Schumacher admite ter agido de propósito

liviooricchio

20 Outubro 2006 | 00h20

Foi uma entrevista histórica. Não só por ser a última coletiva de Michael Schumacher, como piloto e fora do autódromo, ou pela brincadeira com a “tartaruga Rubens” que lhe fizeram, mas pelo fato de o piloto da Ferrari ter assumido pela primeira vez que em 1994 e 1997 agiu deliberadamente contra seus adversários na luta pelo título: “Há coisas na vida que se pudéssemos voltar atrás faríamos diferente”, afirmou em relação a ter provocado o acidente com Damon Hill, em 1994, para ser campeão e ter tentado a mesma manobra, sem sucesso, em 1997, com Jacques Villeneuve.

No fim da carreira o piloto alemão parece rever seu passado e condenar comportamentos que lhe valem, até hoje, a fama de mau perdedor e até mau caráter. Sobre a disputa do campeonato este ano, que pode lhe dar o oitavo título na carreira, Schumacher reafirmou, ontem, o que dissera no Japão: “O Mundial de Pilotos está acabado. Não tenho esperança alguma. Não desejo que meu adversário tenha de se retirar para eu vencer.” Não quis dizer com isso, como salientou, estar desestimulado: “Pelo contrário. Viemos aqui para fazer 1.º e 2.º. Temos como objetivo o título de construtores.”

Para ser campeão Schumacher necessita ganhar o GP do Brasil e torcer para Fernando Alonso, da Renault, não fazer ponto algum. Está 126 a 116. E no Mundial de Construtores a Ferrari terá de reverter uma vantagem de 9 pontos da Renault, 195 a 186. “Por enquanto estou completamente relaxado, não pensei muito no que irá acontecer. Mas sei também que às vezes as coisas mudam”, disse, rindo. As tensões da prova talvez passe a senti-las mais hoje, quando começam os treinos livres.

Schumacher lembrou que em cerca de metade da sua vida na Fórmula 1 seus companheiros de equipe foram brasileiros: Rubens Barrichello, de 2000 a 2005 e nesta temporada Felipe Massa. “São personalidades diferentes, tive bons momentos com Rubens, mas com Massa a colaboração é ótima, gostamos de estar, correr juntos.”


A decisão de parar de correr foi tomada sabendo exatamente o que fazia. “Não vejo nenhuma razão para revê-la.” Pela primeira vez também citou um motivo não mencionado ainda: “Se continuaria sendo veloz não posso enxergar, mas não sei se teria a energia necessária para manter-me no mesmo nível de competitividade.” O que fará da vida depois da corrida de Interlagos ainda não lhe passou pela cabeça. “Não penso nisso, o que posso dizer é que a vida oferece muitas oportunidades.”

A Ferrari existia antes de ele existir e sobreviverá sem ele, diz em resposta ao que ocorrerá com sua saída do time italiano. “Se com o mesmo sucesso, não sei.” Um título, em especial, é o que mais lhe toca a alma: “O de 2000, o primeiro na Ferrari, depois de eles não vencerem há mais de 20 anos.”