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Por que escrever sobre futebol?

Luiz Zanin

09 fevereiro 2016 | 19:31

 

Na verdade, eu deveria ter acrescentado o “ainda” ao título. Por que ainda escrever sobre futebol?

Há mais de dez anos escrevo regularmente sobre o jogo da bola. Em 2004 fui convidado pelo jornal para uma coluna semanal chamada Boleiros – título este tirado do belo filme de Ugo Giorgetti, Boleiros – Era uma Vez no Futebol (1998).

O objetivo, se bem me lembro, era mesclar “especialistas” e pessoas interessadas nesse esporte, mas dedicadas a outras áreas de atividade. No meu caso, a crítica de cinema. No de Giorgetti, convidado também para ser colunista, a de cineasta. Daniel Piza, já falecido, era outro “boleiro” ligado ao jornalismo cultural. Tínhamos como parceiros o grande Antero Greco, o ex-jogador Neto, o jornalista Marcos Caetano, o roqueiro Nando Reis. Acho que eram estes. Alguns nomes foram mudando. Outros permaneceram. Daniel morreu. Neto, Nando e Marcos Caetano saíram, em épocas distintas. Outros chegaram, como o ótimo Paulo Calçade. Tinha muito orgulho em fazer parte desse time, até que eu também saí, ano passado.

Foram quase 11 anos com a obrigação de escrever uma coluna todas as semanas. Houvesse assunto ou não. Sempre havia. Como diz meu querido Antero, daria para escrever todo santo dia porque o joguinho da bola não nega fogo ao gerar temas para reflexão e comentário. O futebol é inesgotável. Mesmo quando a bola não está rolando.

Exatamente por isso, fazia alguns anos abrira um blog particular chamado O Jogo de Zanin. Uma coluna por semana era pouco para mim. E o que não podia colocar no papel, ia para o blog. Tempos depois, propus ao pessoal do Portal do Estadão migrar esse blog para lá. E é este o blog que você está lendo. Quando a coluna foi “descontinuada”, permaneci escrevendo no blog. Mas confesso que não é a mesma coisa.

Sou, como alguns colegas mais “experientes”, da geração Gutenberg. Aprendemos e exercemos o jornalismo no papel, no impresso. Autodepreciativos, como todos os bons profissionais de imprensa, sempre dizemos que o que escrevemos vai forrar a gaiola do papagaio no dia seguinte. Mas pouco importa. Para nós, o papel ainda é fundamental.

E, depois, quando se tem uma coluna, fica-se matutando quase a semana inteira para decidir o que se vai colocar lá. É meio angustiante. Queremos ocupar aquele espaço com o melhor de nós. E não admitimos ser repetitivos ou medíocres. Por exemplo, no meu caso, a coluna circulava às terças. No domingo, havia a rodada, comentada amplamente nas edições de segunda-feira. Os colunistas de segunda também falavam dos jogos. O que restava para mim? Encontrar um ângulo original, algo que ainda não tivesse sido abordado nem pelo meu jornal e nem pela concorrência. Esse trabalho de depuração me angustiava e ao mesmo tempo deliciava, quando encontrava uma maneira de tratar o tema que não havia sido contemplada pelos meus colegas, tanto do Estado como da Folha e Globo.

No blog é diferente. Podemos escrever todos os dias, se quisermos. Ou de semana em semana ou até de maneira irregular, apenas quando algum assunto se impuser, quando tivermos tempo e saco, coisas assim. Há um certo descompromisso que a coluna não permite. A coluna te obriga à disciplina. Você tem contas a prestar. Ao teu editor, aos teus colegas, aos patrões. No blog, você é seu próprio editor e patrão. Fica tudo em casa. Você escreve o que quiser, quando entender e do tamanho e jeito que melhor lhe parecer. O que é confortável, mas pode também ser desmobilizante.

De modo que, a partir do momento em que perdi a coluna semanal no jornal impresso, fui tornando menos frequente a participação no blog. Me deu um certo bode geral, não apenas da imprensa, mas do próprio futebol. Assim, volta e meio fico a me perguntar se vale ainda a pena manter este blog, que passou a ser o único veículo em que me expresso por escrito sobre futebol. Alguém está interessado? Isso faz diferença para alguém? Faz bem para mim mesmo? Não sei, e aproveito este recesso de carnaval para pensar a respeito.

Um amigo me contou seu caso. Colunista de êxito, em jornal de grande circulação, ele tirou férias de um mês. Quando o período de descanso terminou, pediu mais um mês de prazo. E, por fim, comunicou que não iria voltar. Fadiga do material? Sensação de estar se repetindo? Vontade de abrir tempo na agenda para outros projetos? Tudo isso, talvez. Ele apenas me lembrou que escrever uma coluna semanal, a sério, dá um trabalho danado. Inclusive, no caso do futebol, te obriga a acompanhar partidas que, de outra maneira, você jamais sonharia em ver. Sei disso por experiência própria.

O que sei é que, por paradoxo, toda vez que eu desanimo do futebol, o próprio futebol se encarrega de me injetar alguma energia. Por exemplo, quando vou ao estádio, como fui à Vila Belmiro sábado passado e vi Santos 2 x 1 Ituano. Um jogo medíocre, disputado numa temperatura incompatível com a prática do futebol e, mesmo assim, suficiente para jogar adrenalina na veia do torcedor. Ir a um estádio revitaliza a gente. Principalmente se estamos cheios de dúvidas, como é meu caso.

Outra coisa. Segunda-feira passada fui convidado a debater futebol com o jornalista Alex Xavier e o nosso já citado Ugo Giorgetti. O tema era o segundo filme dele da série Boleiros (que ele jura ter sido o último) e que tem o subtítulo de Vencidos e Vencedores (2006). Foi um bate-papo, no Cinesesc, após a exibição do filme. Havia pouco público e a noite, para mim, era muito triste. Havia morrido meu grande amigo Mauro Dias. Eu estava lá apenas para cumprir tabela, por força do compromisso assumido. Depois, iria deixar minha mulher em casa e seguiria para o velório, para dar tchau ao amigo querido.

Mas, lá pelas tantas, meu ânimo foi mudando, e o papo tornou-se muito gostoso. Não sei se vocês conhecem o segundo filme do Ugo, mas ele é muito crítico em relação ao futebol globalizado. Ugo e eu somos românticos. Fomos formados no tempo do Santos de Pelé, da Academia do Palmeiras, do Botafogo de Garrincha, etc. Futebol, para nós, é isso, do tempo em que os craques ficavam por aqui e a seleção nos representava. Tempos idos. Perguntei ao Ugo: como ele fazia para tirar de cima do futebol toda essa sobrecarga de negócios e marketing dos dias de hoje, de modo a não deixar a paixão se apagar. Ele me respondeu mais ou menos assim: toda vez que começava a ver uma partida de futebol do seu time do coração, era como se estivesse vendo um jogo dos anos 1950.

É a sua solução para não deixar morrer dentro de si o jogo que foi a paixão da sua infância. Descobri que, sem saber, eu fazia mais ou menos a mesma coisa. E, desse modo, apesar da barbárie do futebol-negócio, podemos continuar a apreciar o jogo. Mantemos acesa a chama. Pode ser a saída. Manter uma alienação de 90 minutos. Para o bem do próprio futebol e de nossa saúde emocional.

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