se meio no escuro, viu. Alguns restaurantes têm uma vitrina com modelos em plástico de como os pratos são servidos. Outros não. Talheres? Poucos têm. O jeito é comer com os palitinhos. Como bom fruto da cultura italiana, não sou muito chegado neles, ainda que não representem nenhum drama para mim. Consegui compreender que determinado prato era um frango com arroz, um pouco de brócolis, cenoura e couve-flor. Subjulguei o lugar. Veio uma refeição deliciosa. Tão boa que a repeti. A porção não era generosa. Agora o mais incrível: 8 euros com bebida e tudo. Lembre-se de que repeti o prato.
Não é todo lugar, lógico, mas a limpeza passa longe de quase tudo aqui em Xangai. Por vezes assusta. É preciso compreender em que contexto esse traço da cultura chinesa se manifesta: a falta de edução. Como tão bem conhecemos no Brasil. Mas na média a coisa aqui é bem pior. Sexta-feira eu saí tarde do autódromo e algumas pessoas que trabalham na sala de imprensa me deram carona até um local próximo do autódromo – vocês não podem imaginar o que é o Xangai International Circuit – onde poderia encontrar um táxi.
O pessoal parou numa espécie de praça, onde havia dois carros parados. O odor de urina naquela área era tão forte que ardia os olhos. Os motoristas urinam lá, sem a menor cerimônia, numa parede ao lado do ponto. E são capazes de permanecer naquele ambiente até surgir uma chamada ou aparecer um passageiro. Dentro do carro – quase todos os táxis em Xangai são de modelos Santana, da Volkswagen – o cheiro ainda era forte. Mantive as janelas abertas apesar do vento intenso. Quando entrei no meu quarto de hotel, quase uma hora depois, pus tudo para ser lavado. Até meu tênis dei um jeito de limpá-lo. Precisava me descontaminar, nem que fosse psicologicamente.
Vamos continuar nosso bate-papo outro dia? Segunda-feira vou daqui para Nagoya. E, de lá, de trem para Suzuka. No dia seguinte programei ir de trem, também, para Kyoto, uma cidade que realmente é bem representativa do Japão. Seus templos são um convite à paz. Gosto de lá, apesar do susto de 1995, acho que foi esse o ano, quando sai poucos dias antes do terremoto que destruiu Kobe e atingiu Kyoto também. O atual editor de esportes da Folha, o José Mariante, estava comigo no Japão nessa época. Conversamos, depois, e nos dissemos: do que nos livramos, hein?
Mas há dois anos, estava em Nara, outra poesia de cidade, lá perto, quando acordei por volta das 6 horas da manhã com a cama se mexendo para todo lado. Reconheci logo tratar-se de um terremoto.
Por incrível que possa parecer, agi com prudência. Lembrei-me de meu tio Mario contar a história de seu pai, senhor Giovanni, que encontrava-se em Messina, Sicília, no terremoto que a destruiu. Ouvi que ficar sob o batente da porta era mais seguro. Foi o que fiz, de pijama. Depois que passou desci à recepção e eles trabalhavam como se nada fosse. Disseram que o tremor de terra havia sido pequeno. Não sabia o que pensar. Para mim, do jeito que balancei na cama, me pareceu enorme.
Espero ter tempo de ir a dois templos em particular. Os visitei na primeira vez que vim ao Japão, ainda em 1982, como turista. Um deles é o Enryakuji, budista, e o outro, se eu lembrar o nome correto, Ise Shrine, shintoísta. As duas religiões, budismo e shintoísmo, dividem harmonicamente os japoneses. Prefiro os templos shintoístas, onde a madeira não é pintada, tudo é mantido mais de acordo com sua própria natureza.
Nossa, escrevi hoje, hein? Se passar algum erro – tenho certeza de que os cometi – parte da responsabilidade é dos efeitos do fuso horário, sem retirar minha culpa, por favor. Peguei no sono apenas às 5 horas, mas às 6 a rádio CBN de São Paulo, para quem também trabalho, me chamou para entrar ao vivo. Dormi mais duas horas e pronto, foi tudo. Estou acordado até agora, sábado à noite, o dia em que sempre nos encontramos aqui nesse espaço psicoterápico para mim.
Grande abraço, amigos!