Nos bastidores da despedida de Schumacher

liviooricchio

13 Setembro 2006 | 13h37

A sensação de que a notícia é mais rápida do que você é angustiante. Foi o que aconteceu sábado e domingo em Monza. A Fórmula 1 é um evento disperso. Os autódromos são grandes e existe o risco de nós, jornalistas, não termos contato com algo relevante por, simplesmente, nos encontrarmos longe de onde tudo está acontecendo.
Contar com uma rede de amigos ou mesmo colegas é essencial para reduzir ao mínimo essa possibilidade, bem desgastante na nossa profissão. Regularmente troco informações com um grupo de jornalistas formado por Pino Allieve, da Gazzetta dello Sport, Heikki Kulta, finlandês e amigo de Kimi Raikkonen, Mathias Brunner, do MotorSport Aktuell, Suíça, talvez o mais bem informado de todos nós, Michael Schumidt, do Auto Motor und Sport, da Alemanha, Carlos Miguel, da As, espanhol, Mark, inglês, Alberto Antonini, da Autosprint, Itália, e meus grandes amigos Paolo Bombara, do SportMotorAuto, italiano, e Luís Vasconcelos, do Autosport de Portugal.
Sábado, em Monza, havia notícia a respeito do futuro de Michael Schumacher, envolvendo o escândalo que foi a punição a Fernando Alonso, além da própria corrida em si no dia seguinte, dentre outras. Estar próximo de todos que poderiam nos fornecer dados a respeito desses aspectos da cobertura seria impossível, daí a tensão do fim de semana. E todos temas de elevada relevância jornalística. Mas nada diferente do que estamos acostumados. Faz parte do jogo e é um desafio delicioso de se encarar.
Cerca de umas duas horas depois de terminada a classificação, sábado, começou um zum zum zum no paddock a respeito de uma possível punição a Alonso. Curiosamente, assim que acabou o treino, desci da sala de imprensa, em seguida à coletiva dos três primeiros, para ouvir o Massa e o Rubinho. A primeira pessoa que encontrei próximo ao motorhome da Ferrari foi o Titonho, o pai do Massa, que conheço do tempo em que ele disputava o Campeonato Brasileiro de Marcas e eu iniciava no jornalismo. “O Felipe está puto da vida porque me disse que o Alonso atrapalhou a volta dele.”
Fiquei com aquilo na cabeça embora ao fazer uma retrospectiva do que se passara, não via por onde o Massa estar furioso com o espanhol. Dava para ver que sem o Alonso, o Massa talvez fosse um pouco mais veloz, mas tráfego nos treinos classificatórios existem desde que, de novo e felizmente, a Fórmula 1 voltou a adotar o sistema de todos treinarem juntos. Não vi nada deliberado no espanhol.
O negócio ficou meio esquecido até eu ouvir no paddock que o Alonso poderia ser punido com a perda dos seus três melhores tempos, o que o faria largar em décimo. Não acreditei. Será que os comissários vão ter essa cara de pau para tentar favorecer os interesses de quem controla a competição? E não é que tiveram. O texto já enviado para o jornal teve de ser reescrito e os boletins de rádio gravados refeitos. Chocada, mas não surpresa. Assim reagiu a maioria na sala de imprensa.
À noite haveria o famoso jantar da Ferrari em Monza. Muita gente deixou o autódromo no início da noite para tomar um breve banho e retornar para o encontro. A temperatura passara dos 32 graus, sábado, e estávamos bem suados. Ao contrário do que se faz no GP Brasil, em que a CET revê tudo na organização do trânsito nos dias de corrida em Interlagos, e é um dos que melhor funciona no campeonato, os italianos no máximo aumentam seu efetivo de policiais e passam a controlar eles próprios os cruzamentos, desprezando os semáforos. Não é preciso dizer que a área em torno do Parco di Monza, onde se encontra o circuito, um adensamento urbano importante, se transforma no caos.
Meu hotel nessa prova, há anos já, situa-se numa cidadezinha chamada Mariano Comense, que acesso através da autoestrada que leva à linda Como e à Suíça. Tudo muito perto, por favor, hein? De carro até Mariano, sem tráfego, não perderia mais de 20 minutos. Sábado, porém, uma hora e meia. Como Mariano está ao norte de Monza, que por sua vez está a nordeste de Milão, o cenário de fundo da autoestrada é a cadeia de montanhas dos Alpes. A Ferrari nos convida todo ano para seu tradicional Wroooommm. Trata-se da reunião de alguns jornalistas com os pilotos e integrantes da equipe na estação de esqui de Madonna di Campiglio, nos Alpes.
São dias inesquecíveis. A começar pelo local, dos mais espetaculares que se pode sonhar. Se me convidarem agora em janeiro, como fazem há seis anos, enviarei fotos de lá. Temos a oportunidade de almoçar, jantar, praticar esportes juntos de Michael Schumacher, por exemplo. Há um certo isolamento do alemão, mas nada que te impeça de se aproximar dele e lhe fazer uma pergunta, desde que não seja de Fórmula 1, claro.
O gran finale do evento é uma corrida sobre um lago congelado, no centro da cidade. Até ano passado se fazia com kart. Este ano passaram para um pequeno modelo Fiat, Panda, reestilizado. Um dos pontos altos do Wrooommmm são os jantares no topo das montanhas nevadas. O acesso se faz por longos teleféricos e em seguida por snowcats, aqueles veículos com sapatas tipo tanque de guerra. O caminho é iluminado por tochas acessas. Tudo sob temperatura, como este ano, de 18 graus abaixo de zero. Bárbaro e um exemplo de organização.
Vamos voltar para o calor de Monza. Com as dificuldades do trânsito e minha vontade de conhecer meu sobrinho, nascido ali do lado há 15 dias, cheguei tarde no jantar da Ferrari. A ponto de não jantar. Tampouco me senti no direito de receber o presente que deram. Pelo que vi este ano foi uma grapa, bebida feita do bagaço da uva, de elevada qualidade. Altissimo teor alcoólico. Um segredo: é a bebida favorita do Schumacher. Já o vi encher a cara que tal forma com grapa que quase não caminhava. Há uns cinco anos, lá mesmo em Madonna di Campiglio, depois de um desses jantares, voltamos para o hotel. Havia um pequeno grupo de jornalistas e o Schumacher e o Rubinho. Passava fácil das duas da manhã, estávamos no bar, quando o Rubinho teve a brilhante idéis de ensinar o Schumacher a fazer caipirinha.
O alemão fez, com vodca em vez de cachaça, ele próprio colocou os copos numa bandeija e nos serviu. Tudo no máximo da informalidade. Estava alto. Nos instantes seguintes ele e o Luca Badoer, piloto de testes, sumiram por uns 20 minutos. Ficamos sabendo depois que o Rubinho foi dormir que na sua cama não havia colchão. O Schumacher e o Badoer tiraram o colchão e o colocaram na escada entre um andar e outro. Mais: retiraram as roupas do Rubinho da mala e espalharam pelo quarto, cujo carpete foi regado com champanhe. O Rubinho me disse, pela manhã, “a resposta será à altura.”Mas nem sei porque estou lhes dizendo isso. Com o tempo eu vou lhes contar os desdobramentos dessa história.
Domingo, 10 de setembro de 2006, o grande dia. O que Schumacher fará da vida? Bem antes, cerca de um mês, havia publicado no Estadão que ele pararia de correr. Você não acha que eu sou louco de escrever num jornal como o Estadão apenas o que eu penso, não? O dia que um jornalista achar que sua opinião tem importância é bom ele repensar a profissão. Somos apenas a ponte entre o fato, ainda não notícia, e vocês. Posso até compreender que depois de anos numa mesma área, tão específica, de valores tão próprios e, ao mesmo tempo tão distante do dia-a-dia das pessoas, como é a Fórmula 1, alguém que esteja regularmente lá dentro disponha de mais elementos para análise de quem não vive essa realidade. Mas apenas isso.
Quando publiquei que Schumacher pararia, estava apenas repassando para o jornal o que várias fontes, todas muito confiáveis, me sinalizavam há algumas semanas. Uma conversa com Flavio Briatore, cujo teor foi bem mais profundo do que li depois na Internet, me fez tomar a iniciativa de dar a notícia em manchete, utilizando-me das declarações do italiano. Agora, se nesse espaço de tempo o Schumacher decide mudar de idéia, muito pouco provável mas não impossível, já imaginou o que aconteceria comigo? Nenhum outro veículo impresso me aceitaria mais como jornalista. Como me disse a Gaia Piccardi, amiga do Corriere della Sera: “Venderíamos sorvete na praia.”
Impressionou-me no fim de semana, aliás esse processo todo de pára não pára do Schumacher, o desinteresse do pessoal dele e da Ferrari de organizar algo e repassar para a imprensa. Coisa do tipo tal dia, tal horário, em tal lugar Schumacher dará uma entrevista coletiva. Não sabíamos nada sobre como seria. Depois veio a informação que se ele fosse para o pódio, o que lhe garantiria vaga na entrevista coletiva depois da corrida, aproveitaria o evento para um pronunciamento. O pessoal de televisão estava louco da vida porque como reservar satélite sem saber hora? A maioria gostaria muito de dar ao vivo a esperada despedida do maior piloto de todos os tempos, ao menos em números.
Foi um tanto constrangedor para Kimi Raikkonen, segundo colocado, e o fantástico Robert Kubica, terceiro. Os dois, um de cada lado, ombro a ombro com Schumacher, aguardando-o falar, falar, falar sobre o porquê de sua decisão de abandonar a Fórmula 1 como piloto. Assim como quase todas as perguntas se endereçaram a ele. Como se a performance excepcional do polonês não tivesse maior importância. Mas também concentrar as questões em Kubica enquanto Schumacher, ali disponível, amuncia que pára de competir, é também meio louco, não?
O Briatore. Queria ouvi-lo depois da corrida. Eu e algumas dezenas de jornalistas. Mais ou menos uma hora depois da bandeirada ele saiu de dentro dos caminhões da Renault, estacionados na parte de trás dos boxes, e se direcionou para os motorhomes, cerca de 40 metros mais para trás. É nesse espaço entre os caminhões e os motorhomes que nós jornalistas mais trabalhamos, ou seja, mais apuramos informações. Briatore parou para falar mas nos observava nos olhos e não dizia nada. Situação estranha. Depois respondeu algumas perguntas, o pessoal foi embora e enquanto caminhava para o motorhome, naqueles 10 metros que faltavam, eu e o jornalista italiano Cesare Maria Manucci, da Autosprint, tiramos mais algumas coisas dele. Pegou pesado como já escrevi na coluna que está no ar. Mas vocês precisavam ver a cara do Briatore, nunca o vi assim. Olhava para o nada o tempo todo. Como o Mundial que depois do GP da Canadá parecia favas contadas agora lhe fugia às mãos a cada dia?
Saí tarde, como é normal, da sala de imprensa. Lá em Mariano há um restaurante, o La Combusa, do nosso amigo Luca e seus pais. Eu e o repórter da Jovem Pan, Felipe Motta, estávamos no mesmo hotel, como é comum, dissemos ao Luca que chegaríamos depois das 23 horas no domingo. Como já eram 23h35 quando entramos na ruazinha do restaurante, acreditávamos que eles estariam fechados. Você acredita que nos aguardavam? Comemos, como sempre, muito bem. Meu estômago, que parece de avestruz e naquele GP ficara zangado, já havia dado uma trégua. A essa hora da noite, ficamos numa pizza, feita na hora ao mesmo tempo em que conversávamos sobre tudo. Seu pai nos preparou.
Vi uma aliche –as italianas são excepcionais – ali, soltinha, fresquinha, quase saltitante e eu mesmo pedi licença para acomodá-la delicadamente sobre a mussarela de búfala antes de eles levarem a pizza ao forno. Lá pelas duas de la matina, em seguida a uma saideira com limoncello – hummmmmm – nos despedimos. Não quiseram cobrar nada, última noite, sabe como é. E ainda nos deixaram a vaga no estacionamento por causa de a entrada da garagem do hotel estar fechada. Que horas são? Nossa, tenho de ir para a redação. Escrevi esse texto aqui de São Paulo e está na hora de ir para o jornal. Nosso próximo encontro será, agora, em Xangai, na China, combinado?
Sei que tem gente que irá reclamar, como já recebi e-mail nesse sentido, de que o texto está muito longo. Deculpe, amigos. Como já me manifestei, aqui, esse é um momento de lazer para mim.
Abraços!