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Robinho e outros mitos

O futebol poderia abrir mão da mística do amor à camisa, ou é essa mitologia que o alimenta do ponto de vista comercial?

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Luiz Fernando Zanin Oricchio

13 Fevereiro 2016 | 09h35

 

Do ponto de vista do capitalismo da bola, não há nenhum reparo a fazer a Robinho. Ele negociou com o Santos e o Atlético-MG. Ouviu as ofertas, barganhou, escolheu a que melhor lhe pareceu e assinou o contrato. Que seja feliz. Optar pelo melhor emprego é direito de qualquer pessoa. Dele, nosso, de todo mundo.

Outro dia, vendo um debate na TV aqui de Santos, um comentarista falava sobre o mesmo assunto (Robinho) e saiu-se com esta: o jogador de futebol é igual a qualquer pessoa, com a diferenças dos zeros no salário. Verdade. Multiplique o seu salário por 100 e você terá os dilemas que cercam essas pessoas. Ao que se saiba, Robinho achou pouco os R$ 600 mil do Santos e fechou com os R$ 800 mil do Atlético. É o que se diz, porque, como sabem todos, a começar por Neymar e seu pai, esses contratos são nebulosos, trazem cláusulas secretas, etc. Coisa de peixe graúdo, não de contratos de trabalho normais, de pessoas como você e eu. São contratos de popstars, elaborados por advogados espertos, que levam uma parte da grana para escrevê-los e aprová-los.

Que isso não se converta em texto ressentido. Se os rapazes ganham tudo isso, é porque existe alguém, ou alguma empresa dispostos a pagá-los. Provavelmente, geram lucros condizentes com o tanto que recebem. Se isso é lícito, se é ilha da fantasia, se é lavanderia, eu não sei. É com as partes interessadas, e com a Receita, naturalmente.

O que me parece um pouco chata é a mistificação criada em torno dessas operações comerciais. A meu ver, a bem da honestidade, elas deveriam ser tratadas como tais. Mas, não. Cria-se, às vezes com a conivência da imprensa, a impressão de que o atleta está indo para novos desafios, porque gostou do projeto, ou até porque, desde criancinha, alimenta afeição recôndita por aquele determinado clube. Segue-se a cerimônia de apresentar-se, vestir a nova camisa, beijar o escudo, etc. Isso me deixa um pouco constrangido. Não seria melhor declarar logo de vez: “Olha, sou um profissional, vou para onde me pagam melhor, como fazem vocês todos” ?

Mas, não. O papinho é sempre o mesmo e não serve para enganar ninguém. Talvez se inaugurássemos uma era de mais sinceridade, poderíamos encarar o futebol tal como ele é. Mas, será mesmo?

Também eu não tenho nenhuma certeza de que se o futebol fosse encarado tal como é continuaria a gerar as altas receitas atuais. Talvez um pouco de mentira e mistificação faça parte do negócio. Pode ser que o torcedor não aguente lá muita realidade. E assim, aceitamos de bom grado as mentiras que nos contam, mesmo sabendo que são mentiras. Daquele tipo: me engana que eu gosto.  

 

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