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A reinvenção de Tite *

Luiz Zanin Oricchio

10 Março 2015 | 13h16

Nesse nosso ambiente desidratado de craques, o Corinthians de Tite pode servir de modelo para o futebol brasileiro? Amigos, fiquei pensando nisso ao assistir a mais uma vitória do Timão sobre o São Paulo no domingo. Tenho acompanhado com atenção aos jogos do alvinegro e sempre fico bem impressionado com a sua consistência. Não é jogo do meu agrado pessoal, mas há que se reconhecer que se trata de estilo sólido, pragmático e aperfeiçoado em relação àquele praticado na primeira passagem de Tite pelo clube.

Aquele time parecia mais travado que o atual. Este, sem arrancar suspiros de admiração, move-se com maior fluidez em campo. É, de qualquer forma, um futebol mais bem jogado. Lembra muito pouco aquilo que nos costumamos a chamar de estilo brasileiro. Mas, tendo esse estilo desaparecido na prática, por razões que todos conhecemos, a minha pergunta é se pode ser substituído por este, mais pragmático, proposto por Tite.

Muitos colegas, aos quais devo respeito e admiração, têm atribuído essa melhora, esse aperfeiçoamento dentro do pragmatismo, ao ano sabático tirado por Tite. O período sem emprego, ele o utilizou para trabalhar à beça. Quer dizer, para estudar. Observou o futebol tal como é jogado em seu único centro de referência, a Europa. Conversou com alguns treinadores e meditou. Deve ter pensado muito. E lido. Sem querer entrar na cabeça do Tite, imagino que deve ter remoído sem cessar a seguinte questão: “Como devo fazer para jogar à maneira europeia sem dispor dos craques que os clubes de lá têm em abundância?”A resposta, imagino, está sendo dada a cada vez que o Corinthians entra em campo. Nas duas vitórias recentes sobre o São Paulo e na derrota imposta ao San Lorenzo.

Neste ponto, queria abrir um parêntese para reflexão. Todos nós deveríamos ter direito a um período sabático de vez em quando. O diabo é convencer os patrões. Mas eles mesmos, se refletissem melhor, veriam como é saudável para o profissional dispor de um período de tempo para reciclagem. Em geral, vamos exercendo nossas funções de maneira mais ou menos competente, até que ela se torna mecânica. Funciona. Mas, talvez, depois de adquirida a competência, nos tornemos rígidos. Deixamos de responder a demandas novas e apresentamos sempre as mesmas soluções, mesmo a problemas diferentes. Com a rotina e a repetição, tudo isso para de funcionar. É hora então de reciclagem. Para isso, é preciso tempo, estudo e meditação, coisas raras no mundo de hoje, porém insubstituíveis, caso se deseje evoluir.

A questão é se a alternativa corintiana pode se transformar em modelo, num paradigma. Entendo que pode servir como inspiração. Nenhum time, hoje, pode se dar ao luxo de ignorar certos fundamentos do futebol moderno. Quando o faz, o resultado é algo como 7 a 1. Agora, entendo, também, que cada clube deve adaptar esses fundamentos à sua cultura própria, que depende de sua história, da tradição, de uma forma de jogar cristalizada, que é quase como uma marca registrada. Isso, em estado puro, não existe mais. Não adianta o Palmeiras ter em mente a classe da Academia, ou o Santos espelhar-se na era Pelé, simplesmente porque não existem jogadores como os daquele tempo. Mas são identidades que ficam, como um ruído de fundo.

No Santos, por exemplo, Tite teria dificuldade em aplicar sua filosofia de trabalho, feita de jogadores maduros, experientes e dispostos a levar uma proposta tática a sério. Na Vila, prevalece a cultura das categorias de base, do aproveitamento das revelações, dos milagres, dos raios que caem várias vezes no mesmo lugar. Foi o que derrubou Enderson Moreira, em rota de colisão com os “meninos” de uma geração nem tão brilhante assim. Mas é a mística que manda, e não a realidade.

Férias. A coluna também precisa de reciclagem e dá descanso aos leitores por um mês. Volto dia 7 de abril. Até lá.

 * Coluna publicada na versão impressa do Estadão