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São Paulo e Corinthians jogam a concentração para escanteio

Desde 2014, o São Paulo adotou o fim da concentração em algumas partidas e agora, o clube recebe a companhia do Corinthians em um movimento que ajuda a aumentar a consciência profissional no esporte.

Maurício Capela

11 Março 2015 | 15h48

Poucos verbos têm acompanhado as diversas fases do futebol no mundo como “concentrar”. Se a Europa já deu um chega para lá na concentração em muitos jogos, no Brasil, o tema desperta paixões. Há quem o defenda e há quem simplesmente o encare como algo herdado do tempo em que “se amarrava cachorro com linguiça”.

O fato é que a concentração é um dilema no Brasil. Mas já foi pior. De tão enraizada no cotidiano dos boleiros no País, a concentração era um desses assuntos tabus entre a boleirada, comissão técnica e diretoria. Ou seja, se tem jogo, tem concentração e ponto final.

Mas o futebol mudou… Entrou de vez na era do negócio, onde jogador não joga só bola. Ele é garoto propaganda de marcas famosas, é chamado a dar opiniões das mais diversas e é cercado por um staff que começa na preparação física, passa pela comunicação e desemboca no gerenciamento de seus recursos pessoais.

Chance de mudar? Poucas. Para não dizer, quase nenhuma! Então, por que a concentração, em meio a tanto profissionalismo, faz-se necessária?

Há várias testes circulando entre atletas, técnicos e cartolas, mas boa parte delas gira em torno de dois grandes argumentos. Para alguns, concentrar significa manter a unidade do elenco, enquanto que para outros é simplesmente uma forma de evitar que o jogador não se aventure noite adentro nas horas anteriores à partida. 

O primeiro argumento até guarda lá alguma lógica. Afinal, horas antes de um jogo importante pode se fazer necessário que o grupo de atletas e a comissão técnica respirem o mesmo ar e comunguem do mesmo objetivo.

O problema está na segunda tese. Em meio a tanto profissionalismo e dinheiro, é um exagero precisar conscientizar um jovem adulto ou um homem feito de que se houver extravagância horas antes de uma atividade física, o atleta em questão simplesmente não vai conseguir fazer o seu trabalho. Porque o seu trabalho, jogar futebol, depende, e muito, do físico.

Sinceramente, profissionalismo é o mínimo que se pode se exigir de um atleta. E não é só pelos grandes salários, pela postura de ídolo ou pela fama que o ato de jogar futebol o confere. Não! É pela carreira! Porque toda profissão tem ônus e bônus e o futebol não é diferente.

Portanto, é ótimo que duas grandes equipes do futebol brasileiro estejam dispostas a discutir o assunto. O fato de, primeiro, o São Paulo e, agora, o Corinthians decidirem dispensar a concentração, quando o jogo não é relevante, é pedagógico. Adiciona consciência profissional ao meio futebol.

Contudo, convém dizer que o fim da concentração ou mesmo a sua dispensa eventual não vai salvar o futebol brasileiro. Mas convém também dizer que é um sinalizador de que ares profissionais sopram mais forte. Ganham forma de ventania e não mais de brisa. E no conjunto da obra, esse ato, em conjugação com outros, acaba por contribuir e muito para o avanço da profissionalização no futebol.