Patrocinador do campeão Bauru pede mudanças no basquete
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Patrocinador do campeão Bauru pede mudanças no basquete

Responsável por montar o time que conquistou Paulista, Liga Sul-Americana e Liga das Américas critica LNB e CBB

Marcius Azevedo

20 Março 2015 | 10h09

Ricardo Fischer, Alex Garcia, Rafael Hettsheimeir, Murilo, Robert Day, Larry Taylor, Gui Deodato, Jefferson Willian… Os nomes do elenco do Bauru são conhecidos. O trabalho do técnico Guerrinha também dispensa comentários. Mas há um personagem oculto na história de sucesso da equipe que faturou Paulista, Liga Sul-Americana e Liga das Américas nesta temporada, lidera o NBB com boas chances de conquistá-lo e que ainda vai brigar pelo título mundial.

Trata-se de Rodrigo Paschoalotto, presidente da Paschoalotto Serviços Financeiros. O empresário assumiu como patrocinador principal da equipe há três anos e foi responsável pela profissionalização do basquete em Bauru. Os títulos não foram conquistados por acaso. Foram consequência de muito trabalho e, claro, investimento financeiro.

Ainda sob os efeitos da conquista da Liga das Américas, no último domingo, no Maracanãzinho, Rodrigo concedeu entrevista ao blog por telefone.

Apesar de patrocinador o time mais vitorioso atualmente no Brasil, o empresário defende mudanças na Liga Nacional de Basquete, que organizada o NBB, e principalmente na gestão da Confederação Brasileira de Futebol, direcionando duras críticas. Ele também confia que Bauru, pela maneira como que foi idealizado e executado o projeto, pode se manter no topo pelos próximos anos.

Já deu para dimensionar o peso desta conquista da Liga das Américas?
A ficha ainda está caindo, mas é um trabalho de três anos. Fomos semeando, semeando… Estamos fazendo muita obra, como gosto de dizer, que prefeito não gosta de fazer, porque é debaixo da terra e ninguém vê. Investimos muito nas categorias de base, na infraestrutura do time. Hoje o Bauru conta com nutricionista, psicólogo, assistente social, algo que não existia anteriormente. Você pegava o pessoal da categoria de base, por exemplo, e cada um tomava o suplemento que queria, comia o que queria… Acho que o legado que podemos deixar, até bem maior do que esses títulos, é ter aqui algo que acontece mais ou menos em Franca. Independentemente de crise financeira, queremos que o basquete fique na cidade por dez, 20, 30 anos…

Rodrigo Paschoalotto com o troféu da Liga das Américas (Arquivo Pessoal)

Rodrigo Paschoalotto com o troféu da Liga das Américas (Arquivo Pessoal)

Como é administrar um projeto tão importante em um esporte que tem sofrido tanto nos últimos anos?
Melhorou um pouco de uns três anos pra cá quando entramos. Mas ainda faltam algumas coisas. Por exemplo: quem põe dinheiro hoje no basquete? São os patrocinadores. A Liga (Nacional de Basquete) não escuta os patrocinadores. Eu converso muito com o Lula (Ferreira, técnico de Franca), com quem eu tenho amizade, e ele diz que é necessário ter uma comissão de patrocinadores com voz ativa na liga. O basquete é um produto comercial, que precisa ter um retorno e o maior interessado nisso é quem está investindo. Não adianta o pessoal da liga não ouvir todos os lados. Falta amadurecer neste aspecto. Eu estou sempre nos Estados Unidos, tenho casa lá, acompanho bastante a NBA e vou te dar um exemplo. Aquelas camisa de mangas são ruins para os jogadores, mas os times tiveram de usar porque os patrocinadores de material esportivo fizeram um estudo em que iriam lucrar bilhões de dólares. Falta um pouco desse tino comercial na liga. Falta um gerente comercial, um profissional para ir nas principais cidades, nas capitais para oferecer o basquete. Ir lá em Recife, oferecer para o prefeito um projeto de dois anos, com uma comissão técnica barata, com jogadores que estão sem mercado… O que pode dar errado? A comunidade não abraçar, mas tem grande chance de dar certo e deslanchar.

NOTA DO BLOG: Rodrigo Paschoalotto informou posteriormente ao blog que recebeu informação de que a LNB havia contratado um gerente comercial e fez questão de parabenizá-los por isso.

Neste aspecto, o acordo com a NBA foi um passo importante?
A NBA não entra para perder dinheiro. Ela sabe o enorme mercado que tem aqui no Brasil e que, para crescer, tem de ajudar no crescimento da liga nacional, não pode matá-la. Neste cenário, na minha opinião, o apoio da Globo é maléfico. Ela que acaba decidindo horários, etc. A NBA, lá nos Estados Unidos, não passa em apenas um canal. Precisamos mudar algumas coisas. Acredito que teremos frutos, só que tem de subir degrau por degrau.

A parceria com a NBA não é também uma maneira de conseguir esta independência da Globo?
Faz parte, com certeza. Eu acho ridículo os veículos da Globo não falarem o nome do patrocinador. Se você pegar o contrato da Associação Bauru Basquete, nós mudamos o nome do time para Paschoalotto Bauru Basquete. Que mal tem a Globo falar Paschoalotto Bauru Basquete? Nenhum. O nosso retorno, por exemplo, não vem disso. A gente atua em recuperação de crédito no mercado financeiro. Nenhum banqueiro vai me passar mais trabalho porque está vendo o meu nome na camisa do time. O meu principal objetivo com o time de basquete era diminuir a minha rejeição na cidade. Eu demando de muita mão-de-obra, tenho mais de 8 mil funcionários em uma cidade relativamente pequena. Como o basquete é o maior esporte da cidade, pensando em montar uma equipe forte, ser campeão, que todos vão gostar do nome Paschoalotto e vamos ter mais pessoas com vontade de vir trabalhar aqui. Foi isso o que aconteceu. Antes disso você ouvia algumas críticas que hoje já não existem tanto. O que precisa mudar é a forma de mensuração que os times fazem em relação ao patrocínio. Há muito mais situações envolvidas do que apenas a exposição da minha marca na tevê.

O que, por exemplo?
Uma das minhas preocupações é que ter continuidade. Quando entramos nós reformulamos todos os contratos dos jogadores, reformulamos o contrato da Associação Bauru Basquete, que era muito primário. Hoje, por exemplo, apesar de ter um presidente da associação, criamos um comitê gestor para tomar decisões. Isso não foi feito para tirar o poder de A ou de B, mas sim para descentralizar, para termos mais pessoas pensando e, com isso, minimizar os erros. Quando entramos aqui, para você ter uma ideia, o Guerrinha não tinha contrato assinado, era só de palavra. Não estou desconfiando do Guerrinha, mas e se todos nós morremos? Entra outra pessoa e dispensa o Guerrinha porque não tem contrato. Era necessário se profissionalizar. Antes, se um jogador da base do Bauru fosse draftado (pela NBA), o clube não recebia nada, foi o que aconteceu com o Leandrinho. Mais do que isso, ele ainda acionou o Bauru na Justiça para receber algumas coisas. O que fizemos foi criar uma estrutura parruda e adotarmos contratos longos. Não criamos nada novo, estamos copiando o que é feito na NBA e em alguns países da Europa, em especial na Espanha. Eu pensava que era impossível o jogador ficar 100% concentrado no momento de decidir sem saber se o contrato seria renovado. O lado pessoal pesa. Quando não estou bem em casa não rendo no meu trabalho. É inevitável não pensar se vai ter time no próximo ano? Onde os filhos vão estudar? Onde vou morar? O que fizemos é ter um planejamento previsível e não imprevisível. Temos vários jogadores com contrato de quatro anos. O Ricardo Fischer, quando trouxemos do São José, veio com um contrato de dois anos e depois fiz mais três. Depois do final do Paulista, eu chamei e esticamos por mais quatro. Tenho certeza que, mesmo se aparecer uma proposta maior aqui no Brasil, ele não vai porque está muito feliz. No contrato por exemplo, existe multa de R$ 2,5 milhões apenas para clubes no Brasil, porque ele tem o desejo de jogar na NBA, na Europa. Se for para fora e quiser voltar, ele tem de voltar para Bauru ou pagar multa. O Jefferson, que se machucou, me disse que nunca fui tão bem tratado em outros clubes quanto está sendo aqui. No geral, o basquete tem evoluído nos últimos anos. Temos de tentar aproveitar os Jogos Olímpicos do Rio. Pena que a CBB é uma comédia. O Rubén Magnano (técnico da seleção masculina) não foi ao Jogo das Estrelas em Franca. Isso é o fim do mundo para mim. A minha opinião é que o ciclo do Magnano se encerrou. É uma ótima pessoa, um excelente técnico, não duvido disso, mas tem de mudar. A CBB é uma caixa-preta, ninguém sabe o que acontece com o dinheiro. Existe verba, mas ela precisa ser utilizada de maneira correta. Não estou falando que quem está lá é desonesto. São honestos. Mas a forma de se utilizar o pouco recurso que tem é que está errado. É igual quando você só tem uma bala no revólver. Você não pode errar o tiro. Quando você errar o tiro, com pouco dinheiro, complica. Precisa ter uma reformulação, descentralizar. A exemplo do que fizemos aqui, a CBB precisa ter um comitê gestor, não há necessidade de um presidente. Todas as partes precisam estar envolvidas, jogadores, treinadores, imprensa, patrocinadores… Tem de ouvir o que cada um precisa, o que cada um pensa para fazer um mix e montar um produto bom.

Como fazer esta ruptura?
Acho que o caminho é conversar. O duro é que o pessoal mais antigo que está lá não quer largar a teta da vaca, está ganhando o dele e quer que se exploda o basquete. A liga hoje está muito bem estruturada, então uma maneira de romper é não permitir mais que os jogadores atuem pela seleção. Todo mundo que for convocado pede dispensa. Claro que para os jogadores não serem culpados temos de esclarecer na opinião pública, explicar o que está acontecendo, o que queremos, como descentralizar o poder, mais transparência… Talvez não seja o melhor caminho, o melhor é conversar, mas, caso não for possível resolver, acho que algo deste tipo precisa ser feito para fazer a CBB repensar. Vamos pegar Alemanha e Espanha, que foram as últimas campeãs do mundo no futebol. Qual o sistema de trabalho? Clubes fortes, seleção forte… A formação do jogador é dentro dos clubes. Você pode montar CT para a seleção (será concluído em Pindamonhangaba até 2017), outras coisas, mas se os clubes estiverem quebrados não teremos jogadores. Não é apenas uma questão técnica, há alimentação, uma formação psicológica, toda uma infraestrutura. Temos de mudar a nossa cultura. A CBB perdeu isso em algum momento. Eu, por exemplo, sou patrocinador de Bauru, torcedor de Bauru e estou ajudando a tentar conseguir um patrocínio para Franca. As pessoas falam que eu estou louco, ajudando o principal rival, mas estou pensando no basquete.

Neste cenário, os jogadores, que são os responsáveis pelo show, teriam de tomar uma posição firme?
Não só os jogadores. Todos os envolvidos. Se não tivermos uma união, todos pensando em prol do basquete, não vai funcionar. O Brasil precisa repensar alguns pontos. O futebol brasileiro vive em crise porque falta credibilidade. Quem vai patrocinar um time que sabem que não tem uma administração correta? Ninguém. Para ter patrocínio em qualquer esporte precisa ter credibilidade. Eu acho que a CBB conseguiria muitos patrocínios facilmente. Só que é necessário passar credibilidade. E não estou falando de resultado. Estou falando de montar uma estrutura perene para subir degrau por degrau ao passar dos anos para deixar a modalidade competitiva. Este é o caminho.

Jogadores do Bauru comemoram o título da Liga das Américas (Gaspar Nóbrega/FIBA Américas)

Jogadores comemoram o título da Liga das Américas (Gaspar Nóbrega/FIBA Américas)

Voltando ao Bauru, quando você sentiu que era hora de investir ainda mais na equipe, contratando reforços de peso, que foram responsáveis por pavimentar o caminho para os títulos?
Eu quis montar um time campeão, queria deixar o basquete mais competitivo no Brasil. O Flamengo vinha em um ciclo vitorioso e, no meu entender, não podemos ter apenas um time forte para não acabar com os outros times. A posição de Bauru fez Limeira se reforçar, Mogi montou um bom time. Nós demos uma movimentada no mercado e fizemos outros times, talvez não na mesma proporção, se movimentarem dentro na condição de cada um.

E, claro, deu resultado… Título paulista, Liga Sul-Americana, Liga das Américas…
…E tem o NBB. Nós somos um dos candidatos. Não quer dizer que vamos ser campeões, mas estamos entre os dois, três times que vão brigar pelo título. Tem também o Mundial, que deve ser no final de setembro, começo de outubro… O pessoal da Fiba me comentou que vai trazer para São Paulo, no (ginásio) do Ibirapuera. Ser competitivo não quer dizer que vamos ganhar tudo, mas acho que temos condições de chegar bem em todos os campeonatos. Queremos ganhar tudo que tiver. Falei para o time que agora o nosso sonho é o NBB. Acabou o NBB em junho, o nosso sonha passa a ser o Mundial. Temos de dar um passo de cada vez. Não podemos abrir mão de nada para tentar ser campeão do mundo e aí não acontece e ficamos de mão abanando. Com planejamento, com o time bem estruturado, dá para você disputar com chances reais de ganhar qualquer campeonato.

Como é o contato com o time, acompanha os treinos, dá palpite?
Não vou aos treinos. Sou amigo do Guerrinha, mas nunca interferi em nada na questão técnica. É uma decisão que está nas mãos dele. Eu brinco que sou patrocinador, amigo e torcedor. Tenho um bom relacionamento com os jogadores, fui eu que negociei todos os contratos pessoalmente, mas nunca interferi em nada.