Monza não é tudo isso

liviooricchio

05 Setembro 2006 | 13h36

Estou de viagem para Milão, via Frankfurt, como sempre, minha base de operações. Em primeiro lugar, não há comentário ou e-mail que não leia. Espero, agora, com a vida um pouco mais programada, ou seja, planejei melhor como conciliar as várias atividades que exerço, poder começar a responder boa parte das imprescindíveis mensagens recebidas. Obrigado amigos. Mesmo às críticas, por que não?
Com todo o clima de automobilismo que o circuito de Monza gera, por conta de sua história que remonta, ainda, há 1922, confesso que não sinto no circuito a mesma sensação maravilhosa de Silverstone, por exemplo. Que a minha família não me leia, por favor. Não enaltercer algo da Itália…serei considerado um herege. Mas a verdade é essa mesmo.
Ano passado, pela primeira vez desde que estou na Fórmula 1, percorri os 5.793 metros do traçado. Estava ao lado de Charlie Whiting, o diretor de provas e com quem, regularmente, ando na pista. Ele dirigia. Se você chega nos autódromos na terça-feira anterior à corrida, não é difícil, com seu próprio carro, credenciado como o nosso, conhecer o circuito. E apesar de ter permanecido a maior parte de 1994 na Itália, perto de Monza, não conhecia ainda o traçado.
A experiência apenas confirmou minha impressão. Trata-se de um traçado capaz de selecionar, em essência, motores e freios. Amo as pistas velozes, mas as que oferecem seções em que os bons pilotos prendem a respiração antes de percorrê-las, onde um grande piloto consigue, no arrojo, coragem e habilidade, ser dois, três décimos mais veloz que a maioria. Correndo riscos, lógico. Monza tem quase só a parte dos riscos.
Minha opinião não teria importância alguma se, ao conversar com vários pilotos, não dissessem a mesma coisa. E eles sabem o que falam. Reta dos boxes, Varante del Retiliffo (acho que a grafia é assim), ou primeira chicane, Curva Grande, de pé em baixo, Variante della Roggia, ou segunda chicane, primeira de Lesmo, segunda, Reta del Serraglio e freada da Ascari. Até agora quem mais se responsabilizou pela performance foram a capacidade de frear do carro, sua retomada de velocidade e, um pouco, a capacidade de o piloto frear mais dentro da curva, também relativa ao comportamento do carro.
A seguir vem a Ascari, talvez o único ponto onde um bom piloto pode ganhar um ou dois décimos, quem sabe, em relação a seus colegas. Reta que antecede a Parabólica e outra freada, não muito forte. Definida e velocidade de entrada na Parabólica o resto é pé em baixo, até a freada da primeira chicane, depois de se cruzar a linha de chegada. Nada muito seletivo para o piloto.
Tem mais: quando alguém bate em Monza tenha a certeza de que bate forte. E não imagine sua segurança como das melhores. Em geral, os acidentes são causados por alguma dificuldade com o carro ou os pneus. Não há muito o que errar no circuito localizado a poucos quilômetros ao norte de Milão. É diferente, por exemplo, de Spa-Francorchamps, em que as saídas de pista se dão, em geral, pela solicitação extrema de habilidade de quem percorre várias de suas seções. O que faz mais sentido par a mim. Sem falar que a segurança de Spa, ainda que distante da ideal, é superior a de Monza, com suas áreas de escape reduzidas para as velocidades atingidas.
Vale, sim, a festa espetacular que os italianos fazem. Gostam de automobilismo, entendem desse esporte, têm tradição de assistir às corridas. Se uma Ferrari vence, como é possível, diante dos resultados dos testes da semana passada, a invasão de pista faz parte do folclore do evento. Nem todos sabem: mas tão logo é dada a bandeirada, a primeira preocupação dos mecânicos é recolher todo o possível para dentro da área de box e fechar suas portas. Não dá para controlar 20, 30 mil pessoas cheias e emoção, loucas para celebrar uma conquista de sua heroína, a equipe Ferrari.