Por que sentirei saudade (muita) de Schumacher

liviooricchio

10 Outubro 2006 | 13h13

Ainda falta o GP do Brasil. Infelizmente só o GP do Brasil. Com ele, assistiremos ao fim de uma era: a de Michael Schumacher na Fórmula 1. Irá demorar um tempinho para compreendermos melhor seu significado. Hoje o que nos vem à mente é a despedida do piloto de mais conquistas na história, o que por si só já é mais que suficiente para torná-lo imortal no contexto da Fórmula 1 e do esporte de modo geral.
Mas um pouco mais para a frente seu feito será melhor absorvido, o tempo tratará de limpar a lente viciada que insiste em vê-lo irreparavelmente manchado e sua obra eclodirá com maior isenção. Aí, parte dos que hoje não abrem mão de julgá-lo a partir de premissas estáticas, sem coragem de resgatar o passado de seus ídolos e ver que a acusação a Schumacher se estende em parte a eles também, irão se render a um fato inexorável: éramos felizes e não sabíamos. Desde que tenham abertura para rever conceitos arraigados e realmente apreciam esse negócio chamado corrida de automóvel, no seu mais amplo sentido.
Vencer esse preconceito permitirá desfrutar melhor do espetáculo oferecido pelo grande Schumacher em 15 anos de Fórmula 1. Não dar-se essa trégua é jogar fora a chance de deleitar-se, curiosamente, naquilo que gostam de dizer a todos que amam: o automobilismo. E um imenso desperdício. Quando daqui a alguns anos assistirmos às imagens de corridas épicas desse alemão completo em todos os requisitos de piloto, com sua capacidade de reverter causas quase impossíveis, uma certa nostalgia tomara conta de nós. Compreenderemos que ficou um espaço em aberto na Fórmula 1, ainda não preenchido.
Tenho comigo que no futuro ouviremos muitas vezes torcedores, apaixonados pela velocidade, dizerem de corridas onde, de repente, surgir um desafio raro: “Ah, essa só o alemão ganharia.” Ficará estigmatizado na história seu poder de surpreender a todos com performances supostamente impossíveis. Até podermos substituir esse “alemão” da frase por outro piloto vai demorar, não hesite em acreditar nisso. Não será de uma hora para outra que vai surgir alguém que nos remeta a Schumacher. Há nessa geração que aí está dois notáveis, Fernando Alonso e Kimi Raikkonen, mas já surgidos em outra época, são 12 anos mais jovens que o alemão da Ferrari.
Para eles a Fórmula 1 é um objetivo profissional. Para Schumacher, de vida. Esse é um fator que pode estender por muito tempo o surgimento de um piloto capaz de lembrar Schumacher: o mundo mudou. Quando os valores se definiram dentro do alemão, formando o ser humano representado no piloto, o que lhe foi apresentado é diferente do que receberam Alonso, Raikkonen e os demais talentos que despontarem na Fórmula 1. Mas essa é outra discussão.
Uma das características mais admiráveis de Schumacher é, ao mesmo tempo, a usada por seus críticos para execrá-lo: sua capacidade de reestruturar uma equipe, fazê-la crescer a seu redor e, a partir daí, conquistar títulos. Beneficia-se dessa condição? Relega os companheiros de time a serem coadjuvante do projeto? Sim, não há como negar. Mas isso tira o mérito do seu êxito? E será que esses parceiros são ou foram competentes para assumir sua posição de líder dentro do grupo? Nós sabemos a resposta.
É só observar o que aconteceu com a Benetton depois de Schumacher sair de lá. E o que era antes de ser contratado. Não imagino que a Ferrari, em 2007, perca muito de sua força, como a Benetton, que em 1995 venceu 11 provas (9 com Schumacher) e no ano seguinte, sem ele, nenhuma. Kimi Raikkonen e Felipe Massa são bem mais capazes que Gerhard Berger e Jean Alesi, a dupla da Benetton em 1996.
Na Ferrari, a trajetória de Schumacher não foi diferente. Introduziu, junto de Jean Todt, diretor-esportivo, e Ross Brawn, diretor-tecnico, o time italiano à nova realidade gerencial e tecnológica da Fórmula 1. Rompeu o modelo passional ainda dos seguidores de Enzo Ferrari e mostrou a importância da solução de continuidade. Nada de jogar tudo fora para recomeçar do zero no caso de fracasso. Pensemos num projeto de sucesso a médio prazo. Disputar o título em três ou quatro anos. E o que ocorreu? O alemão assinou com a Ferrari em 1996 e acabou campeão em 2000. Ainda que em 1997 e 1999 a equipe não tenha conquistado o campeonato de pilotos por pouco.
Trabalho. Meu nome é trabalho. Podemos defini-lo assim. Ninguém transforma a Benetton em campeã e a Ferrari numa supercampeã sem muita, muita dedicação. Schumacher renunciou praticamente sua vida pessoal nesse tempo todo de Fórmula 1 para levar adiante seus objetivos de vitória e, para isso, era preciso fazer de seus dois times estruturas vencedoras, o que na Fórmula 1 não se consegue de um ano para o outro.
Ser capaz de inserir-se diretamente na evolução do time e desprendimento máximo para dedicar-se à causa. Para começar. Agora, os seus dotes de piloto. O primeiro dos parâmetros para julgar a classe: velocidade. O maior número de pole positions de todos os tempos basta? 68. Ou quem sabe o maior número de melhores voltas em corrida, 75. Só velocidade não é suficiente para formar um campeão na Fórmula 1. Constância vale até mais. Então que tal 91 vitórias? Também só vencer GPs pode não ser por demais representativo se não conquistar títulos. Ok. Servem 7 mundiais? Para não dizer dos 1.364 pontos obtidos, as 5.097 voltas em que liderou provas.
Ora os números, os números são só os números, há quem pense. E se os confrontarmos com os de outros campeões, será que terão representativade? Poles, Senna fez 65. Melhores voltas, Prost, 41. Vitórias? Prost, 51. Títulos? Fangio, 5. Pontos? Prost, 798,5. Voltas na liderança? Senna, 2.931. É verdade, Schumacher disputou mais GPs que Senna e Prost, os segundos colocados nesses rankings citados. Na sua etapa de encerramento de carreira, Schumacher completará 250 GPs. Prost largou 199 vezes e Senna, 161.
O objetivo, aqui, não é comparar Schumacher com Senna e Prost, dois dos maiores de todos os tempos e capazes de fazer a diferença também. Mas mostrar que não foi seu comportamento escuso em ocasiões como Adelaide 1994, Jerez de la Frontera 1997 e Mônaco 2006 que podem tirar a importância de sua obra na Fórmula 1, sem deixar de abominá-los, lógico. Até porque Senna e Prost fizeram a mesma coisa: em 1989 o francês tirou o brasileiro do GP do Japão para ser campeão e no ano seguinte, no mesmo circuito de Suzuka, Senna reagiu exatamente da mesma forma com Prost para ficar com o título.
Em resumo: deixar de ir ao meio da pista, atrás dos muros, até onde a segurança permite, aos sábados pela manhã, para ver Schumacher pilotar será uma perda. Uma profunda perda. Bem como acompanhar as corridas da sala de imprensa dos autódromos. Seremos privados de espetáculos de habilidade, controle do carro no limite extremo de aderência, de como ter uma visão global da corrida única, sua capacidade de reagir da maneira mais apropriada possível para cada condição da prova e baixíssimo nível de erros para quem sempre está tão no limite de tudo. Não o esquecerei nunca. Porque amo o automobilismo também como uma forma de se fazer arte!