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A Amarelinha!

Independentemente da opinião a respeito das manifestações, o fato é que o brasileiro subliminarmente ao usar a camisa da Seleção de Futebol reafirmou o caráter público desse esporte no País, que clama por uma política de Estado.

Maurício Capela

16 Março 2015 | 15h35

As manifestações deste domingo mudaram a rotina do fim de semana, continuaram a dar combustível para o debate virtual e reafirmaram posições, ideais e crenças de quem foi e de quem lá não colocou os pés. Além disso, esses protestos dominicais também deram um recado claro, ainda que de maneira subliminar. Uma mensagem inequívoca de que o futebol só tem relevância porque o povo o assume como dele!

Quando a maioria presente nas manifestações decidiu vestir a camisa da Seleção Brasileira de Futebol e não do Vôlei, do Basquete, do Handebol ou de qualquer outra modalidade, cada um dos muitos brasileiros de maneira espontânea reafirmou a paixão e a inquestionável popularidade desse esporte que o Brasil tomou para si! O futebol é, sem dúvida, a nossa principal manifestação cultural-esportiva.

É justamente esse simbolismo – ainda que o futebol sabidamente não tenha sido nem tema colateral dessas manifestações, o que obviamente era de se esperar -, que deveria dar combustível para que as esferas governamentais olhassem também com carinho para o atual cenário desse esporte no Brasil.

A falta de competitividade dos clubes frente o poderio das agremiações internacionais, a ausência perene de revelações de jovens talentos, a fiscalização ainda por construir no que diz respeito à administração dos recursos financeiros das entidades esportivas e a fragilidade da Seleção também minam a crença do brasileiro em valores éticos e morais. Ainda que de maneira intrínseca e simbólica, mas, de fato, contribuem.

O futebol brasileiro anseia por dias melhores. Por dias em que o calendário permitirá a internacionalização definitiva dos clubes para que também possam ser conhecidos tal qual a Seleção Brasileira.

Esse esporte também aguarda o dia em que poderá contribuir sistematicamente com a economia brasileira, gerando postos de trabalhos, divisas consistentes por meio das transações internacionais de atletas até desembarcar na Bolsa de Valores de São Paulo.

Os 12 maiores clubes do País podem mais do que apresentam hoje. E naturalmente o seu desenvolvimento puxaria o restante das agremiações para um outro patamar.

Em outras palavras, está na hora de chutar para escanteio o discurso de que é normal o Manchester United receber ao redor de R$ 100 milhões por ano (um pouco mais ou um pouco menos a depender da cotação da libra esterlina) do seu principal patrocinador de camisa. E o Corinthians, por exemplo, que detém o melhor contrato faturar com o seu principal patrocínio a cifra de R$ 30 milhões a cada 12 meses.

Um terço do valor é muito desproporcional! Não é normal, porque não encontra cenário de razoabilidade quando se compara nominalmente, por exemplo, o tamanho das economias do Brasil e da Inglaterra, desconsiderando, claro, qualidade de vida, índice de desenvolvimento humano e outros acurados indicadores.

É claro que o distanciamento entre os clubes do Brasil e os de ligas profissionais como do Reino Unido, Alemanha e Espanha deverá continuar existindo por muitos anos. Mas a questão é o tamanho da distância e não ela em si.

Portanto, sim, é possível reduzir esse fosso, ainda que seja difícil eliminá-lo. Mas para isso não bastam vontades isoladas. É preciso aceitar as deformações, discutir agenda e implementar ações. Um papel que deveria ser assumido pelas esferas governamentais, porque as manifestações mostraram que, apesar de a Confederação Brasileira de Futebol ser uma entidade privada, o futebol é público e é do público.