Schumacher x Alonso: agora vale o título mundial

liviooricchio

06 Outubro 2006 | 22h30

Parece o clássico capítulo final de uma novela: ontem Fernando Alonso, da Renault, disse ter feito as pazes com sua equipe, a Renault, a quem acusou de tê-lo abandonado em algumas ocasiões, e o diretor-técnico da Ferrari, time de Michael Schumacher, o inglês Ross Brawn, sugeriu que na disputa final o “fair play” vença. Curiosamente Schumacher nem sempre o praticou. É nesse clima de suposto desprendimento recíproco que Alonso e Schumacher se apresentam para o GP do Japão, prova que pode dar ao alemão seu oitavo título mundial. A largada será às 2 horas deste domingo, horário de Brasília, 14 horas de Suzuka.
Não é o mais esperado, afinal Schumacher precisa vencer a prova e Alonso não marcar pontos para definir a conquista, mas a verdade é que, apesar de pouco provável, os japoneses poderão assistir à nova decisão de campeonato, a 11.ª da sua história, na edição de 20 anos da Fórmula 1 em Suzuka e que marca sua despedida do calendário. E torcida não irá faltar. Não há mais ingressos para o GP do Japão. São esperadas 120 mil pessoas no autódromo amanhã. Os sempre comedidos japoneses parecem que se permitem, nos dias de Fórmula 1 no país, uma trégua a si próprios: talvez seja o povo que mais expressa seu carinho e devoção, das mais distintas formas, aos pilotos, em contraste com sua cultura.
Os céus decidiram retribuir tamanha espontaneidade de emoções com os dois candidatos ao título: mesmo com a população sendo budista ou shintoísta, São Pedro, um santo católico, providenciou que as chuvas parassem desde ontem à noite. Festa sem chuva oferece maior diversão e é menos perigoso. A previsão do tempo indica que as 56 voltas da 17.º e penúltima etapa da temporada serão disputadas com pista seca. Alonso ainda torce por uma corrida com asfalto molhado. Nessas condições, os pneus Michelin da Renault têm-se mostrado mais eficientes que os Bridgestone da Ferrari.
A afinidade do circuito da Honda por decisões de campeonato é mesmo notável. Se Schumacher for campeão amanhã em Suzuka, será a 11.ª vez, em apenas 20 anos, que um dos traçados mais seletivos e espetaculares da Fórmula 1, com 5.807 metros, apontará o campeão. Tudo começou já na estréia de Suzuka no Mundial, em 1987. Nelson Piquet, com Williams, conquistou seu terceiro título lá. Depois, em 1988, foi a vez de Ayrton Senna, McLaren. Alain Prost, companheiro de Senna, no ano seguinte, para o brasileiro da McLaren levar nas duas próximas temporadas, 1990 e 1991. Também foram campeões do mundo em Suzuka: Damon Hill, Williams, em 1996, Mika Hakkinen, McLaren, 1998 e 1999, e Schumacher, 2000 e 2003.
“É…recebi dados que me impressionaram. Ao mesmo tempo me estimulam ainda mais”, disse ontem Schumacher, em entrevista à TV alemã, ao saber que cerca de 20 milhões de telespectadores na Alemanha deverão acordar mais cedo para assistir ao GP do Japão (a largada será às 7 horas no horário de seu país). Será a penúltima apresentação de Schumacher na Fórmula 1.
Mesmo em situação um pouco menos favorável quanto às suas possibilidades, por ter uma vitória a menos do alemão, 7 a 6, apesar da igualdade de pontos, 116, Alonso não irá gerar menos interesse nos espanhóis. Ele quebrou todos os recordes de audiência por um evento de esportes na nação, cujo pico se deu no GP do Brasil do ano passado, transmitido ao vivo em horário nobre da TV espanhola, domingo à noite. Quase a metade dos cidadãos da Espanha assistiu e vibrou com a conquista de seu primeiro título.
E agora poderá repeti-lo. Não hoje, mesmo que vença e Schumacher não faça pontos, mas em Interlagos, de novo, dia 22. Seu companheiro de Renault, Giancarlo Fisichella, já está escalado para, dentro do possível, auxiliá-lo, como tanto deseja o asturiano, a exemplo de Felipe Massa com relação a Schumacher. É outra atração do GP do Japão. Em Suzuka ou São Paulo, não importa onde e quem será o campeão, a Fórmula 1 poucas vezes viu tanto interesse pelo seu espetáculo.