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Esportes » Cruyff, um clássico

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Luiz Zanin

25 Março 2016 | 22h11

 

 

Há que se fazer justiça a Johan Cruyff, que morreu esta semana aos 68 anos. Ele não foi apenas um grande craque do passado, que precisamos reverenciar no momento do seu desaparecimento. Foi um dos responsáveis principais pela invenção de um tipo de jogo moderno, que se considera hoje o melhor futebol do mundo, quer dizer, o futebol do Barcelona.

 

Em 1974, na Copa da Alemanha, o melhor vencedor seria a Holanda, que espantou a todos com aquilo que, na época, se chamou de “futebol total”. A Laranja Mecânica, assim apelidada em referência ao filme de Stanley Kubrick, versão do romance de Anthony Burgess, jogava o fino da bola. Laranja era a camisa da Holanda e quem jogava contra ela tinha a impressão de que o time tinha 22 jogadores em campo e não apenas 11. Nenhum deles, à exceção do goleiro, guardava posição. Todos atacavam, todos defendiam. A filosofia era a ocupação de espaço, a compactação na defesa, e, no ataque, a bola de pé em pé, em toques refinados que sufocavam o adversário. Era muito bonito vê-los jogar. Bem, se você não estivesse jogando contra eles, claro. Rinus Michels era o maestro fora das quatro linhas, e Cruyff, o regente em campo.

Na época, parecia impossível pará-los. Lembro do jogo Brasil x Holanda, quando chegamos até a um aparente domínio, mas depois eles foram encontrando seu jogo e a vitória foi inevitável – 2 a 0. Mas acabaram por perder o título para a forte Alemanha. Na Copa seguinte, na Argentina, Cruyff não foi. Recusou-se a jogar num país governado por uma tirania sanguinária. Fez bem. Mesmo assim a Holanda chegou à final e perdeu para os donos da casa.

Desse modo, Cruyff nunca ganhou uma Copa do Mundo, a exemplo de outros grandes, como Zico e Sócrates, também eles craques de uma seleção histórica, mas que não venceu.

Sem ser campeão do mundo, Cruyff marcou muito mais o futebol do que alguns que possuem mais títulos em seus currículos. Revolucionou o futebol. Era o mais cerebral dos jogadores e, também, um craque que sabia dar espetáculo, embora adepto de técnica minimalista. Era econômico, mas, como se sabe, há uma beleza na simplicidade clássica assim como existe uma beleza na exuberância barroca. Fez história no Ajax, na seleção holandesa e, depois, no Barcelona, no qual fundou a escola catalã que hoje admiramos.

Cruyff era um clássico.