Quem sabe o que quer vai mais longe

liviooricchio

21 Setembro 2006 | 20h10

Ele já conquistou sete vezes o título mundial e anunciou que disputa apenas mais três GPs, China, Japão e Brasil. Depois, aos 37 anos, encerra sua trajetória de piloto, ao menos na Fórmula 1. Ao longo de 15 anos na competição, estabeleceu a mais brilhante de todas as carreiras. Seus números o colocam em primeiro em quase tudo. Mais: ganha tanto dinheiro, cerca de 65 milhões de euros por ano, que não sabe o que fazer com ele. Com tudo isso e sem nenhuma exigência por parte da sua equipe, Michael Schumacher não pára de trabalhar.
Ontem deu sequência às atividades de quarta-feira no circuito de Mugello. A Ferrari experimenta pequenas novidades no modelo 248 F1 e, ao mesmo tempo, testa os pneus Bridgestone que serão utilizados nas etapas que irão definir o campeonato. Tenho comigo que mesmo se não estivesse diante da possibilidade real de vencer o Mundial pela oitava vez, Schumacher teria treinado como tem feito. Pilotar um carro de Fórmula 1 é sua paixão. Quando vejo nos autódromos, bem de perto, suas expressões de realização, questiono-me como deverá ser difícil para esse homem deixar de lado seu fascínio pela velocidade, pela busca incansável de elevar sempre o limite da condução.
Ontem Schumacher completou 84 voltas no traçado de 5.245 metros de Mugello e outras 14 na versão curta, de 2.760 metros. Na quarta-feira, o alemão deu 57 voltas na pista maior. E hoje prosseguirá com os experimentos. Esse foco muito bem definido sobre o que deseja tem enorme responsabilidade no seu sucesso. Não permite que uma série de fatores externos, comuns num universo repleto de elevadas tensões como da Fórmula 1, interfiram no seu rendimento, no que busca para si e sua equipe.
Foram bem poucas as vezes em que vi Schumacher se deixar afetar por algo proveniente de fora das pistas. Ou mesmo de dentro do autódromo. Além de sua imensa capacidade técnica, seus dotes de velocidade, Schumacher conta com essa característica que também o diferencia da grande maioria. Coloquemos sua regularidade de performance num gráfico e a comparemos com a de seus concorrentes. Ficará mais fácil compreender a sua eficiência, o fato de ser o melhor em quase todos os parâmetros de desempenho.
Bem poucos pilotos manteriam o interesse, a gana de ainda tentar ser campeão estando já 25 pontos atrás do líder da temporada, como era o caso, este ano, de Schumacher em relação a Fernando Alonso depois do GP do Canadá. Dentro de si a idéia de abandonar a Fórmula 1 já estava tomada. Tanto que na prova seguinte, Estados Unidos, a comunicou à Ferrari. Com tudo isso a desestimulá-lo, trabalhou duro com seu time e os técnicos da Bridgestone para tentar reverter uma situação que parecia definida. E que realidade experimenta hoje: reduziu nada menos de 23 pontos dos 25 de vantagem que Alonso possuía.
Dá para ver que notícias quase sem importância como a de ontem e hoje – “Schumacher treinou em Mugello” – é que explicam, em boa parte, o que esse alemão significa para a história da Fórmula 1 e do automobilismo? Agora responda: diante dessa demonstração inequívoca de estar como nunca com a faca entre os dentes, qual dos dois pilotos que lutam pelo título se apresenta em melhor condição moral para a disputa da corrida de Xangai, dia 1.º?