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Com Haddad, SP fecha as portas ao esporte olímpico e prioriza MMA

Demétrio Vecchioli

18 Março 2015 | 07h00

Nota corrigida e editada às 15h41 de quarta-feira, 18 de março

A menos de dois anos dos Jogos Olímpicos, a Prefeitura de São Paulo pouco tem contribuído para a preparação dos atletas que representarão o Brasil no Rio 2016. Levantamento do Olimpílulas, com base em dados do site TranSParência, mostra que, dos 410 convênios firmados pela Secretaria Municipal de Esporte (SEME) para a realização de eventos esportivos pontuais na gestão Fernando Haddad (PT), apenas três se destinaram às modalidades olímpicas. Apesar de não existir uma obrigação legal de destinação de recursos à área, a verba corresponde a 7% do repassado a eventos de MMA no ano passado, ao mesmo tempo em que campeonatos de bocha e bolão, submission, kickboxing, sumô, aeromodelismo e hapkido também aconteceram com verbas municipais.

Só em 2014, a prefeitura de São Paulo assinou 35 convênios, somando R$ 5,725 milhões, para eventos de lutas casadas, a maioria de MMA – muitos eventos se apresentam, no nome do convênio, como de artes marciais específicas, mas na prática têm lutas de MMA. Isso é 22,9 vezes mais do que o destinado para competições oficiais de modalidades olímpicas no ano passado. A prefeitura diz que tem como prioridade o social, não o esporte olímpico.

A prefeitura foi advertida, logo no início do mandato de Haddad, do prejuízo ao esporte olímpico, ao beneficiar o MMA. No dia 16 de janeiro de 2013, ele recebeu um documento do Ministério Público que criticava a transferência de R$ 2,5 milhões, decidida pelo ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD), para a empresa de marketing esportivo IMX realizar o UFC em São Paulo. “Gasto desnecessário, abusivo e excessivo de recursos públicos em atividade não olímpica”, escreveu, no despacho, o promotor Valter Foleto Santin, que, à época, disse que patrocinar o MMA em detrimento ao esporte olímpico era uma “danosa escolha administrativa”. Na ocasião, a vice-prefeita Nadia Campeão (PCdoB) garantiu que Haddad não estava mais disposto a injetar dinheiro em eventos de MMA.

Desde então, Haddad fechou apenas três convênios para a realização de eventos oficiais de três das 27 modalidades olímpicas de verão: GP São Paulo de Ciclismo de 2013 (R$ 134 mil), final do Circuito Mirim e Petiz de Natação de 2013 (R$ 40 mil) e Taça São Paulo de Arco e Flecha de 2014 (R$ 250). Só o primeiro aconteceu por decisão voluntária da SEME – os demais receberam emendas, respectivamente, dos vereadores Aurélio Miguel (PR) e Marquito (PTB).

O grosso dos recursos é repassado às modalidades de artes marciais não olímpicas, especialmente kung-fu, jiu-jítsu, kickboxing, muay thai e duas vertentes do karatê. O levantamento do Olimpílulas mostra que foram firmados 154 convênios para eventos pontuais de artes marciais nos últimos dois anos, somando R$ 20,260 milhões. Desse total, R$ 1,13 milhão foi utilizado em competições de judô (a maioria por emendas do vereador Aurélio Miguel) e R$ 1,903 milhão para o tae kwon do, únicas duas modalidades olímpicas de combate beneficiadas.

Mais de 82% da verba destinada ao tae kwon do (R$ 1,578 milhão), entretanto, chegou à Liga Nacional de Taekwondo e à FETESP (federação paulista), nenhuma das duas reconhecidas pelo COB. As entidades são presididas por Yeo Jin Kim, filiado ao PTB pelo presidente estadual do partido e deputado estadual Campos Machado. O partido controla a secretaria e trata Kim, em seu site, como diretor estadual do PTB Esporte, o que ele nega.

Pelo modelo vigente, o governo federal é proibido de transferir recursos para federações estaduais, que só podem assinar convênios com Estados e prefeituras. Do programa olímpico, são 29 federações paulistas que dependem do governo do Estado (que beneficia seis delas: triatlo, tênis, judô, atletismo, natação e ciclismo) e especialmente da prefeitura da capital, cuja ajuda é nula.

No olimpismo, exceção a futebol e aos eventos já citados, só foram realizados torneios de vôlei, basquete, handebol (nos Jogos da Cidade, além de vôlei master e duas variantes do basquete), canoagem (com verbas para uma federação não oficial), tênis (cinco eventos, dois deles nomeados “Torneio de Tênis”) e atletismo (especialmente corridas de rua). As demais modalidades não foram beneficiadas nenhuma vez, conforme levantamento do blog.

A prefeitura alega que “não há obrigatoriedade de reconhecimento por parte do Comitê Olímpico do Brasil para a realização dos eventos de esportes, lazer e recreação”. A administração municipal pontua: “Nossa missão não tem prioridade olímpica e sim social.”

CONVÊNIOS – Se em 2013 a Prefeitura desistiu do UFC, nos meses seguintes, contudo, fechou convênios para eventos de pouca repercussão, a maioria deles ligados a Mauzler Paulinetti, assessor parlamentar do vereador Aurélio Miguel.

War Fighting – competição que mistura paintball e MMA e na qual os mesmos atletas se enfrentam nas duas modalidades e ganha quem somar mais pontos. Só em 2014 foram três convênios, cada um de R$ 335 mil, somando R$ 1,006 milhão. Em entrevista a vários sites, entre eles o Esportividade, durante uma das edições, Mauzler se apresentou como o idealizador do evento. Os recursos, entretanto, foram repassados à Associação de Jiu-Jítsu Pró-Esportiva (presidida por Roberto Godoi) e à Federação dos Desportos de São Paulo, a SP Desportos, de Francisco Del Rio Andrade.

MMA Super Heroes – as etapas do torneio contaram com cinco convênios (dois de R$ 141 mil, três de R$ 160 mil) no ano passado, fechados com o Sindicato das Entidades de Administração do Desporto de São Paulo (Seadesp), criado por Mauzler. A entidade, de caráter sindical, atualmente tem como presidente José Jorge Farah Neto, dirigente do futebol de mesa e filho do ex-presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF) Eduardo José Farah. Farah Neto diz ter sido dele a ideia de apostar no MMA para divulgar a Seadesp.

Circuito de Lutas Fight Night – organizado pela Swen Sports, teve cinco eventos pagos com recursos de convênios municipais em 2014, somando R$ 779 mil. Quatro ficaram a cargo da Liga Nacional de Lutas, Artes Marciais e Esportes (LAMEC), criada em 7 de janeiro de 2013 e que tem como presidente de honra Murray Lipnik, israelense que é também dono da Swen Sports, parceira da Federação Universitária Paulista (FUPE), presidida por Aurélio Miguel e que tem Mauzler como vice.

Star Fight Night – convênio firmado com o Instituto Mais Esporte, de Fernando Couto, diretor técnico da Associação Paulista de Desportos, entidade criada em 29 de março de 2013 e presidida por Murray.

A prefeitura também firmou convênios para realização do Jungle Fight 72, 74, 76 e 79 (R$ 125 mil cada), da BJJ Stars (R$ 100 mil), para cinco edições do WGP (somando R$ 965 mil), Amazing Fight Brazil (R$ 162 mil), Golden Fight III e Max Sport (R$ 100 mil), além de eventos de muay thai organizados ora pela Mais Esporte, ora pela Federação Paulista de Lutas e Artes Marciais (Feplam, também presidida por Couto).

OUTRO LADO – Procurado pela reportagem, Mauzler disse que sempre é convidado para eventos de MMA e, “se possível”, colabora com seu conhecimento técnico. “Tal fato se dá na forma de cooperação estritamente consultiva e de orientação”, disse Mauzler.

Questionado sobre os repasses a Yeo Jin Kim, o deputado Campos Machado alegou que só a secretaria poderia responder sobre os convênios. O vereador Aurélio Miguel nega que tenha relação com os eventos citados e afirma que nunca interferiu em convênios firmados entre a SEME e entidades esportivas. A reportagem deixou recado no telefone da Feplam, mas não obteve retorno. Murray e Chico Andrade não foram localizados. Godoi afirma que só participou de uma das edições do War Fighting.