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Esportes » É Páscoa. Por chocolate, tudo pode!

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liviooricchio

07 Abril 2012 | 09h05

07/IV/12
Amigos, antes de falar de automobilismo e viagens, desejo a todos que se permitam uma trégua no policiamento ao consumo de chocolate. A Páscoa é também para isso. Como praticante ortodoxo da religião que cultua esse néctar dos deuses (sim, possuo um altar em casa com vários dos seus santos, gianduia, amendoa, pistache, praliné – é difícil para mim ler, escrever e ouvir essa palavra, praliné),
vou me dar de presente saborear muitas das delícias que a vida aqui em Nice me autoriza:
próximas da França, que também produz maravilhas na área, estão Itália, Suíça e Bélgica.

Dá para imaginar? Será como se estivesse num Clube, o Clube dos Dependentes Químicos de Chocolate
(o problema é que os psiquiatras, psicólogos, médicos, enfermeiros, auxiliares, em geral, porteiros e o carteiro que vez por outra briga para levar as correspondências, são da mesma forma todos dependentes),
onde existe uma grande piscina (a olímpica é maior de todas, senhores?) e em vez de água estivesse cheia com chocolate.

Digamos… derretido na superfície, mais pastoso a certa profundidade e sólido na base. Ah, claro, no pequena hidro existente ao lado, a mesma disponibilidade, mas agora de chocolate branco. E eu e meus amigos, todos potencialmente capazes de desenvolver síndrome de abstinência no caso de ausência de chocolate, com três dias pela frente para “meditarmos”, fervorosamente.
Deu para captar o sentido religioso da Páscoa?
Abraços!

Ah, ia esquecendo. O chocolate me tira da realidade. O texto a seguir enviei para o Jornal da Tarde, no sábado da corrida da Malásia, para ser aproveitado na edição de domingo. Apesar de já se passar duas semanas, como tenho de sair, agora, para ir ao Clube que lhes falei (maiúsculo, sim senhor!), não terei tempo para redigir um novo post. Apenas experimente não me perdoar!

Mas penso ser válido resgatá-lo para colocar no ar. Assim, enquanto alguém cria coragem e lê, eu e meus amigos nos submetemos ao sacrifício de experimentar as diversas formas de apresentação do néctar substrato de nosso culto.
Agora, então, grande abraço!

John Button, um piloto amador inglês de rali-cross, tinha gosto exótico, apresentava-se para as provas disputadas em pistas que misturavam trechos de asfalto e terra com um carro tipo gaiola um tanto particular. Logo ganhou o apelido de Colorado Beetle. Foi bem nessa época, fim dos anos 70, que se separou da esposa, a sul-africana Simone Lyons. O quarto e último filho do casal tinha 7 anos então, único homem. “Ele sentava no meu carro, colocava o capacete e fingia que pilotava. E sempre dizia, sem hesitar, que queria ser piloto”, disse ao JT ontem, no circuito de Sepang, John Button.

Foi nesse ambiente contaminado pela velocidade cujo heroi era o próprio pai que Jenson Alexander Lyons Button cresceu. O resultado não poderia ser outro: acabou por seguir a carreira de piloto de competição. O tempo passa depressa. Na última madrugada, Jenson Button, nome profissional adotado, disputou o GP da Malásia de Fórmula 1, estágio máximo para o desafio escolhido, “não influenciado por mim”, apressou-se em explicar John Button, em Sepang, claramente orgulhoso do filho. Seria o caso de lhe responder: “Nem de longe poderia passar algo do tipo por nossas cabeças. Nunca!”

O fato é que Jenson Button tornou um personagem da Fórmula 1. Um rico personagem. Vale o vice-versa. Conquistou o Mundial! E todo campeão do mundo, óbvio, tem história. E bem na temporada em que poderia ter encerrado a carreira, com o fechamento da sua equipe, a Honda, no fim de 2008, um “milagre”,como Jenson o definiu ao Jornal da Tarde, aconteceu: “Você imagina receber uma ligação do chefe da equipe, em dezembro, e ouvir que seu time deixou de existir? Foi o que aconteceu comigo. Nem havia como, àquela altura, tentar outra escuderia, estava tudo ocupado já”.

Para esse praticante contumaz de triatlo, com nível de performance respeitável, quando as coisas têm de acontecer de alguma forma acontecem. “A Honda deu origem a Brawn. Fomos testar o carro e depois de 4 voltas, apenas, eu sabia que dispunha de equipamento para lutar pelo título. Não acreditei. Viajei de ficar de fora da Fórmula 1 a poder ser campeão, quase de um momento para o outro.” A Brawn GP inovou ao lançar o conceito do duplo difusor.

O título em 2009, com a Brawn GP, o fez ascender à categoria dos mais capazes da Fórmula 1. “Jenson é rápido e tem ótima compreensão da corrida, de como administrar os pneus. Os meus acabam antes dos deles normalmente. É um piloto inteligente.” A análise é do companheiro de McLaren, Lewis Hamilton, campeão na temporada anterior à conquista de Jenson.

O que fez Jenson realmente vir a ser visto como um piloto excepcional não foi apenas o título, mas a derrota que impôs àquele que os ingleses consideravam ser impossível vencer na mesma equipe, Hamilton, afinal nunca perdera uma disputa dessa natureza, desde o kart. “É o que diziam quando decidi trocar a Brawn GP (mudou o nome para Mercedes, em 2010) pela McLaren”, reconhece Jenson.

“Ou que eu aceitei a mudança para a McLaren porque iria ganhar muito mais dinheiro, à custa de abalar minha reputação de campeão por eventualmente Lewis vencer tudo. Na realidade, não foi dinheiro, mas por saber que a equipe teria um campeonato bem difícil em 2010, o oposto ao da temporada anterior, em que fomos campeões”, disse.

“A Brawn tinha a estrutura e orçamento de um time médio da Fórmula 1. Venceu o Mundial por, essencialmente, desenvolver um carro adiante dos concorrentes. Só que em 2010, ano seguinte, todos iriam competir utilizando o mesmo princípio do difusor duplo”, explicou o inglês.

Sobre a disputa com Hamiltom, hoje existe uma nítida tendência de os ingleses o considerarem mais capaz de conquistar grandes resultados pelo conjunto de valores técnicos e emocionais que reúne: “Jenson é dos mais completos pilotos da Fórmula 1”, afirma o escocês Jackie Stewart, três vezes campeão do mundo. “Pode não ter a mesma velocidade de Lewis numa volta lançada, como nas classificações, mas é rápido também e com um visão de corrida rara, além que quase nunca errar”, complementa.

“Quando Jenson começou a correr de kart demonstrou logo de cara possuir talento. Estou falando do final dos ano 80. Nesses anos, Ayrton Senna e Alain Prost lutavam entre si na McLaren”, lembra John Button. “Jenson gostava de Senna, mas dizia sempre apreciar mais a técnica de Prost.” Ex-pilotos, com Stewart, Gerhard Berger, dirigentes, como Flavio Briatore, regularmente comparam Jenson a Prost. “Ambos têm um estilo bastante polido de pilotar, muito técnico.” O ídolo francês moldou a formação de Button.

Rubens Barrichello foi companheiro de Jenson na Honda e na Brawn GP. “Eu achei que movia pouco o volante. E realmente mexo quase nada. Mas quando comecei a ver na telemetria o que faz Jenson, fiquei impressionado, é muito técnico. Não só por isso, mas por tudo que conheci dele o coloco no nível de Schumacher.”

Em 1999, com 19 anos, Jenson comprava ainda ingresso para assistir ao GP da Grã-Bretanha de Fórmula 1, temporada em que terminou como terceiro colocado no Britânico de Fórmula 3. E já no ano seguinte estreava, com 20 anos, na Fórmula 1, na Williams, uma das boas escuderias do Mundial. “Antes de Frank Williams nos ligar, no Natal de 1999, Prost telefonou. E ofereceu um teste, em Jerez. Jenson foi mais rápido que Jean Alesi”, conta John Button.

No teste da Williams, Jenson competia contra o brasileiro Bruno Junqueira, campeão da Fórmula 3000, pela vaga, depois da dispensa de Alessandro Zanardi. E Frank Williams optou pelo inglês. “Jenson conversou com Frank, que lhe comunicou a decisão, e em seguida veio falar comigo. Jenson tinha 20 anos e já atingira seu sonho. Nós choramos juntos”, recorda John Button.

Toda essa euforia por pouco não se transforma em tristeza em 2001, no segundo ano na Fórmula 1. Apesar da boa impressão no campeonato de estreia, Frank Williams decidiu substituí-lo por Juan Pablo Montoya. Briatore, diretor da Benetton, o contratou. “Tempos difíceis”, disse Jenson ao JT. “É complicado para um piloto quando o chefe de equipe vem com o dedo em riste na sua cara cobrar melhores resultados, principalmente se você tem 21 anos de idade, apenas, como era o meu caso.”

Durante o GP de Mônaco daquele ano, 2001, na sexta-feira, dia sem treino, Briatore conversava informalmente com a imprensa. O assunto Jenson Button veio à tona. “Jenson? Você o viu? Eu não. Deve estar no seu iate se divertindo. A Fórmula 1 deixou de ser uma prioridade para ele. O que é uma pena, pois é talentoso”, comentou o diretor da Benetton com um grupo de jornalistas, onde estava presente o repórter do JT.

“Os jornais ingleses passaram a defini-lo como o novo James Hunt da Fórmula 1, o novo playboy, e não era verdade. Jenson tinha a mesma namorada há três anos”, explicou, ainda indignado, John Button, em Sepang. Não é a mesma namorada de hoje, a elegante modelo de lingerie Jessica Michibata, filha de mãe argentina e pai japonês.

A relação aberta, regular, carinhosa, dedicada entre ambos tem sido usada pela imprensa inglesa como exemplo oposto do que vive Hamilton com a cantora pop norte-americana Nicole Scherzinger. O tumultuado namoro e o rompimento, no ano passado, desequilibraram Hamilton. Hoje estão juntos novamente. Enquanto Jenson vive uma vida familiar, com a namorada e o pai sempre presentes, Hamilton apresentava-se sempre sozinho nos autódromos e com Nicole na Califórnia, onde reside.

Essa eficiência de Jenson o transformou num piloto desejado. A Ferrari o consultou, no ano passado, antes de renovar com a McLaren, para saber quais eram seus planos profissionais. “Fiquei feliz de ver que meu trabalho é apreciado. Ouvi o que algumas equipes tinham a me oferecer.” A McLaren, no entanto, é sua paixão. “Desde pequeno meu sonho era correr aqui. E é tudo muito profissional. Eles me descobriram e eu a eles. Tenho profunda indentificação com minha equipe.” Pela reação do grupo, é recíproco. O próprio salário anual, estimado em 10 milhões de euros, não deixa de ser uma forma de reconhecimento de suas habilidades extraordinárias.

Sobre o tempo do contrato assinado no ano passado, Jenson responde: “Segredo.” São grandes as possibilidades de encerrar a carreira, quando acabar o compromisso, talvez em 2015, no “time dos seus sonhos”, muito capacitado, este ano, para levá-lo a ser bicampeão do mundo. Com todos os méritos, diga-se.

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