Atleta de orfanato paulistano é campeão pan-americano de ciclismo
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Atleta de orfanato paulistano é campeão pan-americano de ciclismo

Demétrio Vecchioli

30 Março 2015 | 00h35

COCUZZI

Esportivamente, o título de Luiz Cocuzzi no cross country eliminator no Campeonato Pan-Americano de Mountain Bike não é exatamente o resultado mais relevante do fim de semana esportivo brasileiro. Mas é, sem dúvida, o que mais emocionante. Luiz Cocuzzi faz parte da equipe do Lar Nossa Senhora Aparecida, um orfanato localizado pra lá de Parelheiros, extremo zona sul de São Paulo. Luiz não é órfão. Seus pais, Ricardo e Selma, é que criam dezenas de crianças ali, sempre em cima de bicicletas.

Cleiton, uma das primeiras crianças acolhidas pelo casal, mais de duas décadas atrás, é hoje o técnico dos irmãos, entre eles Luiz, um dos dois únicos filhos de sangue de Ricardo e Selma. Diariamente, as crianças e adolescentes treinam dentro do próprio terreno do orfanato, onde o patriarca abriu trilhas com a própria enxada.

O sustento do Lar, cujo quarto dos meninos tem Luiz como líder (ele não tem nenhum privilégio na comparação com os órfãos), é tirado do conserto de bicicletas e máquinas de lavar roupa. O Lar recebe bicicletas que não oferecem mais interesse comercial para lojas centrais da cidade, faz de cinco câmbios um e o utiliza na montagem de novas bikes. Na batuta desde muito pequeno, o campeão pan-americano de mountain bike é um exímio mecânico.

Não é fácil chegar nem sair do Lar, em uma estradinha que mal aparece no GPS, no mínimo a uma hora de distância (sem trânsito nenhum) do centro de São Paulo. Dentro das regras rígidas impostas por Ricardo, fica ainda mais difícil sair do Lar rumo ao “mundão”,  a como Luiz se refere a tudo que fica do portão para fora. O medo das possibilidades oferecidas pela vida na região mais pobre da cidade faz com que os internos sejam barrados até de fazer trabalhos escolares na casa de colegas.

Nem por isso Luiz Cocuzzi não é um cidadão do mundo, que já morou na Suíça e conhece muito mais países do que um brasileiro médio irá conhecer durante toda a vida. No fim de semana passado, ele estava em Cota, na Colômbia, para se tornar campeão pan-americano do chamado CXE (cross country eliminator), uma prova não-olímpica que exige explosão e resistência aeróbica.

Aos 22 anos, não conseguiu repetir a prata do ano passado na prova olímpica (cross country) sub-23, terminando no quarto lugar. Atual número 164 do ranking mundial, ele deve progredir para se tornar o terceiro principal nome do País na prova este ano, mas dificilmente irá para a Olimpíada do Rio.

A primeira vaga é de Henrique Avancini, esse sim o responsável pelo principal resultado do esporte olímpico brasileiro no fim de semana. Número 19 do ranking mundial, ele ganhou o Pan-Americano na elite, encerrando um jejum que vinha desde 2002 sem títulos brasileiros. Isso na Colômbia (país com enorme tradição no ciclismo) e na altitude, numa competição que valia classificação olímpica (para os países que não as obtiverem pelo ranking, o que não é o caso do Brasil).

Atleta de uma das principais equipes do mundo (Cannondale), Henrique tem a melhor estrutura possível e deve entrar no top10 do ranking esse ano. Dos pontos dele depende a permanência do Brasil entre os 13 melhores do ranking de nações, critério para que o País tenha dois ciclistas no MTB na Olimpíada. Sem contar o resultado do Pan, o Brasil é exatamente o 13.º.

Dois veteranos, Ricardo Pscheidt e Rubinho Donizete devem disputar a segunda vaga, com o primeiro hoje 10 posições à frente no ranking, em 75.º. Rubinho, entretanto, competiu pouco internacionalmente no ano passado e deve voltar a participar regularmente do circuito este ano. No Pan, foi sexto, enquanto Ricardo terminou no 21.º lugar. Também concorrem para estar na Olimpíada os garotos Shermann Trezza e Frederico Mariano, mas eles só foram 38.º e 39.º no Pan.

No feminino, o Brasil terá só uma representante na Olimpíada. Ao que tudo indica, ela será Raiza Goulão, de 24 anos, atual número 37 do ranking mundial. Ela deve manter a posição porque repetiu o nono lugar do Pan do ano passado.