Frank Williams vai sair dessa também

liviooricchio

14 Setembro 2006 | 18h45

Foi no GP da Alemanha, em Hockenheim. Conversei por bom tempo com Peter Windsor, jornalista inglês, responsável, dentre outras coisas, pela entrevista unilateral com os pilotos, depois das corridas. Quando você assisitir na TV à imagem de um piloto no estúdio, em seguida a ele ter se classificado no pódio, saiba que quem a faz, para a FOM, é Peter Windsor. Mas nossa conversa não teve nada a ver com isso. Peter Windsor é amigo de Frank Williams, foi seu diretor-esportivo na época do título de Nigel Mansell, em 1992, e estava no carro, em março de 1986, quando Frank Williams sofreu o acidente que o deixou tetraplégico.
Nosso bate-papo enverdou pela crise da equipe Williams e detalhes de como a tragédia ocorreu, na perigosa estrada que vai do circuito de Paul Ricard a Marselha, na França, depois de um teste, antes de o campeonato de 1986 começar. No GP da Alemanha, agora em julho, a Williams completou sete etapas sem marcar pontos. Agora já são dez, é a maior crise da organização desde que Frank Williams compreendeu a importância que é dispor de um grande diretor-técnico e ofereceu 30% de seu time a Patrick Head para se associar a ele, em 1977. Só está à frente, este ano, de Super Aguri, Midland e Toro Rosso.
Hoje li no site da AutoSport inglesa que Frank considera esse período como o pior da sua história nesses 30 anos. O projeto do carro não é lá dos mais eficientes, o motor Cosworth começou bem mas acabou ficando bem para trás, por falta de dinheiro para desenvolvê-lo, e até o próprio planejamento da temporada está comprometido por causa da falta de dinheiro. Ouvi de Head, em Hockenheim: “Tudo isso é verdade, mas não justifica nossa falta de resultados. Ela decorre de o FW28 não ser muito veloz e não ser muito resistente. Essa combinação é letal na Fórmula 1.”
Frank Williams dirigia o carro no dia do acidente e Peter Windsor estava a seu lado. Conheço o lugar, é uma serra. As pessoas que se deslocavam por lá na época me contam que a proteção da estrada era bem pior que hoje. Windsor me contou que Frank costumava andar rápido. Uma ocasião, em 1993, entrevistei Frank Williams e lhe fiz uma pergunta: Dirigente ou piloto, como dizendo o que o senhor prefere ser? “Piloto, lógico, por conta dessa minha paixão pela velocidade hoje estou numa cadeira de rodas.” Senti uma pontinha de frustração em Williams por não ter seguido a carreira de piloto que ele tanto desejava. Chegou a competir de Fórmula 3.
Seu carro capotou na estrada e rolou uma pequena ribanceira. O teto cedeu justamente sobre a sua cabeça, o que lhe causou a fratura de vértebra cervical com secção da medula. Peter Windsor quase não se fez nada. Vocês sabiam que há mais de uma pessoa que o assisti em tempo integral. Compreender o que ele diz é difícil porque quase não tem voz. Sua respiração acabou comprometida com o seccionamento nervoso. Faz massagens diárias para facilitar a respiração. Não é capaz de comer e fazer qualquer atividade sozinho. Tetraplegia significa não movimentar os quatro membros, dentre outras limitações severas. Só quem tem uma determinação de ferro pela vida é capaz de sobreviver e ainda dirigir uma estrutura como uma escuderia de Fórmula 1. A Williams está mal hoje, mas foi considerada a melhor da década de 90. E quem comandava tudo?
Hoje Frank Williams lidera uma organização com cerca de 500 funcionários. Tem à sua frente no escritório das dependências de Grove, a menos de uma hora de Londres, em que tive a chance de passar um dia inteiro, uma mesa. Há nela um teclado digital projetado para Frank Williams ser capaz de com sutis toques dos dedos completar uma ligação telefônica. Um fone de ouvido com microfone o mantém em contato com o mundo. É assim que Francis Owen Garbett Williams, aos 64 anos, passa quase todo o seu dia. Lembro-me de na entrevista de 1993, Frank ter me contado que talvez seu pior momento na Fórmula 1 se deu em 1970.
Ele já dirigia seu time, que competia com um modelo De Tomaso, e o piloto era Piers Courage, inglês. “Eu havia feito um financiamento bancário para cobrir o que faltava do nosso orçamento. De repente, em Zandvoort, na corrida, tivemos um acidente fatal. De um momento para o outro eu perdi meu amigo, Courage, o carro e ainda tinha uma enorme dívida para pagar.”
Superou daquela situação aparentemente sem saída e sairá, com certeza, da crise técnica e financeira experimentada agora. A partir do ano que vem passará a viver uma nova realidade. Será parceiro da Toyota. Usará seus motores e fiquei sabendo, em Monza, sábado, que Frank Williams está prestes a assinar contrato com um superpatrocinador. Com dinheiro e um bom motor em 2007, seus problemas podem começar a diminuir dramaticamente. E todos sabem onde ele é capaz de chegar, mesmo partindo quase do zero de novo, apesar da idade e todas suas deficiências físicas.