Foi descarado demais!

liviooricchio

12 Setembro 2006 | 16h24

Não dá para falar de outro assunto que não seja o escândalo de Monza no fim de semana. O que os comissários desportivos fizeram, sábado, só corrobora o que afirmei na primeira coluna deste blog: há enormes interesses para que a definição do campeonato se estenda ao máximo e, se Michael Schumacher e a Ferrari forem campeões do mundo, melhor ainda.
Creio que já conversamos bastante a respeito da despedida de Michael Schumacher no encerramento da temporada. Agora é hora de algo que ainda está bem vivo: não querem, de maneira descarada, que Fernando Alonso e a Renault conquistem outro título.
O que mais me chocou, e olha que para me chocar precisa muito, foi ver o assessor de imprensa da Ferrari, Luca Colajanni, no fim da tarde de sábado, explicar no hall da escada que dá acesso à sala de imprensa do circuito de Monza que Alonso atrapalhou Massa na curva Parabólica. Até então, eu acreditava que fosse na fase inicial da volta, o período em que não tivemos imagem lá na pista. Mas da saída da segunda perna da Lesmo até a linha de chegada, portanto na seção onde se encontra a Parabólica, as câmaras de TV acompanharam os dois carros. Vimos tudo. E não vimos nada.
É inacreditável. Ouvi coisas pesadas de Flavio Briatore e Fernando Alonso, sábado e domingo. Todas absolutamente fundamentadas. Posso imaginar como eles estejam se sentindo. Tanto, mas tanto esforço, investimento e, de repente, vem alguém de fora e lhe acusa de algo que você não fez e simplesmente pune severamente. É de revoltar mesmo, compreendo a reação de ambos. Briatore representa um grande grupo industrial, é verdade, precisa medir com bastante cuidado suas palavras, mas seria necessário ser uma ameba para não deixar-se atingir.
A história começa, na realidade, no dia seguinte à corrida de Magny-Cours, na França, quando a FIA proibiu o amortecedor de massa utilizado pela Renault com enorme sucesso. Pat Symonds, diretor de engenharia da Renault, depois dessa polêmica toda, conversou com um grupo de jornalistas, na sexta-feira da corrida de Istambul, em que eu estava, e nos contou ter enviado a Charlie Whiting, depois da metade do Mundial do ano passado, um dossiê com o projeto do amortecedor de massa.
“Consultamos a FIA para saber se poderíamos instalar no nosso carro, começar o seu desenvolvimento prático.” A resposta da entidade, enviada por escrito, foi que não havia nada de ilegal no recurso e a Renault poderia usar sem problemas. Foi o que eles fizeram. O experimentaram em mais alguns testes particulares, ainda, e equiparam os carros de Fernando Alonso e Giancarlo Fisichella. “O maior prejuízo para nós foi que passamos a trabalhar no projeto do modelo deste ano prevendo já seu uso. Foi por isso que logo depois que o retiramos nossa performance caiu tanto. Apenas, agora, nesse intervalo depois da Hungria (três semanas) é que tivemos tempo de rever o projeto.” Palavras de Symonds na Turquia.
Há dois anos viajei de trem de Nagoya para Yokkaichi, no Japão, com um pequeno grupo de pessoas da Fórmula 1 no qual estava Symonds, sempre bastante acessível. Pensa muito antes de dizer algo, mas não se omite de colocar o que defende.
Aí chegamos no GP da França e a FIA decidiu, um ano depois de concluir pela legalidade do sistema de amortecedor de massa da Renault, que estava errada, apesar de a equipe mantê-lo como lhe foi apresentado. A partir da prova da Alemanha, o dito há um ano passou a ser não dito. A FIA ameaçou com sanções severas se a Renault acatasse a resolução dos comissários desportivos da etapa de Hockenheim que, como a própria FIA um ano antes, não viam nada de irregular no sistema da Renault. No fim o Tribunal de Apelo, controlado pela FIA, deixou a sentença final: proibido e pronto.
Não precisa nem mesmo compreender de Fórmula 1 que a queda de desempenho da Renault se relacionava ao fato, além do avanço da Bridgestone também, lógico, o fornecedor de pneus da Ferrari. Era o que os homens que controlam a Fórmula 1 queriam. Ótimo. Schumacher vinha em franco progresso no campeonato, reduzindo a cada etapa a diferença para Alonso. Passou a haver a perspectiva real de o Mundial não acabar logo, como parecia depois do Canadá, quando Alonso abriu 25 pontos de vantagem para Schumacher.
Vocês não têm idéia da cara do Briatore e do Alonso depois do GP da Itália. Mas já pela manhã, às 11 horas, a escuderia francesa nos reuniu para mostrar, no vídeo, que Alonso não havia feito nada de deliberado que pudesse atrapalhar a volta de Massa. Imagine que dentre as pessoas que sufocavam o assessor de imprensa da Ferrari estava Andrea Cremonese, jornalista italiano da Gazzetta dello Sport. O diário esportivo pertence ao grupo Fiat, proprietário da Ferrari. É quase que uma publicação oficial da equipe. Os outros jornais também não pouparam críticas à decisão de punir Alonso.
Ouvi, pessoalmente, de Briatore: “Querem fazer Michael Schumacher ganhar o Mundial e vão conseguir.” Mais: “Se Alonso for campeão será uma vitória contra o sistema.” Da mesma forma escutei de Alonso: “Não considero mais a Fórmula 1 um esporte.” Ainda há pouco, antes de escrever este texto, escutei sua declaração à rádio espanhola, disponível na Internet: “A desculpa que deram para me punir ultrapassa a linha da honestidade”, dentre outras declarações pesadas.
Estão errados? Não acredito. A FIA proibiu o amortecedor de massa da Renault e sábado puniu Alonso porque, como disseram Briatore e Alonso, e como quase todos pensam na Fórmula 1, deseja mesmo que o título seja definido se possível na última etapa e Schumacher seja o campeão. Será que ele precisa? Será que a Ferrari necessita? Há tanta gente competente em extremos lá que penso ser bem possível serem campeões de novo sem a interferência dos responsáveis pelo controle do esporte.
O problema todo é que sábado não há como justificar a punição. Alonso deixou os boxes muito tarde para tentar sua última volta lançada, haja vista que cruzou a linha de chegada apenas 2 segundos antes de o cronômetro zerar. Portanto naquela volta em que estava à frente de Massa, apesar de ser a de aquecimento dos pneus, já vinha em ritmo forte. Tanto que Massa não reduziu muito a diferença entre ambos desde a reta que antecede a freada da Ascari até a linha de chegada. Permanceu, aí, na casa dos 150 metros.
Não estou desejando dizer, também, que o tempo da volta de Massa não foi prejudicado. Poderia, sim, ter sido um pouco mais veloz. Ele mesmo calculou em três décimos melhor, o que o faria sair na primeira fila e sua história na corrida teria sido outra. A questão é que Alonso não tinha o que fazer, já estava rápido para cruzar a linha de chegada antes de o cronômetro zerar.
Do ponto de vista prático, como poderia agir ao ver que um adversário se aproximava, mas não muito por conta de a diferença de velocidade ser pequena? Parar sua Renault? Quem sabe ir para a caixa de areia da curva Parabólica porque 150 metros atrás vinha uma Ferrari? Esquecer de seus interesses, perder a última chance de melhorar seu tempo, tirar o pé do acelerador, deslocar o carro para fora da trajetória e aguardar até que Massa o ultrapassasse para então pensar na sua vida? Senhores, por favor. Essa transcendeu qualquer capacidade de pessoas que vivem o mundo do automobilismo compreender. Que pena!