Equipe Renault em pé de guerra

liviooricchio

05 Outubro 2006 | 07h27

Logo em seguida a Fernando Alonso vencer pela quarta vez seguida no campeonato, no GP do Canadá, a equipe Renault era reconhecida até dentro da própria Fórmula 1 como um modelo de organização e eficiência. Em 2005, apesar de dispor apenas do sexto orçamento da competição, conquistara os títulos de pilotos e construtores e, com o resultado de Montreal, tudo indicava definiria o Mundial deste ano rapidamente também.
Hoje, no circuito de Suzuka, no Japão, pouco mais de três meses depois de a Renault servir de exemplo para todos, Alonso já não lidera a classificação e os principais integrantes da Renault trocaram acusações pesadas através da imprensa. Mais: os erros nos pit stops no GP da China, domingo, levaram a equipe substituir o mecânico responsável pela roda traseira direita. Se para fazer sucesso na Fórmula 1 o sinergismo entre todas as áreas é imprescindível, Alonso e o time francês largaram atrás de Michael Schumacher e a Ferrari na reta final da luta pelo título.
“O que aconteceu em Xangai foi que tive um problema com o carro (os pneus) específico para 10 ou 9 voltas e eu me senti, com certeza, sozinho”, disse Alonso. Amanhã, a partir das 2 horas (horário de Brasília) ele disputa a tomada de tempo para o grid da 17.ª e penúltima etapa do calendário, deixando claro à direção da Renault sua reprovação à política da escuderia quanto às atribuições de seus pilotos na pista.
“Disputei na China a posição com Giancarlo Fisichella na última curva. Eu o ultrapassei, ele me deixou para trás e depois eu ganhei sua colocação de novo. Esses riscos todos, com seu próprio companheiro de equipe, restando apenas três etapas para o encerramento da temporada, não é legal”, afirmou o espanhol.
Ao saber das declarações de Alonso, Fisichella irritou-se: “Estava com ele até 10 minutos antes da entrevista coletiva começar e não me disse nada”, falou o piloto italiano. “Estou realmente muito surpreso, não sei por que Alonso fez isso, eu não posso parar o meu carro na pista para ele me ultrapassar.” O espanhol não se conformava até ontem, ainda, de a equipe não ter impedido Fisichella de o ultrapassar no GP da China quando os pneus apresentaram problema, nas voltas seguintes ao primeiro pit stop.
“Não foi a primeira vez”, lembrou Alonso. “Nos Estados Unidos ele me ultrapassou também.” Na prova de Indianápolis as duas Ferraris lideravam e Alonso vinha em terceiro. Seu motor começou a perder potência e Fisichella o ultrapassou para ser 3.º. O ritmo de Alonso era tão fraco que Jarno Trulli, da Toyota, ganhou ainda sua 4.ª posição. “Foi outra situação em que me senti desertado pelo meu time.” O fato de já ter assinado para correr pela McLaren, em 2007, parece ter liberado o espanhol para falar o que bem entender.
A reação de Flavio Briatore, diretor-geral da Renault, foi imediata, hoje mesmo: “Ele disse que nós não o ajudamos? O que acontece é que respeitamos o esporte e ordens de equipe são proibidas na Fórmula 1. Fisichella fez o seu trabalho.” No que diz respeito à nova formação de responsáveis pela operação de box, Briatore comentou: “Se um integrante do grupo não se encontra bem, tranquilo, todo o restante sente a pressão.” O mecânico substituído é o mesmo que falhou no pit stop de Alonso no GP da Hungria, causando a soltura da mesma roda traseira direita e seu abandono da prova.
O dirigente da Renault foi duro com Jean Todt, da Ferrari, que o acusou de ter ordenado Fisichella colocar o carro lado a lado com Alonso, em Xangai, a fim de impedir de Schumacher, atrás de ambos e mais veloz, ultrapassá-los. “Não aceito pregações surgidas desse púlpito em particular”, referindo-se às muitas ordens de equipe orientadas por Todt na Ferrari. Na tentativa de diminuir o desgaste com Alonso, Briatore lembrou que Ayrton Senna e Alain Prost também já expressaram sua irritação com seus times em algum momento de suas carreiras. “O importante é que teremos um final de campeonato digno de um romance de Agatha Christie.”