Essa não, Reginaldo Leme e Livio Oricchio

liviooricchio

09 Setembro 2006 | 22h44

Fôssemos dois novatos, inexperientes, até que podería compreender. Mas o Reginaldo Leme, com seus mais de 400 GPs, e eu, com meus 240, a serem completados no GP do Brasil, somamos 640 presenças em corridas de Fórmula 1. E o que aconteceu? Perdemos o vôo em Frankfurt, na conexão para Milão.
Estávamos na sala de embarque, conversando, conversando, Fórmula 1, vida pessoal, projetos, Globo, Estadão, quando, de repente, nos demos conta de que alguma coisa estava errada. A hora do vôo se aproximou e nada de chamarem para o embarque.
_Livio, mudaram todas as indicações no balcão. Vão chamar para outro vôo, disse-me o Reginaldo.
Lá fomos nós procurar compreender o que se passava. O difícil foi ouvir que nosso vôo, Lufthansa 3886, já havia partido. Bem ali, da nossa cara, e nós não embarcamos. Essa não dá para acreditar. Perder um vôo estando na sala de espera é o máximo da desatenção. Por sorte havia outro 4 horas mais tarde e viajamos sem dificuldade.
O duro foi explicar para o Odnei Edson, da rádio Bandeirantes, que voou conosco de São Paulo a Frankfurt pela Lufthansa e fez a mesma conexão. Ele nos contou que o comandante avisou no sistema de som do avião para Milão que haveria um pequeno atraso por causa de dois passageiros, com cartão de embarque, não terem entrado a bordo. Era preciso retirar a bagagem dos dois, já que mala desacompanhada não segue.
Pior ainda foi sexta-feira e ontem no paddock, os brasileiros todos zombando da nossa cara, com toda a razão, diga-se. Como nos dissemos, eu ao Reginaldo e ele a mim, pelo menos nesse espaço de tempo completamos o que tínhamos de falar e ainda ouvimos a programação musical nos nossos Ipods.
– O senhor está no melhor lugar do avião.
Foi o que me disse a pouco simpática funcionária Simone da Lufthansa, em Cumbica, quando lhe pedi para mudar meu assento. O da saída de emergência, à porta dos banheiros, deixo para quem está de férias e tudo é festa. Eu chego no meu destino e vou direto para o autódromo. Necessito de um mínimo de paz.
Como nos dois vôos anteriores, sempre com a ótima Lufthansa, empresa que admiro, Istambul-Frankfurt e Frankfurt-São Paulo, o lugar de que dispus foi terrível, eu lhe pedi, em princípio, educadamente, para não viajar na porta do banheiro. Afinal, um passageiro que voa 200 mil milhas por ano, possui cartão diamante da Star Alliance, penso ter esse direito. Não me parece muito.
Claro que ninguém tomou a iniciativa de resolver a questão e precisei eu, dentro do avião, perguntar quem tinha interesse por um “assento com amplo espaço para as pernas.” Se eu não tivesse conseguido, lhes avisei, agora com energia, sem ser arrogante, como disseram, que poderiam tirar minha mala do avião porque não embarcaria. Seria a terceira vez seguida, em pouco tempo, que passaria longas horas em local bastante desconfortável. É até uma questão de saúde.
O absurdo foi a tal da Simone, uma baixinha, jogar para mim, o passageiro, resolver a questão. Se eu quisesse, pelo que deu a entender. Já passei por situação semelhante com a Singapure Airlines e a Ana, empresa japonesa, e o simples fato de ser diamond da Star Alliance gerou enorme interesse neles em melhor me atender. O que não foi nem de longe o caso específico da desinteressada funcionária da Lufthansa em São Paulo.
Itália, cá estamos. Meu hotel encontra-se numa cidadezinha chamada Mariano Comense, entre Monza e Como, onde há um lago lindo, na base de montanhas dos Alpes. Cada vez mais grandes personalidades compram casa por aqui. É muito bonito. O Albergo Sole, onde estou, é uma construção antiga. A porta de entrada para seu pátio central é de madeira, da época da edificação, secular. Você precisam só ver a fechadura. É daquelas do tipo da Idade Média, em ferro fundido.
Os donos do hotel, que não são lá muito de emitir sorrisos, embora sejam eficientes nos serviços, me explicaram que a lei proíbe que se altere a fachada do prédio. A tal porta, linda, pode ser restaurada, mas substituída ou desfigurada do padrão original nem pensar. E como eles respeitam essas coisas aqui. Só em alguns países que conheço nada é levado a sério, nem mesmo as questões de saúde pública e educação.
O fim de semana aqui na Itália está cercado de expectativa sobre o anúncio de Michael Schumacher. A maior parte dos meus amigos italianos já publicou que o piloto pára de correr. Conversávamos, hoje ainda, o que aconteceria se o Schumacher dissesse que irá continuar na Fórmula 1. Uma amiga do Corriere della Sera, Gaia Piccardi, falou que muitos jornalistas não só perderiam o emprego como teriam de mudar de profissão, nenhum jornal os aceitaria mais por ter cometido erro tão crasso.
– Passariam a vender sorvete na praia, disse-me ela.
Dois jornalistas alemães vieram me perguntar, hoje, como será, na minha opinião, a Fórmula 1 sem Schumacher e o que acontecerá com o interesse pelo evento na Alemanha. Eles acreditam que haverá uma queda sensível nesse interesse. Lembrei-lhes que Ayrton Senna se despediu da Fórmula 1 de maneira trágica, dentro da casa de cada brasileiro, e depois, com o tempo, o povo absorveu o impacto e até voltou a assistir às corridas. Os índices de audiência da Globo, para o horário, domingo 9 horas da manhã, são excepcionalmente elevados.
Vocês não vão acreditar: não sei se é uma virose ou o quê, mas a verdade é que meu estômago me pegou nessa viagem. Nunca aconteceu. Nada que me impeça de fazer o que desejo, exceto comer como sempre amei por estas bandas. Meu spaguetti alle vongole veraci do La Cambusa, por exemplo. Ou o risoto com funghi porcini de um restaurante que o Galvão Bueno nos levou, no centro de Milão, a 20 quilômetros daqui. Nada. Passei dois dias na base do frugal. Mas amanhã não quero nem saber. Irei descontar o tempo perdido. Estar na Itália e impedido de comer representa o sacrifício máximo. Chega!
Sábado do GP da Itália a Ferrari faz sempre um jantar para a imprensa. Retornei dele faz uma hora, mais ou menos. Montam uma superestrutura na área do paddock, com muita eficiência e bom gosto, em tudo, da decoração à praticidade das soluções, para não dizer do cardápio e os vinhos. Brunello di Montalcino, tá?, para começar. Não vou nem seguir para o restante. Hoje cheguei no fim do jantar em razão de ter ido conhecer meu sobrinho, Davide, nascido há duas semanas, em Como. Adorei conhecê-lo.
Por uns instantes o imaginei um pouco maior e eu lhe introduzindo no meu mundo, corridas de kart, carros, aviões monomotores, acrobacia aérea, planadores, enfim tudo o que gosto e, vez por outra, pratico. Espero que seja um dos meus.
Produzi bastante coisa a respeito da despedida de Michael Schumacher. Está no blog e amanhã, editado, no Estadão. Escrevi um texto, acessado através da seção Originais do Estadão, de título “Michael Schumacher, por um jornalista.” Tinha a certeza de que a maioria dos comentários seria critica a minha leitura do alemão. Faz parte. Não tenho como responder, não disponho, acredite, de tempo. Mas leio tudo com o máximo interesse e atenção. Obrigado pelos comentários, não importa o teor, desde que sérios, lógico. Agora, por exemplo, são 2h50 da madrugada de sábado para domingo. Se não for agora, não teria como redigir esse gostoso Diário de Bordo.
Acabo por transformá-los em meus psicólogos. Deixo minhas mãos fluírem, atender meu cérebro, sem maiores policiamentos ou preocupações com as reações que irá gerar. É uma espécie de terapia para mim.
Amanhã, ou melhor hoje, corrigindo ainda mais, daqui a pouco, pela manhã no autódromo, teremos muito trabalho pela frente. Nem tanto pela corrida em si, em que a Ferrari larga com franco favoritismo, mas pelo que irá dizer Schumacher. Nossa, ainda bem que me lembrei. Para colocar todas essas frases que disponibilizei no blog e redigir os textos expostos também, necessitei de um bom e gostoso tempo de apuração. Com isso, nem instalei o meu equipamento para a transmissão da corrida, daqui a pouco, pelas rádios Globo e CBN. Ah como é gostoso trabalhar em rádio nas provas de Fórmula 1. É um desafio dos mais prazerosos.
Bom, amigos, vamos dormir um pouco? No nosso próximo encontro vou descrever como foi o domingo no circuito de Monza, em detalhes. Acho que vale a pena lhes contar como é esse processo de ter contato com a informação e transformá-la em notícia. Em especial num dia cheio de fatos de grande interesse jornalístico.
Grande abraço!