O ‘estilo’ do Corinthians e a falta de estilo do atual futebol brasileiro
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O ‘estilo’ do Corinthians e a falta de estilo do atual futebol brasileiro

Luiz Fernando Zanin Oricchio

08 Maio 2017 | 20h18

Romero comemora seu gol contra a Ponte Preta

 

Bem, foi mais ou menos o que se esperava, com o Corinthians em momento algum tendo sua vantagem ameaçada. A Ponte entrou em campo bastante consciente de que seria muito difícil, senão impossível, reverter os 3 a 0 do primeiro jogo. Em consequência, jogou para o gasto. Pela honra, digamos assim. Que foi salva com o gol de Marllon, no final, empatando o jogo. O Corinthians havia aberto a contagem com Romero, o contestado Romero, vejam só.

Enfim, para quem não tinha nada com o assunto, e só queria ver um bom jogo, foi um espetáculo muito pobre. Como a Ponte, depois do fiasco de Campinas, não tinha confiança em si, não conseguiu botar fogo na partida. O Corinthians administrou. Ou seja, fez o que sabe fazer de melhor, cozinhar o galo, defender-se bem e com consistência. Essa mistura de falta de esperança e pragmatismo não dá boa liga. 

O Corinthians joga um futebol que não encanta. Agora, reconheço que essa avaliação é subjetiva. Para o corintiano, que lotou o Itaquerão, o time deve ter jogado bem à beça. Mesmo porque Carille segue a cartilha do mestre Tite e também a de Mano. Tite evoluiu; é hoje o grande treinador brasileiro e está fazendo um grande trabalho na seleção brasileira. Mas todos conhecem sua trajetória e sabem que gosta de construir um time a partir da defesa. Monta assim equipes sólidas e se adapta ao material que tem nas mãos. Na seleção, pode se esbaldar, pois conta com brasileiros dos quatro cantos do mundo entre os selecionáveis. Os melhores. Num time, é diferente. Cozinha-se o omelete com os ovos disponíveis.

Hoje o PVC, o Paulo Vinícius Coelho, escreve uma coluna interessante na Folha. Começa por dizer que o Corinthians ganhou o campeonato jogando em seu estilo, para entrar em seguida num sofisma e dizer que na verdade nenhum time brasileiro tem hoje um estilo, uma forma de jogar, uma assinatura futebolística. Cita o Santos dos tempos do presidente (já falecido) Luis Alvaro, que insistia no “DNA ofensivo” do time da Vila. E diz que, desde que voltou da série B, em 2009, “O Corinthians é compacto, seguro e letal”. Foi forjado por Mano e aperfeiçoado por Tite, que levou o clube ao título mundial.

Acho que essa questão deve ser mais bem discutida. O que é esse “DNA”? Bem, é uma maneira de jogar aceita pela torcida e depurada pelo tempo. Sancionada por jogadores que fizeram História no clube, por títulos, por façanhas, por partidas históricas. Algo que se vai decantando e solidificando de maneira progressiva. Não se faz de uma hora para outra. 

O caso do “DNA ofensivo” do Santos, enaltecido pelo seu então presidente, se deve a uma tradição de ataques poderosos, que começa já antes da era Pelé. Mas é com Pelé, com Coutinho, Mengálvio, Pepe, Zito, Dorval & Cia que se solidifica e surge a fama de uma das grandes equipes de todos os tempos. A maior de todas, dirão os santistas. Isso ficou na memória da torcida e, reparem, até mesmo na parte da torcida que nem era nascida na época. Essa maneira de jogar renasce, com júbilo, em algumas ocasiões, como nas equipes de 2002, como Diego e Robinho, e 2010, com Neymar e Ganso, times logo desfeitos, mas que deixaram uma memória de brilho. Nesses momentos de graça o clube se reencontra consigo mesmo. Volta a ter identidade e assinatura reconhecíveis. São mágicos.

Todos os grandes clubes são assim. O Palmeiras, com a Academia dos anos 60, renascida na época da Parmalat. Times que criaram o “DNA” do jogo bem jogado, com elegância, no trato refinado da bola. A imagem maior talvez seja a de Ademir da Guia, o grande. Talvez seja essa imagem do passado, o seu DNA de Academia, que o Palmeiras atual, muito bem forrado de dinheiro, busque agora. Uma imagem do passado, em suma. Ainda não deu liga. Apesar do título nacional do ano passado, o Palmeiras não criou ainda uma equipe capaz de atravessar intacta na memória de gerações da torcida. 

O Corinthians tem que tipo de DNA? Durante muito tempo a marca característica foi a raça, a entrega, a dedicação, algo, em campo, equivalente à paixão da Fiel na arquibancada. Mas o Timão do Doutor Sócrates podia ser raçudo e classudo ao mesmo tempo, porque as qualidades não são incompatíveis. Assim como o Corinthians do ano 2000, que tratava bem a bola, embora fosse um tanto monótono sob a orientação de Parreira. Com a queda e a volta da 2ª divisão, como lembra PVC, a consistência tornou-se a tônica, quase uma obsessão. Como a dizer que jamais voltaria a cair e que, pelo contrário, faria dessa consistência, desse jogar seguro, a sua marca maior.

Agora vence o Paulistão com essa equipe mediana, de pouca expressão individual, mas que sabe o que pretende em campo. Taticamente, o Corinthians é muito forte.

Dito isso, me parece óbvio que o tal do DNA de cada clube só pode ser honrado na medida das posses. Da grana disponível. O Santos pode ter o DNA ofensivo da era Pelé, mas formou, ao longo dos anos 1980, algumas das piores equipes da sua história. Oscila muito e, apesar de apostar muito na base, nem sempre pode contar com a aparição de garotos geniais. Que, aliás, pouco tempo ficam no clube.

Desse modo, os “estilos” tendem mesmo a se tornar muito diluídos no futebol brasileiro, pois as equipes se formam e se desfazem ao sabor dos ventos. Quando há grana (raro) contratam-se bons atletas ou mantêm-se as revelações. Ao primeiro sinal de crise, todos são postos à venda. Recomeça-se do zero. E assim a fila anda. Para recuperar a vitalidade de antes, desse salutar conflito entre estilos definidos, seria preciso recuperar a nossa autonomia financeira diante do mundo.

Mas isso, hoje em dia, no momento em que escrevo, parece nada mais que o sonho distante de uma noite de verão.