Michael Schumacher, por um jornalista

liviooricchio

09 Setembro 2006 | 12h48

Esse texto, não sei se na íntegra, vai estar na edição de amanhã do Estadão. Há, no entanto, muito mais que ele no especial sobre Michael Schumacher que fizemos. Vale a pena conferir. Já estou me preparando para as muitas críticas que receberei por conta da minha visão quase emotiva do piloto mais completo que vi correr na Fórmula 1. Vamos lá:

Iniciar a trajetória ininterrupta de cobertura da Fórmula 1 ao mesmo tempo do surgimento de Michael Schumacher, em 1991, é um privilégio raro, em especial para quem se identifica tanto com esse esporte. Compreender o sentido de estar presente em praticamente seus 245 GPs, até hoje, só será possível mais para a frente, quando a competição começar a sentir a falta de um piloto capaz de, por exemplo, reverter causas quase impossíveis, como tantas vezes ele fez.
Acompanhá-lo de dentro da pista, atrás de muros, próximo às placas dos 100 e 50 metros para o início das curvas, permitiu uma visão mais profunda da arte de conduzir desenvolvida por Schumacher. Onde ele freia, acelera, como trabalha o volante, sua técnica de quase não tirar o pé do acelerador, brecar com o esquerdo constituem um menu de recursos não encontrado, na sua proporção, em nenhum outro piloto de sua era na Fórmula 1.
Não só: sua notável visão global de corrida, capacidade de intervir na organização da equipe, sugerir engenheiros, métodos de gerenciamento ajudam a compor uma visão mais densa e diferenciada de sua obra. Sempre foi acusado de não ter enfrentado grandes adversários. Ainda que não seja bem assim, talvez não tivesse mesmo conquistado tanto, ser primeiro colocado em quase tudo, mas a extensão de seu sucesso não seria por demais diferente. É tão competente ou mais que a maioria absoluta que lhe costumam apresentar como superior.
Pena não dispor dos mesmos dotes de velocidade, arrojo, segurança, profissionalismo na hora de, eventualmente, saber perder uma disputa. Por conta de não abrir mão nunca do desejo de vencer, não importanto os meios, vai entrar para a história como um mau-carácter. Tão grande e tão pequeno ao mesmo tempo. Não há como negar. Mas seria injusto esse pesado fardo cobrir tudo o de bom que também faz. E não aparece. Exemplo: manter, sozinho, com recursos próprios, um hospital infantil em Sarajevo, investimentos igualmente elevados nos programas da Unesco, de quem é embaixador, no Instituto criado pelo professor Gerard Saillant, para a recuperaçao de lesionados na medula espinal, além de doações generosas, como U$ 10 milhões para as vítimas do tsunami.
Claro que essas colaborações são materiais e nada têm a ver com o que fez em Mônaco, este ano, atravessando sua Ferrari na pista para seus adversários não o superarem. Onde desejo chegar é que me parece um erro levarmos conosco apenas essa imagem de Mônaco ou de Adelaide, em 1994, ou Jerez de la Frontera, 1997. Schumacher é aquilo, nada a questionar. Mas é muito mais que aquilo também.