ENTREVISTA: Davi Rossetto, armador do Basquete Cearense
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ENTREVISTA: Davi Rossetto, armador do Basquete Cearense

Campeão e eleito MVP da final da Liga de Desenvolvimento, jogador de 22 anos espera que título possa mudar panorama da equipe no NBB e expõe sua maneira de pensar com um veterano

Marcius Azevedo

12 Março 2015 | 10h00

O Basquete Cearense foi campeão invicto da Liga de Desenvolvimento. Foram 28 vitórias, incluindo o triunfo contra o Flamengo na final do torneio, na última terça-feira. A inédita conquista promete ser um divisor de águas para o time, que perdeu o patrocinador da equipe adulta no começo deste ano.

Quem aposta é o armador Davi Rossetto, eleito o MVP ( jogador mais valioso) da decisão e que é também um dos destaques do time que disputa o NBB. Com posições firmes, o jogador espera que o título posso abrir os olhos de investidores. “Temos de enxergar o basquete como um ele é, um produto rentável”, afirma.

Determinado, o jovem de 22 anos expõe suas ideias como um veterano. Um dia depois de ser campeão, Davi Rossetto concedeu entrevista exclusiva ao blog. Confira o que pensa o armador do Basquete Cearense dentro e fora de quadra.

Já deu para dimensionar o tamanho da conquista do Basquete Cearense?
Ainda estamos assimilando. Aos poucos estamos vendo que fizemos algo grande, que estamos sendo reconhecidos em um lugar que era inóspito para o basquete. Antes o pessoal perguntava se era basquete, vôlei… Agora você vê o ginásio lotado como foi na final. Inclusive peguei um táxi depois do jogo e o taxista me reconheceu. Coisas assim que não tínhamos dimensão. Estou extremamente feliz, não apenas pelo que acontece para mim, na minha carreira, mas por saber que o projeto está crescendo tanto, que vem atingindo os objetivos em pouco tempo. São 2 anos e meio. Não que o projeto tenha sido feito às pressas, mas foi dentro do prazo que dava. Aí você consegue conquistar um título invicto, com um grupo de jogadores que estava desacreditado e que jogaram o que jogaram na final. Estou muito feliz mesmo pelo time.

Davi Rossetto com o prêmio de MVP da final da Liga de Desenvolvimento (Luiz Pires/LNB)

Davi Rossetto com o prêmio de MVP da final da Liga de Desenvolvimento (Luiz Pires/LNB)

O título pode ajudar na obtenção de um novo patrocinador para o time adulto, algo que o Basquete Cearense perdeu no começo do ano, e dificultou bastante para vocês?
Sem dúvida. O esporte no Brasil, de uma maneira geral, vive de resultado. Temos alguns entusiastas, sonhadores, que, mesmo sem certeza de retorno, investem. A grande maioria, claro, investe onde realmente pode ter resultado. Não apenas o esportivo, mas o da relação da torcida com o time. Nós provamos que é possível fazer isso em um lugar sem tanta tradição. O título era uma coisa que pretendíamos e agora que venham esses apoiadores, esses novos patrocinadores não só para o Ceará. Espero que possamos ter um investidor em Recife vendo isso e decida montar uma equipe. Sentimos também falta de um polo forte de basquete na região Sul. A nossa conquista pode ajudar na massificação do esporte não apenas aqui, mas no Brasil inteiro.

Outras equipes também sofrem com problemas financeiros. Recentemente tivemos o caso de Franca, que ameaçou abandonar o NBB. Por outro lado, é inegável o crescimento do basquete nos últimos anos, depois da criação da Liga Nacional de Basquete…
A gente entende que não vivemos uma situação das melhores no Brasil. Lidar com dinheiro está muito difícil atualmente. São poucos que têm o basquete como uma visão de produto. Entendemos que seja mais difícil encontrar patrocinadores. A liga vem na contramão de tudo isso. Não apenas desenvolvendo talentos. Quem pôde acompanhar um pouco do “Jogo das Estrelas”, quem acompanha aos jogos da liga nacional, vê que o basquete está se desenvolvendo muito como produto. A pessoa que tiver esta visão vai direcionar bem o dinheiro porque tem muito gente engajada, muita gente que ama o esporte, realmente fazendo muito esforço para que tudo isso cresça. A questão do basquete como produto precisa ser enxergada de outra maneira. Não pode ser visto como segundo, terceiro esporte do país e sim como algo rentável. A liga conta com um bando de apaixonados, loucos para fazer isso dar certo e que está dando resultado, basta ver o acordo com a NBA. Tem tudo para atrair mais investidores. É inaceitável você ver uma cidade como Franca, que respira basquete, ficar ameaçada de ficar fora de um campeonato por falta de dinheiro. O esforço não pode ser só do patrocinador, das equipes, mas também dos jogadores. Temos que quer fazer isso crescer, não podemos nos acomodar, pensar que estou ganhando o meu e está tudo certo. Temos que fazer o basquete crescer ainda mais.

Neste aspecto, a criação da Associação de Atletas Profissionais de Basquetebol do Brasil (AAPB) foi fundamental?
São alguns visionários, no caso do Guilherme (Giovanonni) e outros que estão nesta turma de frente, procurando organizar um pouco mais. A gente está no caminho certo. Eu acredito realmente que o atleta precisa se mobilizar, não apenas para si, mas para dar frutos para quem vem atrás. O que o Guilherme fez é fantástico. Sem remuneração, um jogador com uma carreira renomada, um atleta olímpico, que não precisa provar mais nada para ninguém, dar a cara para bater para defender 500, 600 jogadores que estão por atrás dele. A mobilização só existe por causa do Guilherme.

Davi Rossetto ao lado do técnico Espiga; elogios ao comandante (Delima/Etex)

Davi Rossetto ao lado do técnico Espiga; elogios ao comandante (Delima/Etex)

Voltando ao título, qual foi o segredo da equipe? Ninguém fica 28 jogos invicto por acaso…
A equipe foi formada há dois anos atrás e passamos por todas as situações que o esporte coletivo proporciona. A gente teve muitos altos e baixos na primeira temporada, passamos por uma situação de fracasso enorme na fase final na última temporada e evoluímos muito. A equipe foi confrontada com uma situação de estar perdendo de 20 pontos e virar, de estar ganhando de 20 e quase perder… Apesar de terem sido 28 jogos de invencibilidade sentimos na pele que não éramos imbatíveis em muitas partidas. A gente se fortaleceu com isso, o amadurecimento dos jogadores foi enorme. A seriedade e o comprometimento dos jogadores, apesar da pouca idade de todos, fez com que cada um entendesse perfeitamente o espaço dentro da equipe e respeitasse o espaço do outro. E esse é o grande barato de uma equipe em um esporte coletivo. Respeito mútuo, altruísmo e trabalho. Isso nunca faltou para o nosso time e foram os ingredientes para darmos o máximo em cada jogo, para nos adaptarmos às situações que apareciam e fomos conquistando, passo a passo, essas 28 vitórias e esse título.

O comportamento defensivo foi fundamental para esta conquista. Gostaria que comentasse este aspecto, até porque ninguém ganha nada no basquete sem uma defesa forte…
Quando eu disse que sabíamos reconhecer o espaço do outro e aproveitar o que o outro tinha de melhor era principalmente na defesa. Nós sabíamos das nossas limitações no ataque, sabíamos que outras equipes tinham defesas muito fortes. O nosso time se dedicava muito na parte física, são atletas com um excelente biótipo… O assunto em todas as nossas preleções era defender e então fazer algo mais limpo no ataque, com mais tranquilidade. A gente incorporou este pensamento e é que ficou mais fácil, mas os resultados vieram muito em função disso.

O Alberto Bial, quando visitou o Estadão, disse que o Espiga, seu auxiliar, seria um dos melhores técnicos do Brasil. Qual o peso dele nesta conquista?
Cara, o Espiga é mais um louco amante do basquete e, além disso, um estudioso, muito perfeccionista, muito detalhista. Não foi um caso específico, tivemos casos em que o (Alberto) Bial não pôde comandar o time adulto, que ele teve o feeling para extrair de cada atleta, da equipe, sempre o melhor. Ele teve dois anos e pouco para trabalhar com o nosso time e ele tinha total controle sobre o grupo. Ele sabia o que era melhor do que nós mesmos em qualquer situação. Aquilo passou uma credibilidade enorme para gente. O que o Espiga falava era verdade absoluta. Ele soube explorar a individualidade de cada em prol da parte coletiva. Isso é muito difícil. Em um grupo com 15, 16 jogadores, eu nunca ouvi ninguém dizer que estava insatisfeito, de que a minutagem estava baixa, de que estava sendo injustiçado, coisas que inevitavelmente acontecem em uma equipe. Ele também soube estudar muito os adversários, sabia como todos eles jogavam, foi realmente um mestre neste tabuleiro de xadrez que é o basquete. Com toda estas ferramentas ficou fácil, porque era só chegar na quadra e executar o que ele pedia e deu resultado.

Como aproveitar esta conquista para ir bem no NBB?
Primeiro é colocar o pé no chão. Ainda está tudo mundo aéreo, nas nuvens… Temos de entender que foi apenas um passo. Vamos ter tempo para comemorar, mas não será agora. Sexta-feira já temos desafio contra um rival direto, que é o Brasília. Temos de tentar aproveitar esta autoconfiança que foi adquirida, o ritmo de jogo, mas é hora de virar a chavinha. Agora os objetivos são outros, talvez até maiores, e temos de usar o que tivemos de bom nesta conquista em prol de outra coisa. A gente sabe que há uma diferença enorme entre um campeonato Sub-22 e o principal e temos que tentar ajudar da melhor forma. Não podemos nos contentar em ter uma equipe campeã no Sub-22 e outra só para participar no NBB. Temos de ir um degrau por vez, mas sempre mirando lá em cima. O passo agora é classificar (para os playoffs) no NBB. Seria ótimo terminar uma temporada com o título da Liga Desenvolvimento e nos playoffs do NBB.

Davi Rossetto sobe para anotar mais dois pontos para o Basquete Cearense (João Pires/LNB)

Davi Rossetto sobe para anotar mais dois pontos para o Basquete Cearense (João Pires/LNB)

Antes desta conquista, você viveu um momento de transição na carreira. Saiu do Pinheiros, que é considerada uma vitrine, para ir jogar no até então desconhecido Basquete Cearense. Se arrepende?
Cada caso é um caso. Hoje se diz que o Pinheiros é uma vitrine por ter um trabalho excepcional na base, com profissionais muito qualificados, por realmente preparar o jogador. Eu fiquei muito feliz quando o (Bruno) Caboclo foi jogar na NBA, este conceito de vitrine, só que a minha realidade era outra. A minha realidade não era usar o Pinheiros como vitrine para entrar na NBA. Eu precisava de minutos (em quadra) para me firmar como atleta profissional no nível do basquete nacional. Eu sabia que o meu nível não era NBA, eu tinha os meus pés no chão… E também tive uma dimensão, depois de uma temporada, que não era no Pinheiros que eu iria alavancar a minha carreira. Neste momento, eu recebi uma proposta do Basquete Cearense. Eu pensei em ir para um time teoricamente mais fraco, com um técnico que queria me dar oportunidade e com chance de mostrar o meu talento. Foi com esta mentalidade que eu vim pra cá. Mas isso mudou completamente depois de alguns meses. Eu percebi que o projeto era muito maior do que eu me desenvolver e consegui me firmar de uma outra maneira. Não foi apenas conseguindo mais minutos, não foi usando o Basquete Cearense como vitrine, mas foi realmente vivendo este projeto, entendendo o meu papel dentro dele e, aos poucos, fui ganhando protagonismo de uma maneira involuntária. As coisas que eu fazia eram reconhecidas pelo Bial, pelo Espiga… O Basquete Cearense não mudou apenas a minha carreira, mas também a minha mentalidade, a minha maneira de enxergar as coisas. Fico muito feliz pelos meninos do Pinheiros que hoje tem oportunidade, mas acredito que muitos deles, por mais potencial que tenham, não tem tanta oportunidade no time adulto. Eu vi esta oportunidade e o Basquete Cearense é um divisor de águas para mim. Nunca me arrependi e posso garantir que nunca vou me arrepender de vir para cá. Foi meio que na contramão, mas foi o melhor para mim na época e continua sendo o melhor até hoje.

Você costuma traças metas, como por exemplo jogar na Europa, na NBA?
Eu traços muitas, mas aprendi que elas precisam ser de curto prazo. Quando eu traçava metas de longo prazo isso se tornava meio frustrante porque estava muito longe de alcançar, não era uma coisa palpável, eram muitas variáveis que influenciavam para eu chegar ou não nesta conquista… Por exemplo, quando vim pra cá, eu queria jogar, depois disso render, depois me consolidar. A minha última meta era muito clara, ser campeão da Liga de Desenvolvimento, agora é ir para o playoffs do NBB. Quando você traça estas metas, mesmo que elas não sejam fáceis, são mais fáceis do que eu botar hoje a NBA como meta. O passo a passo fica mais palpável, eu consigo me planejar melhor e as coisas vão vindo com naturalidade. Eu acredito que se eu continuar me consolidando vou ser lembrando para uma seleção brasileira, vou ter uma carreira vitoriosa. Hoje você vê alguns jogadores com carreiras consolidadas, que mesmo não sendo tão jovens, chamam a atenção de grandes centros. A gente vê jogador com 25, 26 anos indo jogar na Europa. A gente teve o (Pablo) Prigioni recentemente que, depois de uma carreira consolidada na Europa, foi assediado por times da NBA. Talvez se o Prigioni, com 18 anos, tivesse colocado na cabeça jogar na NBA ele poderia ter se frustrado. Ele fez a carreira dele aos poucos e, aos 35, realizou o sonho de jogar na NBA. Por isso, eu penso em pequenas metas, de curto prazo, que podem atingir o meu sonho de criança.

Davi Rossetto se diz um aficionado por treinamento (João Pires/LNB)

Davi Rossetto se diz um aficionado por treinamento (João Pires/LNB)

O que você faz para melhorar o seu jogo?
Sou um cara aficionado por treinamento. Eu sinto prazer em estar na quadra, na academia, em trabalhar, em desenvolver tudo o que eu considero que preciso melhorar. Sou um cara muito autocrítico, dificilmente vou estar satisfeito com algo que eu faço, sempre me questiono muito, sempre procuro aprender muito e praticar. Também me preocupo muito com o que faço fora de quadra. O atleta tem um papel de exemplo. É uma pessoa que trabalha com o corpo, que é uma figura pública, então tem de servir de exemplo para uma criança, ele não pode ser mais um adulto perdido, com pensamento pequeno, materialista, egoísta… Eu procuro antes de tudo ser uma pessoa correta, trabalhar pelo bem e fazendo essas coisas certas no dia a dia, com certeza, isso será transferido para dentro da quadra. Eu tive uma excelente criação de pais, avós, professores na escola. Sempre procurei ter uma boa formação de caráter. Eu não conheço nenhum atleta que desenvolveu o seu máximo sem ter um excelente caráter, que seja uma pessoa do bem. Eu trabalho nestas duas frentes. O que faço dentro de quadra é muito importante, mas o que faço fora também tem importância e influencia muito no seu rendimento.

É fácil notar que você tem uma cabeça muito boa. Isso passou também pela formação no basquete?
Começou em casa. Tenho o privilégio de ter pais que saíram do nada e que sempre procuraram conhecimento, sempre me apresentaram este caminho como o correto, mas também tive sorte de ter tido pessoas muito esclarecidas na minha vida, pessoas que me ensinaram a ver o mundo de maneira mais ampla, não só olhar para o meu umbigo, tentar entender tudo de uma maneira mais global, abrir a minha mente. A pessoa que enxerga tudo muito fechado não faz um bom juízo nem dela mesma nem dos outros. Aprendi isso desde cedo, de ter uma menta mais aberta, de procurar conhecimento, de gostar de aprender as coisas… Gosto de bater papo com pessoas mais inteligentes do que eu. São essas pessoas que eu admiro, não aquelas que são extremamente famosos, bem-sucedidas e sim aqueles que, mesmo com muita dificuldade e sem muita perspectiva, conseguiram atingir coisas grandes. Sou um aficionado por aprender. Tenho 22 anos, tenho uma visão de mundo, mas não desconsidero que daqui um ano, eu tenha uma visão completamente diferente. A pessoa que está sempre aberta a apreender tem dessas coisas. Eu espero aprender um pouquinho a cada dia e passando um pouco de conhecimento, um pouco das minhas experiências para aqueles que sentirem vontade de ouvir.