Levar a Fórmula 1 para o Bahrein é um temeridade

liviooricchio

03 Abril 2012 | 10h58

03/IV/12
Amigos, enviei esse texto ontem para o Estadão e penso ser oportuno colocá-lo
no ar no blog.
Considero uma temeridade Bernie Ecclestone e Jean Todt concordarem em deslocar a Fórmula 1 para Manama, a fim de que o GP de Bahrein seja realizado, diante das várias mensagens de alerta dos grupos protestantes, conforme podemos perceber nas suas declarações.
Em Sepang, depois da corrida, os integrantes das equipes estavam bastante preocupados. Conversei com muita gente. A maioria acredita que, no fim, Ecclestone e Todt vão usar o bom senso e não expor os profissionais do evento a riscos.
Pessoalmente não penso que seríamos atacados. Não é o objetivo dos manifestantes. Mas fariam de tudo para o GP de Bahrein não ser disputado. E as forças armadas reagiriam. Ocorre que todos estariam, provavelmente, no mesmo palco, daí os perigos e não por o movimento que prega maior justiça social pretender atingir pilotos, dirigentes, jornalistas, não representamos seu alvo.
Abraços!
O texto:
As demonstrações de que a Fórmula 1 será recebida com violência em Bahrein se sucedem e, ao menos até agora, tudo o que se ouve é que a prova, quarta do calendário, dia 22, será disputada. “Não manchem a reputação desse respeitado esporte a motor com o sangue das vítimas barenitas” foi uma das frases lidas na manifestação contrária à realização da corrida, sábado, em Salmabad, que resultou na morte de um cinematografista. “Receber a corrida deprecia o sacrifício de nossas crianças e ignora nosso sofrimento e as feridas” era um dos slogans.

A primavera árabe está vivíssima nesse pequeno país do Golfo Pérsico. Com a aproximação do GP de Bahrein, o movimento contrário à realização do evento ganha força a cada dia. O Twitter tem sido utilizado para massificar o protesto. “Pare, meu sangue está fluindo” e “Corrida sobre sangue” receberam milhares de adesões. Os opositores ao regime da dinastia Al-Khalifa exigem, essencialmente, o mesmo da maioria das outras nações do mundo árabe cuja população saiu às ruas, disposta a tudo, para romper a tradição que fez seus líderes sentirem-se donos do país, em detrimento total da qualidade de vida dos seus cidadãos.

De acordo com a Força Jovem da Revolução de 14 de Fevereiro, dezenas de jovens se reuniram domingo, em Abu Saiba, região oeste de Manama, a capital do país, para protestar contra a chegada da Fórmula 1 e a morte de Ahmed Ismael Abdulsamad, sábado, atingido por tiros provenientes da polícia, segundo a organização.

Esse é um cenário comum nas ruas de Manama, hoje: unidades blindadas armadas enfrentando manifestantes com seus coquetéis molotov. Mais: protestantes antecipando aos dirigentes da Fórmula 1 que não irão permitir que o governo de Bahrein capitalize com a realização do GP, enquanto parte importante da população experimenta todo tipo de necessidades.

Os equipamentos das equipes embarcam sábado em voos fretados de Londres e Milão para Xangai, onde dia 15 será disputada a terceira etapa do campeonato, o GP da China. E já no dia seguinte à prova tudo deverá, se confirmada a corrida no circuito de Sakhir, estar voando para Manama. Em Sepang, durante o GP da Malásia, integrantes das equipes conversavam informalmente com a imprensa. Lembraram que as companhias de seguro já lhes haviam manifestado preocupação com sua viagem para o país árabe em estado beligerante.