Raikkonen, nas ondas de Mônaco

liviooricchio

21 Maio 2007 | 13h25

21/V/07
Já assisti a esse filme antes. Foi em 2001. Jenson Button apenas de short de banho, sobre o deck de seu iate, ancorado ao lado do paddock do circuito de Mônaco. Quem circulasse pela área das equipes o via no fim de tarde como se estivesse no Principado para se divertir.

Agora será a vez de Kimi Raikkonen. O finlandês vai estrear em Mônaco seu iate, de 80 pés, adquirido por US$ 3,4 milhões. Da mesma forma que o de Button, em 2001, estará ancorado ao lado do paddock.

Chama atenção a coincidência do momento profissional dos dois pilotos à época da etapa de Mônaco. Button, depois de uma temporada de estréia surpreendente e muito boa, pela Williams, em 2000, arrastava-se na Benetton. O limitado Giancarlo Fisichella era regularmente mais veloz nas classificações e nas corridas que o inglês.

Não vou me esquecer, talvez nunca. Flavio Briatore conversava numa roda de jornalistas, como sempre faz, e apontou para o barco de Button. Disse-nos: “Ele, agora, está mais interessado em outras coisas. A Fórmula 1 tornou-se secundária.” Briatore era o seu diretor. Em 1999, meses antes de ser o escolhido por Frank Williams, depois de um teste seletivo com Bruno Junqueira, Button comentou que teve fazer contas para poder adquir ingresso para seu pai assistir ao GP da Grã-Bretanha.


Como piloto de Fórmula 3 do Campeonato Britânico, Button tinha direito a entrar em Silverstone, mas não no paddock da Fórmula 1. Vem de família de classe média, sem recursos. Menos de dois anos depois, ancorava seu iate no porto de Mônaco, um dos mais requisitados, e caros, do mundo.
A Inglaterra carecia há muito de um piloto com dotes de velocidade na Fórmula 1. Assim, aquele menino de apenas 20 anos estrear com sucesso no Mundial atraiu o interesse de vários investidores.

O problema é, como destacou Briatore, Button se deslumbrou com tudo o que se passou em tão pouco tempo. Comprou iate, passou a frequentar ambientes que habitavam seus sonhos e, claro, numa atividade em que milésimos de segundo diferenciam o êxito do fracasso, perdeu-se por completo. Marcou 2 pontos no campeonato. “O ano de 2001 existe para ser esquecido”, diz, hoje, rindo, completamente consciente do que se passou. “Vendi, sim, vendi há tempos meu barco.”

Possuir um barco não é sinal algum de perda do que quer que seja, por favor, hein? Nelson Piquet tinha e ainda tem um iate, com heliponto, e nem por isso sua performance deixou de ser brilhante. Ao contrário, por aumentar o grau de satisfação pessoal, acaba por corroborar em qualquer atividade. A questão é outra. Toda a simbologia que o barco passou a representar para Button.

Mas enquanto o inglês era rebocado para fora do porto de Mônaco, outro iate começava a ser contruído nos estaleiros. Este ano outro piloto de Fórmula 1 o adquiriu, Kimi Raikkonen. E a partir de amanhã seus amigos e colegas da Fórmula 1 o conhecerão, no porto de Mônaco.

O finlandês, aos 27 anos, está num estágio de bem maior de maturidade pessoal e profissional que Button na época, apesar da origem bastante simples da família, como o inglês atualmente na Honda, o que apenas os enaltece. Mas o curioso é que Kimi também não vive seu melhor momento na Fórmula 1.

Não me parece exagero afirmar que, pelo contrário, desde sua estréia, em 2001, pela primeira vez Kimi não corresponde ao que se espera dele. Em treinos e corrida tem sido mais lento que Felipe Massa.

E, como Button em 2001, já é alvo de críticas da imprensa, em especial a italiana. A finlandesa ainda não. Apenas questiona sua queda de rendimento, como conta meu amigo Heikki Kulta, jornalista finlandês.
Assim como Lewis Hamilton tem nas ruas do Principado sua maior chance de conquistar uma vitória até agora, pelo seu retrospecto na pista, venceu lá na Fórmula 3 e na GP2, e o resultado dos treinos semana passada em Paul Ricard, o mesmo se pode dizer de Kimi.

As suas dificuldades com o modelo F2007 da Ferrari tendem a se manifestar menos em Mônaco, como ele próprio reconheceu na Espanha, embora eu questione sua projeção. Assim, das cinco primeiras provas do calendário, a do Principado parece ser a que reúne melhores possibilidades para ambos.

Raikkonen até já sabe como ganhar em Mônaco. Em 2005. com McLaren, venceu depois de largar na pole position. Agora, o que não pode acontecer é o que ocorreu em 2004. Kimi alugou um barco, o ancorou no porto e dispensou o hotel reservado pela McLaren. Não tinha experiência com barcos, segundo contou depois. Já na quinta-feira, primeiro dia de treinos, teve de ser atendido pelo médico da Fórmula 1 por causa de enjôo.

Cometeu vários erros na pista. No sábado foi a mesma coisa. Resultado: a McLaren teve de remanejar seus integrantes no hotel para dispor um apartamento para seu piloto. A história chegou à imprensa através do próprio Kimi. Quieto, sem dúvida, mas sempre sincero.

A direção da Ferrari conhece esse episódio, lógico, se nós jornalistas sabemos. Mas é possível que o escandinavo já esteja mais habituado com as coisas do mar para honrar as tradições do povo que lhe deu origem. E melhorar sua condição na Ferrari!

Nos falamos de Mônaco, agora, amigos!