Massa: a caminho de se tornar campeão do mundo

liviooricchio

25 Outubro 2006 | 19h58

A melhor notícia que Felipe Massa poderia dar aos brasileiros foi a de que aprendeu uma grande lição nesta temporada, ao compartilhar a Ferrari com Michael Schumacher: a importância de ter visão global de corrida. Segunda-feira, depois de vencer no dia anterior, com autoridade, a corrida de Interlagos, Massa conversou com um grupo de jornalistas.

“Fórmula 1 não é só se preocupar em completar 70 voltas no máximo que você e o carro permitem, mas saber, eventualmente, conter um pouco sua performance, economizar os pneus porque, de repente, você precisa acelerar mais e nessa hora os pneus e o carro estarão lá.”

É o que de melhor Massa poderia assimilar de Schumacher: consciência de que um piloto só conquista um título se tiver visão mais ampla da competição. Saber que vários fatores interferem no resultado é o primeiro passo para o Brasil poder ter mais um campeão na Fórmula 1. No bate-papo com a imprensa, Massa deu a entender ter aprendido com Schumacher a necessidade de pilotar ao mesmo tempo em que mantém parte de seu cérebro ocupado com esses fatores externos.

Conheço Massa desde o tempo em que corria de kart. Já no início de carreira mostrou ser extremamente veloz. Um piloto instintivo, corajoso e reativo. Mas pouco reflexivo. Curiosamente, essa característica o acompanha até hoje, embora na temporada passada e na que terminou domingo, aqui em São Paulo, sua evolução nesse parâmetro para se compreender um piloto tenha dado um salto adiante. O vimos pensando um pouco mais à frente.

A base, o essencial, Massa tem: velocidade. O restante, pode-se adquirir. É o que tem feito. Nesse processo, ter humildade, demonstrar abertura para ouvir a equipe, bastante experiente, e buscar crescer não é comum. Piloto, em geral, acredita muito em si, imagina ser capaz de tudo e pronto. Massa, ao contrário, tem-se revelado sensível à questão. Melhor que isso: está vendo também com os próprios olhos o seu estágio de preparação se comparado com os mais completos, Schumacher, Fernando Alonso e Kimi Raikkonen. Apesar dos significativos avanços, falta-lhe, ainda. O modelo de Schumacher, tão próximo, representou excelente escola.

Com o que tinha de recursos até ano passado, na Sauber, podíamos imaginar Massa vencendo uma ou outra etapa do campeonato, como ocorreu este ano. Com os novos e importantes capítulos de conhecimento adquiridos na Ferrari, caminhou mais para a frente. Mas gera ainda dúvidas se está no ponto para poder ser campeão. Essa dúvida é a que existe em boa parte dos que trabalham na Fórmula 1. Quantos o colocam dentre os que tem chances de lutar pelo título em 2007? Kimi Raikkonen, seu futuro companheiro na Ferrari, mesmo sem nunca ter trabalhado com o time de Maranello, está bem mais cotado. Não é por acaso.

Ouvir do próprio Massa o que disse, “a importância de ter visão global de corrida”, tem maior peso que as duas vitórias obtidas este ano, Turquia e Brasil, impecáveis e emocionantes para nós. Por quê? Porque elas estão dentro do previsto. Massa tem talento e competência para conquistá-las, mas caso se desenvolva mais na capacidade de compreender melhor o que a prova exige como resposta, como agora experimenta, lhe será possível ganhar bem mais corridas e disputar o campeonato de igual para igual com, provavelmente, Raikkonen.

Existem pilotos na Fórmula 1 que atingem determinado estágio de preparo e não saem de lá. Vemos que atingiram seu limite. O bom no caso de Massa é que o seu melhor, por deixar claro este ano crescer a cada etapa, ainda está por vir. É piloto em fase de aperfeiçoamento. Alguns trazem já consigo mais dessas características dos campeões, como Senna, Schumacher e Alonso. Na história da Fórmula 1, eles são raros. E a história não é feita apenas dos gênios, mas também de pilotos acima da média que, com o crescimento adquirido, colecionam conquistas.

Há uma diferença radical entre o Massa que, em 2002, vi circulando pelo paddock do circuito de Budapeste, às 16 horas da sexta-feira, argumentando ter já concluído a reunião com os engenheiros da Sauber – todos os demais trabalhavam – e o Massa titular da Ferrari. Primeiro pela compreensão do que está discutindo nesses encontros técnicos. Em 2004, disse-me que, no seu ano de estréia na Fórmula 1, fazia que compreendia o que os engenheiros lhe diziam, mas na realidade, estava era bem por fora.

Tenho informações de que, agora, não só domina o que lhe colocam como é capaz de sugerir os caminhos a serem seguidos. Ganhou credibilidade. É ouvido, embora os aspectos técnicos, pela sua própria natureza reativa e não reflexiva, não seja o seu máximo. Mas essa também não é condição obrigatória para ser campeão. O conhecimento da maioria dos pilotos não vai além do que lhes é cobrado na área técnica.

No dia 18 de setembro de 2001 Massa fez seu primeiro teste com um carro de Fórmula 1. Foi em Mugello. Eu estava na Itália, em Bolonha, peguei o carro e fui para lá. Não deseja perder a chance de acompanhar aquela experiência. Tinha grande curiosidade em ver como aquele menino de apenas 20 anos, dotado de um controle do carro capaz de encher os olhos de quem gosta de corrida de carro, como eu, se daria com um monoposto de 800 cavalos. Lembro-me de ter ido até onde se permite, na pista, para vê-lo percorrer a Rabiatta, um S de alta velocidade, em declive, espetacular. Não me decepcionei. Era preciso coragem para já de cara, com um carro da Sauber, ser tão veloz.

A impressão que tive, como a do engenheiro Gianpaolo Dallara (homônimo do proprietário da marca), o seu técnico naquele dia, foi a melhor possível, tanto que Peter Sauber o contratou. Na segunda-feira depois do GP da China, este ano, agora há pouco, conversei longamente com Gianpaolo no aeroporto de Xangai. Embarcamos juntos para Nagoya, no Japão. Falamos bastante de Massa. Chegamos a mesma conclusão: manteve seus extraordinários dotes de velocidade e evoluiu significativamente em constância. Erra bem menos. Agora, com essa visão mais ampla da corrida que demonstra adquirir, entra na faixa dos campeões em potencial.

Jornalista não tem de se envolver com ninguém, mas não posso deixar de expressar, até pela fidelidade com os que acessam o blog, minha torcida: tomara que esse seja o destino de Massa. Estou torcendo!