Kimi, falta essencialmente commitment !

liviooricchio

16 Maio 2007 | 20h58

16/V/07
Domingo à noite, na sala de imprensa do circuito da Catalunha, Heikki Kulta, jornalista finlandês com quem troco informações regularmente há anos, nos autódromos ou por telefone, veio com essa história de que Kimi Raikkonen havia deixado o autódromo antes do fim da corrida porque desejava assistir à final do Campeonato Mundial de Hóquei sobre o gelo.

Como lhe repassei a entrevista que o Felipe Massa nos deu em português, com um pouco mais de informações das expostas na coletiva, em inglês, senti que o Heikki se sentiu meio que obrigado a me dar alguma coisa e contou o que o Kimi lhe dissera. Os dois são amigos. O Heikki tem seu celular e ano passado, no GP da França, me pediu, às pressas, para devolver a chave do seu armário às meninas que controlam a sala de imprensa em razão de pegar uma carona de helicóptero com o Kimi até o aeroporto Charle de Gaulle.

Achei estranha a informação do jogo de hóquei e confesso não ter acreditado. Pensei em algo do gênero: o Kimi lhe falou mesmo isso, mas em tom de brincadeira, e o Heikki imaginou ser verdade. Eu lhe perguntei o que o Kimi lhe havia dito. “Nada, problema elétrico, isso foi tudo o que disse à imprensa finlandesa, além de que estava de saída”, respondeu o Heikki.

Hoje, de volta já ao Brasil, acesso à Internet e vejo o próprio Kimi confessando a história que me foi repassada pelo jornalista. Há até uma frase do piloto da Ferrari em que explica ter solicitado à direção da equipe sair antes do fim da prova para acompanhar pela TV o jogo contra o Canadá. “A Finlândia perdeu, definitivamente não foi um bom dia.”


Senhores, acho que estou meio fora de prumo: vocês também consideram esse comportamento normal? O piloto abandona a corrida por um motivo que, pelo que se sabe, não tem culpa – soltou um fio do alternador – , e em vez de permanecer no circuito, para acompanhar o desenvolvimento da corrida, principalmente porque seu companheiro a liderava, decide regressar ao hotel.

Na minha cabeça isso soa como desinteresse grave. Incabível para quem é profissional, recebe como meia dúzia de cidadãos no mundo, fala-se com fundamentadas razões que são 2 milhões de euros por mês, e independente disso, deve estar lá porque sempre pode ser útil de alguma forma à equipe ou mesmo depreender algo distinto no restante da competição. Isso para não citar a importância de dividir com o grupo os momentos de celebração em caso de conquista ou consolação nas derrotas.

Essa é exatamente a questão. Kimi não é, como os italianos dizem, um “uomo squadra”. Interessa-se pelo que lhe diz respeito direto. A escuderia vencer, sem ser o protagonista, tem importância relativa. Ou nenhuma, pela sua reação. Comemorar a vitória do time finlandês de hóquei ou mesmo solidarizar-se com uma eventual perda do título, como aconteceu, é mais importante que dividir as mesmas emoções com o seu próprio grupo de trabalho.

Kimi garante, pelo que li, que a direção da Ferrari, entenda-se Jean Todt, lhe afirmou ser “o melhor a fazer”, referindo-se a ele ir embora do autódromo. Posso estar enganado, mas conhecendo o senhor Todt, duvido, e muito, que ele lhe tenha dito isso. Concordou, claro, com o pedido, tanto que Kimi foi mesmo embora, mas se bem sabemos como funcionam as coisas na Ferrari, contou ponto negativo para o finlandês. Aliás, mais um.

Seu comportamento equidistante de todos começa a incomodar o grupo. Principalmente porque o outro piloto é o oposto e, apesar de receber um terço do pago a Kimi, vem correspondendo muito mais. Tem sido confiável. Dirigentes, engenheiros, mecânicos podem confiar nele. Nos dois últimos GPs esteve irretocável: pole position e vitória com melhor volta. Não há mais o que cobrar.

A prova de Mônaco, dia 27, será a quinta do campeonato e muita coisa está por vir num calendário com 17 etapas. Mas a cada dia desenha-se com maior definição a política que a Ferrari poderá adotar na segunda metade da temporada, por exemplo.

Se fosse agora, não há dúvida: Massa ficaria com a preferência do time. Reações como a de Kimi, domingo, revelando total desprezo não só com os 80 integrantes que se deslocam com a equipe como com os quase mil em Maranello, só o distanciam ainda mais do que se espera dele, como sucessor de ninguém menos de Michael Schumacher.

Há uma palavrinha mágica na língua inglesa. Sem ela, pode esquecer qualquer possibilidade de sucesso na Fórmula 1: commitment. Não enxergo um vocábulo que a traduza com perfeição porque na realidade seu significado é amplo, reúne vários conceitos, como interação, integração, interesse recíproco, afinidade, doação mútua, empatia, desprendimento e por aí vai. Tudo em pró de uma causa.

Kimi precisa de um tempo para adaptar-se ao carro, aos pneus à escuderia, nada a questionar. Mas me respondam, por favor: alguém viu algum dos valores que definem commitment na sua decisão de trocar o fim da corrida no autódromo, com a sua equipe vencendo, pela transmissão do jogo de hóquei? Falta o que Kimi alega para ser mais eficiente na pista, tudo bem, mas essencialmente commitment !