O que está por trás do inferno astral de Kimi Raikkonen

liviooricchio

31 Maio 2007 | 21h44

31/V/07
De terça-feira, dia que regressei de Mônaco, até agora, quase sexta-feira já, amigos ou mesmo colegas aqui das redações do Estadão e do JT me perguntaram o que se passa com Kimi Raikkonen. Desejavam saber minha opinião, afinal acompanhei de perto as cinco provas que Kimi disputou, este ano, pela Ferrari.

Contra todas as previsões, o finlandês vive um inferno astral. Ao contrário de ser o líder da Ferrari e Felipe Massa seu coadjuvante na luta pelo título, foi o brasileiro quem obteve, até agora, os melhores resultados com o time italiano. E pior para Kimi: ao menos pelo apresentado até Mônaco, não parece existir perspectiva a curto prazo de esse quadro reverter-se.

A partir de minhas observações, de informações que me foram repassadas pelo jornalista finlandês Heikki Kulta, amigo tanto de Kimi quanto meu, mais algumas fontes de dentro mesmo da Ferrari, vamos tentar decifrar as razões de Kimi estar frustrando a si próprio, a sua imensa torcida e o pessoal da sua nova equipe?

Ele chegou na Ferrari, em dezembro, com enorme gana de, finalmente, poder conquistar os resultados que a McLaren, por falta de melhor equipamento, tanto em velocidade, em vários momentos, quanto confiabilidade, em mais ocasiões ainda, não lhe permitiram.


Por mais que respeitasse Massa, com toda certeza na sua cabeça o seu novo companheiro não seria um problema. Sempre deixou seu parceiros para trás. Poderia até perder, na média, a disputa pelas melhores colocações no grid, mas nem por um instante acreditou que o brasileiro seria um duro adversário em condição de corrida. De novo: Massa até venceria um ou outro GP. Não se inseriria, no entanto, na luta pelo título com ele.

Em resumo, chegou despreparado para enfrentar a atual realidade: Massa tornou-se mais do que ele pensava, para sua surpresa e de muitos da Fórmula 1. Até da própria Ferrari, conforme ouvi de Jean Todt, sexta-feira em Mônaco.

A coisa não ficou feia no começo porque Kimi não podia treinar. Nos testes de novembro e dezembro, limitou-se a acompanhar os trabalhos da Ferrari nos autódromos, a fim de familiarizar-se com a metodologia de encarar um fim de semana de corrida. Mas viu, lá, que provavelmente, como se diz mais popularmente, “o buraco seria um pouco mais em baixo.” Nada dramático ainda.

O carro novo, F2007, foi para a pista. Até então Kimi tinha convicção, consigo próprio, de que Massa não seria o osso duro em que se transformou. O finlandês finalmente estreou como piloto da Ferrari no início de janeiro, com o modelo do ano passado, para habituar-se com sua reações e começar a compreender as características dos novos pneus Bridgestone, bem distintos dos Michelin, utilizados pela McLaren, sua ex-escuderia.

Logo no início, segundo minha fonte da Ferrari, Kimi levou um susto. Os pneus Michelin são de construção bem distinta dos Bridgestone. Suas paredes são mais macias. Os pneus franceses fletem, dobram mais, acabam por ajudar o trabalho de absorção das tensões realizado pelas suspensões .

Na prática, isso se traduz por facilitar a entrada de curva, dentre outras reações desejáveis do carro, como melhor tração. Já os pneus Bridgestone, em especial os adotados este ano, sem a concorrência da Michelin, são ainda mais duros que os usados em 2006. Isso significa que os pneus repassam mais para as suspensões essa função de amortecimento.

E não há, hoje, na Fórmula 1 como se adotar ajustes macios de suspensão por conta da necessidade de obter o máximo de resposta aerodinâmica. Kimi passou a pilotar um carro cujo comportamento da frente, em especial, diferenciava-se profundamente do que estava acostumado. Mais difícil, agora.

Para ser veloz, não adianta frear lá dentro, bem próximo à curva. A frente não irá entrar. Na linguagem automobilística, sairá de frente. Reação que reclama até agora. Hoje, um dos desafios da pilotagem é exatamente essa solução de compromisso. Saber frear antes para, contra a lógica, ser mais veloz. A condução é mais técnica.

Kimi estréia com o F2007. Mais longo entre eixos para a Ferrari poder distribuir melhor o peso do carro, transferi-lo um pouco mais para a frente, a fim de pressionar mais os pneus dianteiros contra o solo para melhor aderirem, o F2007 atenuou as reações indesejáveis descritas pelo finlandês a seu time. Mas ainda assim a dificuldade persiste.

Enquanto ele estabelece marcas razoáveis, seu companheiro voa. Tudo em oposição ao que imaginava. Adicione aí também, por favor, que Kimi sabe receber três vezes mais que Massa, o que por si só já representa uma pressão extra. Um nó começa a se formar na sua cabeça. E piloto de Fórmula 1 com dramas por resolver não produz o que pode. Lembre-se que a diferença entre eficiência e má performance pode ser medida na casa de décimos de segundo.

Massa conhece a Ferrari desde 2003, quando tornou-se piloto de testes, fala italiano, vem registrando as melhores marcas, praticamente não erra, como Kimi esperava, tem o apoio explícito de Michael Schumacher e vinha de uma vitória espetacular na última etapa de 2006, em Interlagos. Estava e está com a moral nas nuvens.

E Kimi? Com dificuldades para se adaptar ao estilo de pilotagem imposto pelos novos pneus, pelo carro, está mais mais lento, inesperadamente, que o parceiro, situação inusitada e complexa de se lidar, não mantém relação próxima com Schumacher, ainda uma referência na Ferrari, e sua própria natureza também não ajuda.

Senta, pilota o carro, mal, comenta isso e aquilo, sem grande precisão, como é sua característica, não demonstra entusiasmo por nada, também de acordo com seu espírito nórdico. Em síntese, ao contrário da forma de encarar a vida dos italianos.

Seu ambiente não é o melhor por essa distância natural que se estabelece entre ele e o time. Dá para ir mais longe, entre Kimi e o sempre solícito Chris Dyer, ex-engenheiro de Schumacher, hoje o de Kimi.

Na Austrália, a vantagem técnica da Ferrari para a McLaren e as demais equipes era muito grande. E Massa não disputou duas sessões da classificação por quebra do câmbio. Com Massa fora da disputa e com a Ferrari dona de um ritmo bem mais veloz que todos os demais, Kimi venceu em Melbourne. E quase põe tudo a perder ao errar, sozinho, durante a prova.

Dá para ver que o bom piloto Kimi Raikkonen experimenta uma série de fatores contrários? Técnicos, como vimos, e emocionais. Não esperava mesmo ficar atrás de Massa. E para piorar sua situação, já está bem para trás na classificação do campeonato e tudo isso não deve ser revertido de um momento para o outro. Ao menos é o que ensina a história da Fórmula 1. Kimi sabe que a Ferrari e a torcida esperavam muito mais dele. Não está correspondendo.

Quando tenta reagir, anda acima do limite, para a sua realidade de hoje, e erra, como em Mônaco. Ninguém passa a mão na cabeça de ninguém na Fórmula 1 por detrás das câmaras. Piloto ganha milhões para pôr o bum bum lá e corresponder ao investimento elevadíssimo que se faz no seu trabalho. Kimi terá de trabalhar todo esse drama internamente. E não será fácil.

O finlandês sabe que a Ferrari irá verificar o que vai ocorrer nas duas próximas corridas do calendário, Canadá, dia 10, e EUA, 17, para decidir sobre quem irá concentrar seus interesses para lutar pelo título. A hora de reagir, se possível, é agora. Mas como descrevi, trata-se de um processo, não apenas da tomada de uma decisão, de uma postura distante da assumida.

Seria surpreendente, diante da conjuntura experimentada, ver Kimi brigando pelas vitórias, como já fez com competência na McLaren. Ao menos agora. Quem sabe depois de mais algumas boas provas ainda.