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Esportes » Pilotos radicalizam para enfrentar a falta de higiene na Índia

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liviooricchio

27 Outubro 2011 | 18h04

27/X/11

Livio Oricchio, de Nova Delhi, Índia

  Ao mesmo tempo em que Sebastian Vettel, o bicampeão do mundo, da Red Bull, Michael Schumacher, Mercedes, Fernando Alonso, Ferrari, dentre tantos, manifestavam, ontem, no circuito de Buddh, na Índia, seu desejo de entrar logo na pista, não escondiam suas preocupações com a falta de higiene no país. E Bruno Senna, Felipe Massa e Rubens Barrichello contaram como estão agindo. “É meio paranóico, mas necessário”, definiu Bruno, que anda com um frasco de desinfetante no bolso.

  Os pilotos esperam que os primeiros treinos livres do GP da Índia, 17.º do calendário, hoje, confirmem a sua previsão de um traçado espetacular. Com a diferença de sete horas e meia entre o horário de Brasília e o de Nova Delhi,  a primeira sessão começa às 2h30 e a segunda, às 6h30. Para tentar impressionar o adversário ou por otimismo mesmo, Schumacher de um lado e Jenson Button, da McLaren, do outro, já foram logo adiantando que os seletivos 5.125 metros da pista concebida pelo arquiteto alemão Herman Tilke deve favorecer seus carros.

  Mas o assunto do dia, ontem, no paddock do autódromo indiano foi como cada piloto se protege de contrair uma gastroenterite, relativamente comum em locais de pouca higiene, dentre outras patologias. Os brasileiros não se incomodaram de expor sua apreensão. “Viemos aqui para correr então é normal que tomemos algumas medidas”, justificou Bruno. “Eu tenho no bolso este frasco de desinfetante. Cada vez que cumprimento uma pessoa eu o uso.”

  Há um comportamento comum à maioria dos profissionais da Fórmula 1 na Índia, chocados com os fortes contrastes entre ricos e pobres da sociedade. “Fica todo mundo na sua orelha falando, falando, então eu também escovo os dentes com água da garrafinha e não da torneira”, disse Massa. E como bom filho, segue a orientação da mãe. “Ela me falou para fazer um pensamento positivo toda vez que eu ver uma vaca. E aqui tem vaca em todo lugar e até elefante na rua. Eu vi a vaca e fiz.”

  Rubinho, rindo, segue a mesma rotina do amigo da Ferrari no banheiro e falou de um piloto que anda com uma garrafa de uísque. “Disseram para ele lavar a boca com uísque depois de comer qualquer coisa.” Soube-se, depois, de que se trata de ninguém menos de o bicampeão do mundo, Vettel. O que impressiona muito Rubinho é a devoção à vaca. “Você está numa autoestrada e elas aparecem na sua frente.” Uma experiência pouco comum marcou sua primeira noite em Nova Delhi: “Eu ouvi o barulho de um sininho e saí no terraço do meu apartamento no hotel. Era um elefante passando do meu lado”.

  O tema da preocupação com a higiene é pródigo em histórias. Um dos pilotos alemães, por exemplo, estaria levando tão a sério o receio da contaminação que usa uma espécie de esparadrapo de fácil soltura na boca durante o banho. Outro piloto se alimenta apenas no motorhome da equipe, café da manhã, almoço e jantar. As equipes transportam boa parte de seus alimentos para as corridas.

  Chamou a atenção de todos na Fórmula 1 a completa liberdade no trânsito na capital da Índia. “Um carro aparecer na contramão, na sua frente, é normal aqui”, falou Massa. Vitaly Petrov, da Renault, estranhou não ter visto faróis no deslocamento pelas ruas. E Alonso comentou a respeito da “ausência de sinais de trânsito”. O comentário de Dick Stanford, da Williams, a esse respeito: “Eles asfaltam o terreno e o resto é com os usuários”.

  Amigos, combinei com um motorista de vir ao hotel de manhã e me buscar à noite no autódromo, que é bem longe da cidade e olha que já estou na região sudeste de Nova Delhi, de encaminhamento mais fácil para o circuito. É inacreditável. Como destacou Petrov, também vi um ou no máximo dois semáforos. Os cruzamentos largos em nível são frequentes, as situações de elevado risco de acidente impensavelmente comuns, carros, caminhões, tuque-tuques, motos, superlotados e em condição precária por toda parte… não imaginava algo tão crítico, chocante, por mais abertura que um cidadão possa ter.

Conheço algumas nações africanas, do sudeste asiático, o nordeste brasileiro, mas nada se compara com as famílias vivendo num imenso lixão como deparei hoje de manhã ao cruzar um vilarejo não distante do autódromo, dentre outras realidades que nos convidam à reflexão a respeito da real causa humana no planeta.  Quando deparo com crianças na condição presenciei hoje não há como não se alterar, ser atingido. E falo de centenas, não de uma ou duas. Pior: se perspectiva, ao menos a curto prazo, de mudanças. Faço força para me manter firme. Pense que estou na capital do país de assustadores mais de um bilhão de habitantes. Imagine outras cidades de menor atividade econômica.

  A estrada de acesso ao autódromo se estende por bom pedaço em pista dupla, estreita, sem que haja qualquer sinalização no esburacado asfalto. Troquei o motorista do primeiro dia por causa de ele, como os demais, não seguir por um lado dessa estradinha. Ora estava à direita ora à esquerda. Os veículos vão se cruzando. Foram três sustos, um deles grande. Colisões frontais tendem a ser fatais. E não estávamos lentos.

  Em resumo: preciso na segunda-feira ter contato com outra realidade da Índia, que sei que existe e é fascinante. Até agora conheci a de elevada exigência pessoal para encará-la. Não digo a pior por pensar dessa forma quarta-feira e hoje enfrentar algo ainda mais terrível. E penso que não cheguei ao fundo do poço, ainda.

  Abraços, amigos. O Brasil, com todos as irresponsabilidades, inconsequências, desmandos, ladroagem de cidadãos de seus três poderes, e seus imensos problemas estruturais, com saúde e educação,  notadamente, enquadra-se em outra categoria de nação. Bem acima da ocupada, hoje, pela Índia. 

 

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